Maria do Rosário emitirá uma nova por Bruno, um trabalhador de 18 anos espancado até a morte? Ou: Os mortos do crack
Reinaldo Azevedo - VEJA
Ultimamente,
já contei aqui, eu sinto um misto de raiva e nojo de ter de escrever
certos textos, de fazer determinados comentários, de abordar alguns
temas. Por volta das 6h40 de ontem, um jovem de 18 anos, Bruno Borges de
Oliveira, foi espancado por ladrões até a morte na rua Herculano de
Freitas, na Bela Vista, região central de São Paulo.
O que
queriam roubar de Bruno, um garoto pobre, auxiliar administrativo, que
arrumara emprego havia pouco tempo? Atenção! Um par de tênis, um cartão
de bilhete único de ônibus e um celular — que, como se sabe, não é mais
objeto de luxo. Tudo isso aconteceu à luz do dia.
São Paulo
está longe de ser a capital mais violenta do país. Na verdade, os dados
indicam ser uma das menos. Mas e daí? Isso já não tem importância para
Bruno e sua família. Atenção, leitores! Maria do Rosário, a ministra dos
Direitos Humanos, não vai emitir uma nota. Não haverá ONGs se
manifestando nem se farão protestos no centro da cidade.
Há pouco
menos de duas semanas, por conta de um homicídio que não aconteceu — um
jovem havia se suicidado —, fez-se um escarcéu danado. Afinal, a vítima
era gay e se tentou ver ali o que chamam de “crime de ódio”. Maria do
Rosário aproveitou para fazer proselitismo sobre o cadáver. E o
assassinato de Bruno? É o quê?
Não tenho
as circunstâncias do caso, mas sou obrigado a lidar com a lógica e com
os fatos que nos cercam. Reparem como os viciados em crack, que vagam
pela ex-cracolândia, hoje Haddadolândia, em suma maioria, estão
descalços. Sabem por quê? O tênis é a principal moeda no tráfico do
crack. Tênis vira “pedra”.
Outra
moeda, para quem conhece o assunto, é justamente o cartão de bilhete
único de transporte. E, obviamente, os celulares também fazem parte
desse mercado.
A explosão
do consumo de crack coincide com essas ocorrências horripilantes, como
pessoas queimadas vivas ou espancadas até a morte. Infelizmente, São
Paulo convive hoje com um programa aloprado, coordenado pela Prefeitura,
que faz da cracolândia uma espécie de país com leis próprias.
Que fique
claro: não estou dizendo que os assassinos de Bruno saíram
necessariamente de lá. Isso, não sei. Mas estou afirmando, sim, que o
escambo — tênis por droga — é uma prática corriqueira na área.
Não
sejamos ingênuos: não há policiamento, por mais ostensivo que seja, que
consiga responder às demandas criadas numa cidade que incorpora o crack
como realidade plausível e faz de consumidores e traficantes pessoas
acima da lei.
Sim, os
culpados pela morte de Bruno, obviamente, são seus assassinos. Mas esse
rapaz também é vítima de um tempo que decidiu flertar com mal.
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