A maioria das fronteiras entre os Estados foi desenhada com o sangue das guerras. A maioria dos Estados, mesmo os pequenos, é um agregado de territórios antes separados, e muitos mantêm o desejo de voltarem a ser assim.
Um Estado é uma coisa altamente artificial, uma ficção da história, uma linha irregular em um mapa transformada em fetiche, um "casus belli" e uma licença para todas as tolices que chamamos de nacionalismo, patriotismo e outros absurdos perigosos.
Por todo o planeta há reivindicações por um país de propriedade de parte ou até mesmo de todo um outro. Uma das mais cômicas é a reivindicação de Gibraltar pela Espanha –cômica porque a Espanha possui cerca de uma dúzia de Gibraltares na costa do Norte da África e arredores, e até mesmo dentro da França.
Que diferença há entre Peñón de Vélez de la Gomera da Espanha, que é ligada à costa marroquina, e Gibraltar, em ser um apêndice de um país na costa de outro? Mas a Espanha quer Gibraltar "de volta". Ela tem tanto direito à ela quanto a Turquia tem da própria Espanha, por meio do elo histórico do califado.
O Estado mais irridentista do mundo atualmente é a China. Ela alega propriedade de tudo que já fez parte da maior extensão de seu passado imperial e mais. Algumas dessas reivindicações têm mais a ver com petróleo e gás do que história. Mas é a história que torna o Tibete uma vítima espancada e oprimida do terrorismo territorial chinês, e Taiwan um porta-aviões apontado nervosamente para o gigante alegando soberania sobre ela.
A Constituição da China diz: "Taiwan faz parte do território sagrado da República Popular da China. É o dever elevado de todo o povo chinês, incluindo nossos compatriotas em Taiwan, realizar a grande tarefa de reunificar a mãe pátria". Essa tolice devota é a própria essência do irridentismo; e é, como a história mostra de modo abundante, com frequência o prelúdio de muitos assassinatos.
Segundo o argumento da Espanha e da China, ou da Argentina e "Las Malvinas", ou de qualquer um dos vários países reivindicando parte de outros, o México tem direito a uma grande parte dos Estados Unidos, a Inglaterra pode reivindicar propriedade da França (e vice-versa), e Israel da Palestina.
Mas espere: isso levanta a questão de por quanto tempo as reivindicações de propriedade duram de modo legítimo. Não existe uma prescrição histórica? Se o povo judeu tem um título de 2.000 anos de Jerusalém, então Calais, no norte da França, é definitivamente inglês.
Um motivo para a situação complicada das fronteiras dos Estados é a fluidez demográfica. Pessoas e povos se movem como marés, impulsionadas por conflitos ou mudança climática, atraídas por pastos mais verdes. Fronteiras étnicas e políticas raramente coincidem. Devoções à nacionalidade, língua e cultura mantêm vivo o senso dos velhos laços, com potencial para problemas.
O irridentismo é, obviamente, perigoso. Ele mantém vivos atritos e tensões, drena dinheiro e energia para os orçamentos de defesa e esforços diplomáticos.
A Europa após a 2ª Guerra Mundial oferece um modelo de solução. Em 1945, o continente estava um caos devido a grandes deslocamentos de população e fronteiras incertas, mas os arranjos que se seguiram foram em grande parte aceitos. Entre os motivos para isso está o entendimento da interdependência dos vizinhos, se a paz e suas possibilidades de prosperidade se transformarem na consideração principal. Esse entendimento enfraquece o poder do sentimento local, a raiz do nacionalismo e do patriotismo; e disso nascem as uniões expandidas que oferecem muito mais do que o sentimento local jamais poderá –os Estados Unidos, por exemplo, ou a União Europeia.
Há israelenses e palestinos que acreditam juntos em uma solução de um Estado –um Israel-Palestina–, e há tanto judeus ultraortodoxos e palestinos anti-israelenses que também acreditam em versões de uma solução de um só Estado, mas um exclusivo, sem a outra metade. Superar a história e aceitar as realidades presentes é uma necessidade óbvia para uma solução pacífica de dois Estados.
O que seria necessário para isso? Se houvesse uma pessoa como Mandela em cada lado da divisão, cada uma com coração e mente grandes o bastante para vislumbrar um bom futuro, em vez de serem escravizados por um passado ruim, as coisas poderiam mudar.
