David E. Sanger e Eric Schmitt - NYT
O risco de o presidente Barack Obama ser forçado a retirar todas as
tropas americanas do Afeganistão até o final do ano provocou
preocupações dentro das agências de inteligência americanas de que
possam perder suas bases aéreas, usadas para os ataques com drones
(aeronaves não tripuladas) contra a Al Qaeda no Paquistão e para
resposta em caso de uma crise nuclear na região.
Até agora, o
debate aqui e em Cabul a respeito do tamanho e duração de uma força
aliada liderada pelos Estados Unidos no Afeganistão após 2014 se
concentrava na segurança a longo prazo daquele país. Mas as novas
preocupações também refletem como o nível de tropas no Afeganistão afeta
diretamente os interesses de segurança americanos de longo prazo no
vizinho Paquistão, segundo o autoridades do governo, oficiais militares e
funcionários da inteligência.
A preocupação se tornou séria o bastante a ponto do governo Obama ter organizado uma equipe de especialistas em inteligência, assuntos militares e políticas para conceber alternativas para atenuar os danos, caso um acordo final de segurança não possa ser fechado com o presidente afegão, Hamid Karzai, que se recusou a aprovar um acordo que as autoridades americanas acreditavam ser certo no ano passado.
Se Obama acabar retirando todas as tropas americanas do Afeganistão, as bases de drones da CIA no país teriam que ser fechadas, segundo funcionários do governo, porque não poderiam mais ser protegidas.
A preocupação deles é que as bases alternativas mais próximas são distantes demais para os drones chegarem ao território montanhoso do Paquistão, onde o que restou do comando central da Al Qaeda está escondido. Essas bases também seriam distantes demais para monitorar e responder rapidamente em caso de uma crise envolvendo armas ou material nuclear desaparecidos dos arsenais e instalações relacionadas no Paquistão ou na Índia.
Um alto funcionário do governo, ao ser perguntado sobre os preparativos, respondeu por e-mail que à medida que uma possibilidade de retirada "cresce no Afeganistão, nós passamos a realizar uma revisão metódica de todas as capacidades americanas que possam ser afetadas e a desenvolver estratégias para atenuar os impactos".
O funcionário acrescentou que o governo estava determinado a encontrar alternativas, se necessário. "Nós seremos forçados a nos adaptar", disse o funcionário, "e apesar de talvez menos eficiente, os Estados Unidos encontrarão as formas necessárias para proteção de nossos interesses".
A questão veio à tona depois que o Pentágono apresentou recentemente a Obama as duas opções para o final do ano. Uma opção pede pela presença até o final do mandato de Obama de 10 mil soldados americanos que possam treinar as tropas afegãs, realizar incursões de contraterrorismo e proteger as instalações americanas, incluindo as situadas no leste do Afeganistão, bases dos drones e do monitoramento nuclear.
Segundo a outra, a opção zero, nenhum soldado americano permaneceria. Os Estados Unidos disseram que se não conseguirem chegar a um arranjo final de segurança com Karzai, o país está preparado, relutantemente, para uma retirada completa, como fez no Iraque em 2011.
Obama não tomou nenhuma decisão a respeito do nível de tropas, disse Caitlin M. Hayden, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional. "Nós pesaremos as informações dadas por nossos comandantes militares, assim como pela comunidade de inteligência, nossos diplomatas e especialistas em desenvolvimento, e tomaremos as decisões sobre nossa presença pós-2014 no Afeganistão", ela disse.
Mas em seu discurso do Estado da União na noite de terça-feira, é esperado que Obama diga que até o final deste ano a guerra no Afeganistão chegará ao fim –ao menos para os americanos– ligeiramente mais de 13 anos após seu início, o que a torna a mais longa na história americana.
A esperança de Obama é manter entre 8 mil e 12 mil soldados –a maioria deles americanos, mas também soldados de países aliados– no Afeganistão após o término da missão de combate da OTAN neste ano. O ressurgimento de um grupo afiliado da Al Qaeda no Iraque, somado com os insurgentes na Síria, fornece um lembrete grave das consequências da decisão americana de retirar todas as suas tropas do Iraque. Karzai parece estar apostando que os estragos causados pela retirada às operações de inteligência seriam tão grandes que ele pode obter a um acordo melhor.
