Ao anoitecer, nove jovens se reuniram numa rua arborizada em Chertanova, uma comunidade-dormitório nos arredores de Moscou. De cabelos raspados, alguns usavam máscaras cirúrgicas e luvas grossas de trabalho. Alexei Khudyakov, seu líder, deu as instruções finais como um líder de pelotão orientando seus soldados para um ataque.
"Os dormitórios onde eles moram ficam do outro lado do prédio", explicou Khudyakov, 25, enquanto sua equipe se agitava de ansiedade.
"Eles" são o alvo mais recente do ultraje político e popular aqui: trabalhadores imigrantes sem documentação, especialmente aqueles das antigas repúblicas soviéticas, como Uzbequistão e Tadjiquistão. E a equipe de Khudyakov tinha a intenção de pegá-los no local onde dormiam.
"Nós vamos entrar", disse ele ao grupo, em parte alertando e em parte pedindo para que eles não usassem violência nem linguagem ofensiva, "mas não vamos ser rudes. Eu não quero ver agressão."
Eles se autointitulam Escudo Moscou, uma organização que se descreve como de "direitos" que, como dezenas de outras no país, está atraindo homens e mulheres jovens, alguns pelo zelo e outros pelo tédio, por uma busca de propósito ou por um sentimento de pertencimento.
O grupo invade porões apertados e outros espaços lotados de gente, identificados através de denúncias anônimas de moradores, e em seguida tenta deter os imigrantes até a polícia chegar. Numa contagem online, o Escudo Moscou afirma ter "descoberto" mais de 600 imigrantes ilegais, sete dos quais foram deportados desde a criação do grupo, em março.
Embora a Rússia tenha tomado medidas severas contra muitas organizações não-governamentais, especialmente aquelas que, na percepção do governo, desafiam a autoridade do presidente Vladimir Putin, grupos pouco organizados como esses parecem estar prosperando, principalmente aqueles que aderem a uma agenda pública cada vez mais conservadora.
Como as patrulhas cossacas do sul da Rússia ou programas de vigilância improvisados nos bairros, que lutam contra traficantes, a polícia dá ao Escudo Moscou uma liberdade de operação incomum --e às vezes até uma ajuda tácita-- enquanto os integrantes do grupo vêm adotando táticas agressivas e até mesmo ilegais.
O grupo, assim como outras organizações de jovens nacionalistas e patrióticas, está dando um apoio auxiliar à repressão intermitente da Rússia contra os trabalhadores imigrantes, que se intensificou no mês passado quando a polícia deteve cerca de 1.500 imigrantes num campo de detenção ao ar livre.
"Eles se encontram num nicho seguro", disse Alexander Verkhovsky, chefe do Centro SOVA de Informação e Análise, que monitora o extremismo na Rússia, sobre os grupos anti-imigrantes. Desencantado com a política, os grupos mais jovens têm optado por uma ação mais direta nos últimos dois anos, acrescentou.
Khudyakov, formado na elitista Universidade Técnica Estadual Bauman de Moscou, começou a denunciar comunidades imigrantes ilegais para o Serviço Federal de Migração da Rússia quando fazia parte da Rússia Jovem em 2009.
Em 2011, ele entrou para o Jovens Antinarcóticos Spetsnaz, um grupo que encurralava violentamente vendedores de uma droga sintética chamada "spice". Seus membros costumavam se armar com marretas, arrombar portas e destruir carros de fuga, e usavam tinta vermelha para pintar os cabelos de seus alvos enquanto outros do grupo os seguravam.
Agora, Khudyakov diz que deixou seus grupos anteriores para trabalhar em causas sociais.
"Sim, nós quebramos alguns cadeados porque de outra forma não é possível fazer o que fazemos", disse Khudyakov em uma entrevista. "Mas estamos prontos para pagar a multa por isso."
Os críticos, como Verkhovsky, dizem que eles são vigilantes.
"Eles estão agindo como acham que a polícia da Rússia deveria agir, e isso significa mais ou menos que estão fazendo a lei por conta própria", disse ele.
