Reinaldo Azevedo - VEJA
Nunca um
clichê foi tão oportuno: depois de anos semeando vento — até anteontem,
com os rolezinhos (já chego lá) —, o PT agora está desesperado, com medo
da tempestade. Pois é… A baderna violenta havida em São Paulo no sábado
já levou o pânico para as hostes do governo. Já chego ao ponto. Antes,
algumas considerações.
Já há
gente no governo federal querendo culpar a Polícia Militar de São Paulo
Pela elevação da tensão. Aliás, a imprensa paulistana faz a mesma coisa.
A gente lê os relatos e tem a impressão de que, não fossem os PMs, tudo
teria se dado da melhor forma possível. Nem parece que os policiais só
entraram em ação porque vândalos incendiaram um carro, depredaram
ônibus, bancos, lojas… “Ah, mas os policiais do choque estavam sem
identificação”. Que se apure e se tomem as devidas providências. Atenção
para o que vem agora — não justifica, mas explica e aponta para um
problema sério, que terá de ter uma resposta da Polícia e da sociedade.
Conversei com um policial dia desses. Ele me disse que muitos retiram a
identificação porque não querem ver seus respectivos nomes circulando em
filmetes feitos por provocadores. Nas suas palavras: “O nome da gente
fica na Internet e é visto por todo mundo, inclusive pelos bandidos”. É
um problema? É, sim. Ou há alguma forma de um policial — que está
cumprindo um dever desagradável — se sair bem reprimindo
“manifestantes”? Acho que não. Bem, de junho pra cá, escrevi dezenas de
textos abordando os riscos decorrentes desse processo de demonização das
PMs Brasil afora. Sigamos.
É
simplesmente mentira que é a reação da PM que açula esses trogloditas.
“Como você sabe?” Porque tenho a história a meu favor. Voltem a junho:
os três primeiros protestos — 6, 7 e 11 — em São Paulo foram
notavelmente violentos, e a PM havia atuado apenas na contenção. Um
policial foi praticamente linchado. A polícia só reagiu — de modo,
então, meio atrapalhado — no dia 13. E aí foi o que se viu. Assim, ainda
que fosse verdade que a “repressão” estimula o vandalismo, resta
evidente que a não-repressão também. Ou a PM fez algo de errado enquanto
a manifestação seguia pacífica?
Essas
coisas — ATÉ PORQUE TRATADAS COM SIMPATIA PELA IMPRENSA — têm um forte
efeito-imitação. Podem escrever: haverá outros protestos, e a disposição
dos mascarados é partir para a briga; é enfrentar a PM. Há grupos
achando que existem as precondições para reeditar junho, e isso deixa
Dilma em pânico. No momento, ela está lá se divertindo no presídio
mantido por Fidel e Raúl Castro. Quando voltar, quer fazer uma reunião
com seus ministros para debater a questão. “Que resposta dar?”
Pois é…
Até agora, a presidente só se referiu a esses episódios com a boca
entortada pelo uso do cachimbo petista. É claro que governante que vai à
TV choramingar por causa de protestos só excita a fúria de seus
algozes. O ponto não é esse, não! Tem de falar de “autoridade” — de
autoridade democrática. E, se for o caso, deixar claro que as leis
disponíveis serão aplicadas para coibir a desordem.
Ao longo
de sua história, mais do que tolerar, o PT é um estimulador de
“movimentos” que só existem porque transgridem as leis por princípio,
com incrível determinação. É o caso do MST. É o caso dos movimentos de
sem-teto, em São Paulo, que agora estão nos calcanhares dos próprios
petistas. É o caso da sublevação de índios em vários pontos do país —
com a colaboração da Secretaria-Geral da Presidência, de Gilberto
Carvalho. No caso dos rolezinhos, como apontei aqui muitas vezes, o PT,
de novo, apelou ao perigo e passou a acusar severas maquinações
racistas.
