Institutos de pesquisa em crise
O Estado de S.Paulo
É constrangedora a situação nos institutos de pesquisa
científica vinculados ao governo do Estado de São Paulo, conforme
relatou Herton Escobar em recente reportagem no Estado. Os problemas são
múltiplos, mas nada resume melhor a precariedade do que o desabafo da
bióloga Roseli Torres, curadora do herbário do Instituto Agronômico de
Campinas: ela disse que se sente "humilhada" por causa das condições de
trabalho. Dada a falta de funcionários, Roseli e outros pesquisadores
são obrigados a fazer a faxina do local. "Hoje em dia nem limpeza
decente dentro do instituto a gente tem. Quem varre o chão e tira o lixo
do banheiro somos nós", diz a cientista.
O Instituto Agronômico de Campinas não é uma entidade qualquer. Com
126 anos de existência, é uma referência em sua área de atuação, sendo
responsável por pesquisas agrícolas com impacto importante no setor -
basta saber que 90% dos cafeeiros arábica cultivados se originam de
cultivares desenvolvidos pelo instituto. Tal perfil não combina com a
imagem de cientistas com vassoura na mão.
O problema, contudo, não se limita ao Instituto Agronômico de
Campinas, tampouco à falta de funcionários. Há escassez generalizada de
cientistas e pesquisadores em diversos outros institutos.
Há casos críticos, como o de Yara Aiko Tabata, de 61 anos, que não
pode se aposentar por ser a única pesquisadora da Estação Experimental
de Salmonicultura do Estado de São Paulo. Yara não quer deixar o
trabalho porque sabe que, se o fizer, não terá substituto, e toda a
pesquisa será engavetada. "Não me aposento porque gosto muito do meu
trabalho; fazemos das tripas coração aqui para que tudo funcione."
O problema é de falta de recursos e, principalmente, de pessoal. O
caso de Yara é exemplar. Sua equipe já chegou a ter 15 funcionários;
hoje, resume-se a 4 - além dela, há 2 auxiliares de campo e 1 servidor
administrativo - e todos estão acima dos 50 anos de idade. Graças à
escassez de funcionários, Yara, a exemplo de outros cientistas, é
obrigada a dedicar-se a problemas burocráticos.
Para funcionarem adequadamente, os institutos de pesquisa deveriam
ter cerca de 2,2 mil pesquisadores, mas há apenas 1,5 mil em atividade.
Somando-se os cargos necessários em todas as carreiras, somente metade
está preenchida. O déficit se explica pela falta de reposição de
funcionários que se aposentam, falecem ou se transferem para outras
instituições. "Corremos o risco de um apagão científico", diz Laerte
Machado, pesquisador do Instituto Biológico.
Considerando que mais da metade dos pesquisadores em atividade nos
institutos tem entre 50 e 70 anos, e considerando que o intervalo entre
um concurso e outro tem sido de dez anos, a perda de cientistas por
aposentadoria, sem que eles sejam substituídos, tende a se agravar no
futuro próximo. "É um cenário que preocupa", admite o diretor da Agência
Paulista de Tecnologia de Agronegócios, entidade sob a qual estão os
seis institutos de pesquisa da Secretaria de Agricultura e
Abastecimento. Para ele, seria necessário fazer um concurso imediato
para a contratação de 100 pesquisadores e 200 funcionários de apoio,
para "dar uma ajeitada na casa".
Além disso, os institutos estaduais têm perdido pesquisadores para a
iniciativa privada, para universidades e para entidades federais, como
Embrapa e Fiocruz, que pagam melhores salários. "O governo investe na
formação do cientista, depois o pune com um salário ruim", afirma
Orlando Garcia Ribeiro Filho, presidente da Comissão Permanente do
Regime de Tempo Integral e pesquisador do Instituto Butantan.
O cenário é agravado pelo fato de que os novos pesquisadores, quando
enfim forem contratados, não terão a oportunidade de trabalhar com os
cientistas que iniciaram a pesquisa, pois estes já terão se aposentado
ou então terão trocado o instituto por alguma entidade com melhores
condições de trabalho. Assim, graças à lentidão do Estado, corre-se o
risco de que pesquisas importantes sofram atrasos ou simplesmente se
percam pelo caminho.
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