quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Ministro do Interior francês quer expulsar ciganos do país
Miguel Mora - El Pais
Com seis meses de antecedência, a campanha para as eleições municipais e as europeias da primavera de 2014 começou na França, e os ciganos se transformaram no assunto principal e no bode expiatório do fracasso das políticas sociais da República.
O ministro do Interior, Manuel Valls, defendeu nesta terça-feira (24) que os acampamentos ilegais de ciganos romenos e búlgaros que proliferaram na França - onde se calcula que vivam entre 5 e 20 mil ciganos europeus - devem ser desmontados, e afirmou que seus ocupantes serão expulsos para seus países. "Os ciganos têm vocação de voltar à Romênia ou à Bulgária", disse Valls, acrescentando sem a menor ironia que as autoridades desses dois países devem fazer mais "esforços para sua integração".
Em uma entrevista à emissora de rádio France Inter, Valls associou a minoria cigana à "mendicidade e à criminalidade" e afirmou que "a única solução são os desmantelamentos de acampamentos e as expulsões". O ministro justificou assim o que aconteceu há uma semana em Lille (norte), onde a polícia destruiu, a pedido da prefeita socialista Martine Aubry, um assentamento que abrigava cerca de mil pessoas, na maior parte mulheres e crianças, às quais não se ofereceu uma moradia alternativa.
"As soluções passam particularmente pelas expulsões", insistiu o político socialista nascido em Barcelona, que ao ser perguntado sobre o fracasso da integração desses ciganos na França respondeu com uma generalização: "Essas populações têm modos de vida que são extremamente diferentes dos nossos".
Quanto às negociações sobre a entrada da Romênia e da Bulgária no espaço Schengen, o que favoreceria a circulação sem controles da comunidade cigana em outros países, Valls insistiu em que "ainda não está decidido" e explicou que o que se discute é a aplicação dos acordos de livre circulação unicamente nos aeroportos, mas não nas fronteiras terrestres.  
Polêmicas em Toulouse e em Paris
A controvérsia sobre os ciganos alcançou níveis surrealistas em Toulouse, onde o juiz Hervé Barrié, presidente do Tribunal Correcional, provocou o assombro dos sindicatos de juízes e das associações de direitos humanos. Barrié acusou os ciganos de quererem saquear a França durante um julgamento rápido de quatro jovens acusados de roubo. "Vocês pensam que vamos deixá-los saquear a França assim?", perguntou o juiz. Os detidos eram acusados de ter roubado 53 quilos de cobre. Embora a promotoria tenha pedido de seis a oito meses de prisão, o juiz Barrié os condenou a um ano de prisão e 41 mil euros de multa.
  Em um comunicado conjunto, a Liga pelos Direitos Humanos, o Sindicato da Magistratura e o dos Advogados da França afirmaram que as palavras do juiz são "intoleráveis, pois estigmatizam uma categoria da população e estabelecem preconceitos infundados e odiosos entre os detidos e sua origem étnica".
As associações denunciam que esse "discurso deletério, cada vez mais dominante, indica bodes expiatórios e atiça a xenofobia, desprezando a coesão social".
  A controvérsia também chegou à pré-campanha das municipais em Paris, enfrentando as duas favoritas à sucessão do prefeito socialista Bertrand Delanoë. A candidata da conservadora UMP, Nathalie Kosciusko-Morizet, abriu fogo no dia 18 ao afirmar na televisão I-Télé: "Vocês acreditam que assediamos demais os ciganos? Porque eu tenho a impressão de que são os ciganos que assediam demais os parisienses".
  Junto dela, a prefeita do 7º distrito, Rachida Dati, afirmou: "Há um verdadeiro assédio das crianças na porta dos colégios. Vão vê-lo. Eu assumo completamente que é preciso expulsá-los (aos ciganos)".
  Na segunda-feira, a candidata socialista, Anne Hidalgo, replicou às dirigentes populares afirmando que mantêm uma atitude "irresponsável" e que usam "palavras indignas". Paris, disse Hidalgo, "tem valores e não estigmatiza um povo em seu conjunto". Em todo caso, a candidata socialista acrescentou que apoia "a política de Manuel Valls, que consiste em desmontar os acampamentos".
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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