Entenderam
o ponto? Embora seja um partido da ordem; embora seja uma legenda do
establishment; embora esteja obrigado a se mover no espaço da
legalidade, o PT não resiste à tentação de flertar com o perigo. Foram
as esquerdas petistas e petizadas que tentaram conferir um rosto
político aos rolezinhos — prática desmoralizada, creio, pela pesquisa
Datafolha.
No caso da
reedição — vamos ver se apenas episódica — das manifestações violentas
contra a Copa, petistas entram em pânico, mas não dão a cara ao tapa de
jeito nenhum! Alimentam, com seu discurso, a prática do vale-tudo. Na
verdade, é o partido que carrega o DNA da mobilização não apenas contra a
ditadura — que esta já acabou faz tempo —, mas também contra a ordem
democrática. Alguma vez o partido hesitou em jogar seus “movimentos” —
aqueles que Gilberto Carvalho chama “tradicionais” — contra as
instituições, muito especialmente quando se trata de atacar um
adversário político?
Existem os
fatos, cada um deles com sua gênese, com sua cadeia de causalidades e
suas consequências, e existe o tempo em que eles se dão. E esse tempo
tem um espírito. E o espírito deste tempo é atropelar a legalidade — A
DEMOCRÁTICA — para fazer Justiça. Mas qual Justiça? Ora, aquela que os
donos da causa decidirem que é. Fim de papo. Então os índios fazem a
justiça dos índios; o sem-terra fazem a justiça dos sem-terra; os
sem-teto, a dos sem-teto; os rolezeiros, a dos rolezeiros, e os black
blocs, ados black blocs. Em todos os casos, a violência passou a ser a
linguagem aceitável.
É claro
que há alguma coisa muito errada quando a polícia está apanhando feito
cão danado nos jornais de hoje, depois daquilo a que se assistiu no
Centro de São Paulo. Calma lá! Aqueles facinorosos meteram fogo num
carro com uma família de quatro pessoais ainda dentro. E daí? “Ah, mas
não estamos defendendo isso; apenas atacando o despreparo da polícia,
que entrou num hotel…” Aqueles que se acoitaram no estabelecimento
tinham acabado de depredar uma concessionária de veículos. Há relatos de
hóspedes que ficaram acuados em seus respectivos quartos, com gente
dando porrada do outro lado da porta. Aí dizem os “especialistas” nos
jornais: “A polícia jamais deveria ter entrado…” Afirmar isso a frio,
com o traseiro tranquilamente posto no sofá e depois do fato, é fácil. O
problema é a resposta da hora, quando vândalos que estão quebrando tudo
invadem um espaço onde trabalham e se hospedam pessoas.
Olhem
aqui: a história informa — e não o chute ou esfera de sensações — que a
não-repressão não torna menos violentos esses que vão para as ruas com a
determinação de quebrar e incendiar. Isso é bobagem. O que não se tem,
aí sim, é uma lei eficaz para coibir e punir esse tipo de banditismo — a
não ser uma: a de Segurança Nacional, que está em vigor. Mas aí o viés
ideológico não deixa. Logo alguém diz: “Imaginem usar isso juto os 50
anos do golpe”…
E é claro
que pode ficar pior. Vai que os PMs se cansem dessa brincadeira e façam
como uma porta-voz da corporação no Rio que explicou por que havia um
monte de jovens bandidos assaltando pessoas no Centro da cidade, sem
interferência dos policiais. Segundo ela, aquele não era um caso de
segurança, mas social e de saúde. Quem se dá mal com aqueles marginais
nas ruas? Os pobres honestos que circulam por lá e são roubados todos os
dias. Imaginem se a PM de São Paulo decide que protestos contra a Copa
são políticos — e, pois, fora de sua alçada..
A Copa
está chegando. Falta muito pouco. Dilma precisa decidir se investe na
ordem ou se ela própria e seus ministros, muito especialmente Gilberto
Carvalho, continuarão a dar piscadelas para a baderna.
Uma coisa é
certa: os heróis da porrada, adorados pela imprensa — por causa de seu
viés esquerdista, não o contrário — estão de volta. Vento aqui, vento
lá, vento acolá… Se planta, tende a colher.

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