Obama quer fazer da Síria um novo Iraque
Impedida de voltar à síria, cineasta se tornou uma das principais vozes
contra a intervenção armada ao seu país; ela defende uma saída pacífica para o
conflito
BERNARDO MELLO
FRANCO - FSP
Impedida de voltar à Síria por perseguição religiosa, a cineasta Halla Diyab
se tornou uma das principais vozes na Europa contra a intervenção militar em seu
país.
Ela diz ainda acreditar numa saída pacífica para o conflito e afirma que uma
ação armada, além de não garantir o fim do uso de armas químicas, vai agravar o
sofrimento da população civil.
Diyab acusa o ditador Bashar al-Assad de cometer atrocidades contra seu povo
e o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de querer transformar o país em
um novo Iraque.
Em entrevista à Folha, ela também falou sobre as consequências de ter
produzido uma série de TV com críticas à opressão das mulheres no islã. Acusada
de pregar valores ocidentais, foi perseguida por clérigos e escapou para não ter
um braço cortado como punição.
Folha - Você se tornou uma das principais vozes contra a intervenção na
Síria. Por quê?
Halla Diyab - Porque eu acredito na paz. Acredito que a Síria pode
voltar a ser um país pacífico e que os sírios podem recuperar seu orgulho e
voltar a ser cidadãos, em vez de refugiados.
Intervenção militar significa guerra. Não acredito no uso da força para
implantar a democracia nem na violência para garantir a paz. Uma ação militar
transformará a Síria no campo de batalha de uma guerra maior envolvendo Irã, EUA
e Rússia.
Um dia, vão perguntar o que as pessoas que tinham voz fizeram para defender o
país neste momento da história. Para mim, a opção pelo silêncio é covarde e
imoral.
É nossa responsabilidade mostrar ao mundo que a intervenção militar pode
agravar a crise humanitária.
Assad é arrogante e orgulhoso, vai continuar lutando para se manter no poder.
Os rebeldes querem impor a ideologia do islamismo.
Ninguém diz nada sobre a população síria.
Há crianças fora da escola há dois anos. Uma guerra não vai resolver isso.
Acredita que os EUA vão atacar a Síria, como defende o presidente
Obama?
Obama disse que Bashar al-Assad seria punido caso ultrapassasse a linha
vermelha [o uso de armas químicas]. Agora precisa manter sua palavra perante a
comunidade internacional. É por isso que ele quer ir à guerra.
Acho que Obama não se importa com o povo sírio, e sim com o risco de que
armas químicas caiam nas mãos de jihadistas, que poderiam usá-las contra o
Ocidente.
Os EUA deveriam esperar o fim da investigações das Nações Unidas. Em vez
disso, Obama está repetindo o que George W. Bush fez no Iraque. É a mesma
ideologia de supremacia mundial, de que os EUA podem fazer o que quiserem no
mundo.
A intervenção militar não será tão limitada como ele diz. Será um pontapé na
porta que pode levar a um conflito maior em toda a região.
Assad é acusado de cometer um genocídio no país. Deixar de intervir não
significa lavar as mãos sobre isso?
Em dois dias, o Ocidente fez mais do que nos últimos dois anos, ao se unir
para viabilizar uma guerra contra a Síria. Por que os países não se uniram antes
para encontrar uma saída política que possa salvar o país?
As vítimas dessa guerra não serão Assad e sua família, que vão encontrar uma
forma de fugir em segurança. Serão as pessoas comuns, as mães e os jovens
sírios.
Vai haver mais refugiados e mais mortes. Para onde a população vai fugir? Já
há 500 mil sírios sobrevivendo de doações no Egito, na Jordânia e no Líbano.
Mães estão vendendo filhas a jihadistas em troca de comida.
Apesar das atrocidades de Assad, as pessoas estão aterrorizadas com a ideia
de uma invasão externa.
A guerra transformou o Iraque em um terreno fértil para o terrorismo. Nos
últimos meses, houve 4.000 mortes no país por causa do sectarismo. A Síria pode
acabar repetindo isso.
Segundo Obama, o ataque seria a única forma de deter o uso de armas
químicas, que já matou centenas de civis sírios.
Não há como garantir que a intervenção acabará com o uso de armas químicas.