Apesar da opção zero contar com alguns poucos apoiadores no governo, a ideia ganha mais força a cada dia que Karzai adia a assinatura do acordo de segurança e faz novas exigências aos Estados Unidos. "Karzai acredita há algum tempo que está em posição de vantagem –que precisamos dele e de suas bases mais do que ele precisa de nós", disse Daniel Markey, um ex-funcionário do Departamento de Estado e autor de "No Exit From Pakistan", publicado no ano passado.
O secretário de Estado americano, John Kerry, deverá se encontrar com o conselheiro de políticas de segurança nacional e estrangeira do Paquistão, Sartaj Aziz, aqui na segunda-feira, e as operações de contraterrorismo deverão ser um importante tema de discussão, disse um alto funcionário do Departamento de Estado no domingo. Conversar com o Paquistão sobre seu programa nuclear é especialmente delicado.
Nos últimos anos, o país acelerou seu esforço para construir pequenas armas nucleares táticas –semelhantes às posicionadas pelos Estados Unidos na Europa durante a Guerra Fria– que poderiam ser usadas para repelir uma invasão da Índia. Mas essas armas são consideradas mais vulneráveis a roubo ou uso por um comandante renegado, e são um motivo para as agências de inteligência americanas terem investido tão pesadamente no monitoramento do arsenal paquistanês.
Um susto em 2009, quando os Estados Unidos temeram que material nuclear ou uma arma tinha desaparecido no Paquistão, levou Obama a ordenar a instalação de um monitoramento e capacidade de busca permanente na região.
Mas as complexidades de encerrar essas capacidades estão forçando as agências de inteligência, que realizam ataques secretos no Paquistão e monitoram eventos nucleares por todo o mundo, a buscarem alternativas. A base delas dentro do Paquistão foi fechada depois de um tiroteio envolvendo um prestador de serviços de segurança da CIA, Raymond Davis, e da incursão no território paquistanês que matou Osama Bin Laden, ambos em 2011.
O uso de um drone RQ-170 foi crucial para a vigilância da casa de Bin Laden em Abbottabad. As autoridades paquistanesas falaram abertamente nas semanas após a incursão sobre seu temor de que drones também estavam sendo usados para monitorar seu arsenal nuclear, que acredita-se atualmente ser o que cresce mais rapidamente no mundo. A incursão e os drones partiram de instalações americanas próximas da fronteira afegã.
"Você ouve falar sobre a decisão do presidente a respeito da 'opção zero' no contexto do futuro do Afeganistão, mas isso se trata realmente do Paquistão", disse outro ex-alto funcionário da inteligência, que foi consultado pelo Pentágono e pelas agências de inteligência sobre o problema. "É aí que está o grande problema."
As bases de drones da CIA no Afeganistão permitem aos operadores responderem rapidamente a nova inteligência. A proximidade das áreas tribais do Paquistão também permite que os drones Predators e seus primos maiores e mais rápidos, Reapers, realizem missões de voo mais longo sem terem que retornar à base.
O "New York Times" não cita a localização das bases de drones a pedido dos funcionários do governo, que disseram que identificá-las colocaria em risco a segurança dos americanos que trabalham lá.
"Certamente há uma interdependência entre os militares e a comunidade de inteligência no Afeganistão", disse um alto funcionário do governo.
Os Reapers, os veículos não tripulados armados mais novos, maiores e mais capazes, têm autonomia de até 1.770 quilômetros. Isso coloca as áreas tribais do Paquistão dentro do alcance de algumas bases da qual decolam os militares americanos, especialmente no Quirguistão, de onde por mais de uma década o Pentágono realizou operações aéreas, incluindo voos de transporte de carga e tropas, a partir de uma base em Manas. Mas os Estados Unidos disseram no final do ano passado que se retirariam daquela base em julho.
Outros países aliados estão dentro do alcance dos Reapers –no Golfo Pérsico, por exemplo. Mas as distâncias seriam grandes demais para a realização de operações eficazes com drones, disseram funcionários, e é muito improvável que qualquer um desses países aprove o lançamento de missões de ataque diplomaticamente sensíveis a partir de seu solo.