O retrospecto da humanidade é muito ruim na questão do irridentismo, de modo que não há sentido em esperar algo positivo disso. Mas se houvesse um local onde uma solução ajudaria o mundo como um todo, é naquele fragmento exasperado de terra desfavorável entre o Mediterrâneo e o Mar Morto.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
Um Estado é uma coisa altamente artificial, uma ficção da história, uma linha irregular em um mapa transformada em fetiche, um "casus belli" e uma licença para todas as tolices que chamamos de nacionalismo, patriotismo e outros absurdos perigosos.
Por todo o planeta há reivindicações por um país de propriedade de parte ou até mesmo de todo um outro. Uma das mais cômicas é a reivindicação de Gibraltar pela Espanha –cômica porque a Espanha possui cerca de uma dúzia de Gibraltares na costa do Norte da África e arredores, e até mesmo dentro da França.
Que diferença há entre Peñón de Vélez de la Gomera da Espanha, que é ligada à costa marroquina, e Gibraltar, em ser um apêndice de um país na costa de outro? Mas a Espanha quer Gibraltar "de volta". Ela tem tanto direito à ela quanto a Turquia tem da própria Espanha, por meio do elo histórico do califado.
O Estado mais irridentista do mundo atualmente é a China. Ela alega propriedade de tudo que já fez parte da maior extensão de seu passado imperial e mais. Algumas dessas reivindicações têm mais a ver com petróleo e gás do que história. Mas é a história que torna o Tibete uma vítima espancada e oprimida do terrorismo territorial chinês, e Taiwan um porta-aviões apontado nervosamente para o gigante alegando soberania sobre ela.
A Constituição da China diz: "Taiwan faz parte do território sagrado da República Popular da China. É o dever elevado de todo o povo chinês, incluindo nossos compatriotas em Taiwan, realizar a grande tarefa de reunificar a mãe pátria". Essa tolice devota é a própria essência do irridentismo; e é, como a história mostra de modo abundante, com frequência o prelúdio de muitos assassinatos.
Segundo o argumento da Espanha e da China, ou da Argentina e "Las Malvinas", ou de qualquer um dos vários países reivindicando parte de outros, o México tem direito a uma grande parte dos Estados Unidos, a Inglaterra pode reivindicar propriedade da França (e vice-versa), e Israel da Palestina.
Mas espere: isso levanta a questão de por quanto tempo as reivindicações de propriedade duram de modo legítimo. Não existe uma prescrição histórica? Se o povo judeu tem um título de 2.000 anos de Jerusalém, então Calais, no norte da França, é definitivamente inglês.
Um motivo para a situação complicada das fronteiras dos Estados é a fluidez demográfica. Pessoas e povos se movem como marés, impulsionadas por conflitos ou mudança climática, atraídas por pastos mais verdes. Fronteiras étnicas e políticas raramente coincidem. Devoções à nacionalidade, língua e cultura mantêm vivo o senso dos velhos laços, com potencial para problemas.
O irridentismo é, obviamente, perigoso. Ele mantém vivos atritos e tensões, drena dinheiro e energia para os orçamentos de defesa e esforços diplomáticos.
A Europa após a 2ª Guerra Mundial oferece um modelo de solução. Em 1945, o continente estava um caos devido a grandes deslocamentos de população e fronteiras incertas, mas os arranjos que se seguiram foram em grande parte aceitos. Entre os motivos para isso está o entendimento da interdependência dos vizinhos, se a paz e suas possibilidades de prosperidade se transformarem na consideração principal. Esse entendimento enfraquece o poder do sentimento local, a raiz do nacionalismo e do patriotismo; e disso nascem as uniões expandidas que oferecem muito mais do que o sentimento local jamais poderá –os Estados Unidos, por exemplo, ou a União Europeia.
Há israelenses e palestinos que acreditam juntos em uma solução de um Estado –um Israel-Palestina–, e há tanto judeus ultraortodoxos e palestinos anti-israelenses que também acreditam em versões de uma solução de um só Estado, mas um exclusivo, sem a outra metade. Superar a história e aceitar as realidades presentes é uma necessidade óbvia para uma solução pacífica de dois Estados.
O que seria necessário para isso? Se houvesse uma pessoa como Mandela em cada lado da divisão, cada uma com coração e mente grandes o bastante para vislumbrar um bom futuro, em vez de serem escravizados por um passado ruim, as coisas poderiam mudar.
O retrospecto da humanidade é muito ruim na questão do irridentismo, de modo que não há sentido em esperar algo positivo disso. Mas se houvesse um local onde uma solução ajudaria o mundo como um todo, é naquele fragmento exasperado de terra desfavorável entre o Mediterrâneo e o Mar Morto.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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