Se o objetivo é punir Assad, é preciso apresentar provas e julgá-lo numa corte
internacional. Não se pode destruir um país para punir um homem.
O Ocidente deveria fortalecer a oposição política na Síria, que está dividida
e sem estratégia, e estimular iniciativas que possam conduzir a um governo de
transição.
Não adianta bombardear as cidades e executar o líder, como fizeram com Saddam
Hussein. O objetivo da ação deve ser a ajuda humanitária ao povo sírio, e não a
luta por poder no Oriente Médio.
O que achou da decisão do Parlamento britânico contra o envolvimento do
Reino Unido na intervenção militar?
Foi a decisão correta. Os políticos britânicos estão conscientes do que o
Reino Unido fez no Iraque e no Afeganistão e não querem que isso aconteça de
novo.
Não adianta invadir os países e depois ver uma repetição do que ocorreu em
Woolwich [bairro de Londres onde o soldado Lee Rigby foi morto por radicais
islâmicos, em maio deste ano].
O Parlamento deixou claro que antes de agir é preciso ver o resultado da
investigação sobre o uso de armas químicas. Você não pode punir quem violou leis
internacionais com uma ação que também viole essas leis.
Assad já disse que não vai renunciar. Se abrir mão de um ataque, o
Ocidente não pode ajudá-lo a ficar no poder?
Quero ser bem clara nesse ponto. Desde que comecei a defender a paz na Síria,
tenho sido acusada por muita gente de apoiar Assad. É imoral acusar alguém que
defende a paz de apoiar um ditador ou um criminoso de guerra.
Defendo a paz porque acho que a guerra será um desastre para o país. Os
sírios têm direito, assim como os americanos, de acordar e levar os filhos para
a escola. As mulheres têm o direito de trabalhar, de ir ao supermercado. Não
merecem ficar presas a uma guerra durante anos.
É possível buscar uma saída política. Se a comunidade internacional se
esforçar, a situação pode ser resolvida sem mais mortes e mais sofrimento no
país.
O que pensa de Assad?
Quando chegou ao poder [em 2000, no lugar do pai Hafez al-Assad], ele se
apresentou como um líder liberal e secular, que levaria a Síria para uma nova
era. Isso mudou ao longo do tempo.
Assad não entendeu e não soube lidar com a Primavera Árabe. Pensou que a
população síria de 2011 era a mesma dos anos 80, quando seu pai chefiou a
repressão em Hama [em massacre que deixou cerca de 40 mil mortos, em 1982].
Ao se sentir ameaçado, ele criou um mecanismo para sobreviver com apoio de
Rússia e Irã, que estão usando a Síria como instrumento para combater o
Ocidente. O país ficou espremido nesse conflito.
Parte da sociedade síria também ajudou a manter essa ditadura. Ditadores não
vêm de Marte. Eles se alimentam do medo das pessoas, da incapacidade de dizer
não. Durante muitos anos, as pessoas apoiaram Assad porque achavam que o regime
protegia seus interesses.
Apesar de ser muçulmana, você foi alvo de uma "fatwa" e não pode voltar à
Síria desde 2010. Como isso aconteceu?
Fiz uma série na TV síria que mostrava como a religião é usada no Oriente
Médio, especialmente por clérigos, para manter a dominação patriarcal e oprimir
as mulheres em nome do islã. E como a burca transforma as mulheres em criaturas
invisíveis, marginalizadas.
Acredito que o uso de uma vestimenta deve ser opção da mulher, e não uma
imposição religiosa. Um clérigo sírio editou uma "fatwa" contra mim, afirmando
que eu estava promovendo ideias ocidentais. Eu deveria ser punida com a perda de
um braço. Hoje, na guerra civil síria, há jihadistas que vão a campos de
refugiados, pagam para uma mulher se casar com eles durante quatro dias e depois
vão para o combate, acreditando que chegarão ao paraíso. Isso é feito em nome da
religião.
Como mudar essa situação?
Acho que a única saída é a educação. As escolas precisam ensinar direitos
humanos, parar de falar só em religião e falar em tolerância.
O Ocidente ainda nos vê como bárbaros e acha que precisa de bombas para lidar
com o Oriente Médio. E nós colaboramos com isso quando matamos em nome da
religião e deixamos que ela controle nossas vidas.
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