Em uma operação no mês passado, cinco organizações, entre elas o Escudo Moscou e duas outras, conhecidas como Luz Rússia e Ataque, alegaram ter pego mais de 100 imigrantes ilegais enquanto a polícia supervisionava a operação. O vídeo do ataque mostrou jovens musculosos lutando contra trabalhadores imigrantes nas barracas de um mercado.
Um porta-voz da polícia distrital disse que seus funcionários não fazem operações conjutas com ativistas. Mas os organizadores de vários dos grupos disseram que cerca de 40 funcionários da ordem pública, incluindo a polícia local e os oficiais de imigração, participaram da operação. Relatos em foto e vídeo enviados a sites de redes sociais mostraram policiais e membros do grupo fazendo prisões lado a lado e a polícia encaminhando uma fila de presos para os ônibus.
No prédio de apartamentos em Chertanova, os jovens do Escudo Moscou não precisaram arrombar para entrar; a porta estava destrancada. O grupo entrou num apartamento com cinco homens e camas para 12. Havia uma dúzia de pares de chinelos no chão. O cheiro de plov, um prato à base de arroz da Ásia Central, pairava pela casa.
Um morador que deu apenas seu primeiro nome, Numon, e sua idade, 23 anos, disse que os outros haviam se trancado num quarto nos fundos quando viram os invasores.
A equipe de Khudyakov chamou a polícia. Enquanto dois oficiais verificavam os documentos dos homens, Yunus Z. Daminov, 24, um dos 12 homens do Uzbequistão que viviam no apartamento e coletam o lixo para os prédios do bairro, disse que não era a primeira vez que estranhos tinham entrado lá. Houve outras invasões e ataques na rua na frente do prédio.
"Havia dois deles, com o dobro do meu tamanho", disse Daminov, um homem de peito largo que estava sentado encurvado sobre uma cama beliche enquanto lembrava do episódio. "Eles não disseram nada. Eles apontaram para mim, e isso foi tudo. Eles começaram a chutar e socar. Eu fiquei inconsciente."
Ele não registrou um boletim de ocorrência e os agressores nunca foram encontrados, disse ele.
No corredor do apartamento, um policial se aproximou de Khudyakov e disse que todos os que moravam na casa, inclusive Daminov, eram imigrantes registrados.
"Entendemos o que você está fazendo", disse o policial a Khudyakov. "Você já teve outras queixas no bairro?"
Tradutor: Eloise De Vylder
"Os dormitórios onde eles moram ficam do outro lado do prédio", explicou Khudyakov, 25, enquanto sua equipe se agitava de ansiedade.
"Eles" são o alvo mais recente do ultraje político e popular aqui: trabalhadores imigrantes sem documentação, especialmente aqueles das antigas repúblicas soviéticas, como Uzbequistão e Tadjiquistão. E a equipe de Khudyakov tinha a intenção de pegá-los no local onde dormiam.
"Nós vamos entrar", disse ele ao grupo, em parte alertando e em parte pedindo para que eles não usassem violência nem linguagem ofensiva, "mas não vamos ser rudes. Eu não quero ver agressão."
Eles se autointitulam Escudo Moscou, uma organização que se descreve como de "direitos" que, como dezenas de outras no país, está atraindo homens e mulheres jovens, alguns pelo zelo e outros pelo tédio, por uma busca de propósito ou por um sentimento de pertencimento.
O grupo invade porões apertados e outros espaços lotados de gente, identificados através de denúncias anônimas de moradores, e em seguida tenta deter os imigrantes até a polícia chegar. Numa contagem online, o Escudo Moscou afirma ter "descoberto" mais de 600 imigrantes ilegais, sete dos quais foram deportados desde a criação do grupo, em março.
Embora a Rússia tenha tomado medidas severas contra muitas organizações não-governamentais, especialmente aquelas que, na percepção do governo, desafiam a autoridade do presidente Vladimir Putin, grupos pouco organizados como esses parecem estar prosperando, principalmente aqueles que aderem a uma agenda pública cada vez mais conservadora.
Como as patrulhas cossacas do sul da Rússia ou programas de vigilância improvisados nos bairros, que lutam contra traficantes, a polícia dá ao Escudo Moscou uma liberdade de operação incomum --e às vezes até uma ajuda tácita-- enquanto os integrantes do grupo vêm adotando táticas agressivas e até mesmo ilegais.
O grupo, assim como outras organizações de jovens nacionalistas e patrióticas, está dando um apoio auxiliar à repressão intermitente da Rússia contra os trabalhadores imigrantes, que se intensificou no mês passado quando a polícia deteve cerca de 1.500 imigrantes num campo de detenção ao ar livre.
"Eles se encontram num nicho seguro", disse Alexander Verkhovsky, chefe do Centro SOVA de Informação e Análise, que monitora o extremismo na Rússia, sobre os grupos anti-imigrantes. Desencantado com a política, os grupos mais jovens têm optado por uma ação mais direta nos últimos dois anos, acrescentou.
Khudyakov, formado na elitista Universidade Técnica Estadual Bauman de Moscou, começou a denunciar comunidades imigrantes ilegais para o Serviço Federal de Migração da Rússia quando fazia parte da Rússia Jovem em 2009.
Em 2011, ele entrou para o Jovens Antinarcóticos Spetsnaz, um grupo que encurralava violentamente vendedores de uma droga sintética chamada "spice". Seus membros costumavam se armar com marretas, arrombar portas e destruir carros de fuga, e usavam tinta vermelha para pintar os cabelos de seus alvos enquanto outros do grupo os seguravam.
Agora, Khudyakov diz que deixou seus grupos anteriores para trabalhar em causas sociais.
"Sim, nós quebramos alguns cadeados porque de outra forma não é possível fazer o que fazemos", disse Khudyakov em uma entrevista. "Mas estamos prontos para pagar a multa por isso."
Os críticos, como Verkhovsky, dizem que eles são vigilantes.
"Eles estão agindo como acham que a polícia da Rússia deveria agir, e isso significa mais ou menos que estão fazendo a lei por conta própria", disse ele.
Em uma operação no mês passado, cinco organizações, entre elas o Escudo Moscou e duas outras, conhecidas como Luz Rússia e Ataque, alegaram ter pego mais de 100 imigrantes ilegais enquanto a polícia supervisionava a operação. O vídeo do ataque mostrou jovens musculosos lutando contra trabalhadores imigrantes nas barracas de um mercado.
Um porta-voz da polícia distrital disse que seus funcionários não fazem operações conjutas com ativistas. Mas os organizadores de vários dos grupos disseram que cerca de 40 funcionários da ordem pública, incluindo a polícia local e os oficiais de imigração, participaram da operação. Relatos em foto e vídeo enviados a sites de redes sociais mostraram policiais e membros do grupo fazendo prisões lado a lado e a polícia encaminhando uma fila de presos para os ônibus.
No prédio de apartamentos em Chertanova, os jovens do Escudo Moscou não precisaram arrombar para entrar; a porta estava destrancada. O grupo entrou num apartamento com cinco homens e camas para 12. Havia uma dúzia de pares de chinelos no chão. O cheiro de plov, um prato à base de arroz da Ásia Central, pairava pela casa.
Um morador que deu apenas seu primeiro nome, Numon, e sua idade, 23 anos, disse que os outros haviam se trancado num quarto nos fundos quando viram os invasores.
A equipe de Khudyakov chamou a polícia. Enquanto dois oficiais verificavam os documentos dos homens, Yunus Z. Daminov, 24, um dos 12 homens do Uzbequistão que viviam no apartamento e coletam o lixo para os prédios do bairro, disse que não era a primeira vez que estranhos tinham entrado lá. Houve outras invasões e ataques na rua na frente do prédio.
"Havia dois deles, com o dobro do meu tamanho", disse Daminov, um homem de peito largo que estava sentado encurvado sobre uma cama beliche enquanto lembrava do episódio. "Eles não disseram nada. Eles apontaram para mim, e isso foi tudo. Eles começaram a chutar e socar. Eu fiquei inconsciente."
Ele não registrou um boletim de ocorrência e os agressores nunca foram encontrados, disse ele.
No corredor do apartamento, um policial se aproximou de Khudyakov e disse que todos os que moravam na casa, inclusive Daminov, eram imigrantes registrados.
"Entendemos o que você está fazendo", disse o policial a Khudyakov. "Você já teve outras queixas no bairro?"
Tradutor: Eloise De Vylder
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