"Não há uma alternativa fácil para o Afeganistão", disse um ex-alto funcionário americano de contraterrorismo.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
A preocupação se tornou séria o bastante a ponto do governo Obama ter organizado uma equipe de especialistas em inteligência, assuntos militares e políticas para conceber alternativas para atenuar os danos, caso um acordo final de segurança não possa ser fechado com o presidente afegão, Hamid Karzai, que se recusou a aprovar um acordo que as autoridades americanas acreditavam ser certo no ano passado.
Se Obama acabar retirando todas as tropas americanas do Afeganistão, as bases de drones da CIA no país teriam que ser fechadas, segundo funcionários do governo, porque não poderiam mais ser protegidas.
A preocupação deles é que as bases alternativas mais próximas são distantes demais para os drones chegarem ao território montanhoso do Paquistão, onde o que restou do comando central da Al Qaeda está escondido. Essas bases também seriam distantes demais para monitorar e responder rapidamente em caso de uma crise envolvendo armas ou material nuclear desaparecidos dos arsenais e instalações relacionadas no Paquistão ou na Índia.
Um alto funcionário do governo, ao ser perguntado sobre os preparativos, respondeu por e-mail que à medida que uma possibilidade de retirada "cresce no Afeganistão, nós passamos a realizar uma revisão metódica de todas as capacidades americanas que possam ser afetadas e a desenvolver estratégias para atenuar os impactos".
O funcionário acrescentou que o governo estava determinado a encontrar alternativas, se necessário. "Nós seremos forçados a nos adaptar", disse o funcionário, "e apesar de talvez menos eficiente, os Estados Unidos encontrarão as formas necessárias para proteção de nossos interesses".
A questão veio à tona depois que o Pentágono apresentou recentemente a Obama as duas opções para o final do ano. Uma opção pede pela presença até o final do mandato de Obama de 10 mil soldados americanos que possam treinar as tropas afegãs, realizar incursões de contraterrorismo e proteger as instalações americanas, incluindo as situadas no leste do Afeganistão, bases dos drones e do monitoramento nuclear.
Segundo a outra, a opção zero, nenhum soldado americano permaneceria. Os Estados Unidos disseram que se não conseguirem chegar a um arranjo final de segurança com Karzai, o país está preparado, relutantemente, para uma retirada completa, como fez no Iraque em 2011.
Obama não tomou nenhuma decisão a respeito do nível de tropas, disse Caitlin M. Hayden, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional. "Nós pesaremos as informações dadas por nossos comandantes militares, assim como pela comunidade de inteligência, nossos diplomatas e especialistas em desenvolvimento, e tomaremos as decisões sobre nossa presença pós-2014 no Afeganistão", ela disse.
Mas em seu discurso do Estado da União na noite de terça-feira, é esperado que Obama diga que até o final deste ano a guerra no Afeganistão chegará ao fim –ao menos para os americanos– ligeiramente mais de 13 anos após seu início, o que a torna a mais longa na história americana.
A esperança de Obama é manter entre 8 mil e 12 mil soldados –a maioria deles americanos, mas também soldados de países aliados– no Afeganistão após o término da missão de combate da OTAN neste ano. O ressurgimento de um grupo afiliado da Al Qaeda no Iraque, somado com os insurgentes na Síria, fornece um lembrete grave das consequências da decisão americana de retirar todas as suas tropas do Iraque. Karzai parece estar apostando que os estragos causados pela retirada às operações de inteligência seriam tão grandes que ele pode obter a um acordo melhor.
Apesar da opção zero contar com alguns poucos apoiadores no governo, a ideia ganha mais força a cada dia que Karzai adia a assinatura do acordo de segurança e faz novas exigências aos Estados Unidos. "Karzai acredita há algum tempo que está em posição de vantagem –que precisamos dele e de suas bases mais do que ele precisa de nós", disse Daniel Markey, um ex-funcionário do Departamento de Estado e autor de "No Exit From Pakistan", publicado no ano passado.
O secretário de Estado americano, John Kerry, deverá se encontrar com o conselheiro de políticas de segurança nacional e estrangeira do Paquistão, Sartaj Aziz, aqui na segunda-feira, e as operações de contraterrorismo deverão ser um importante tema de discussão, disse um alto funcionário do Departamento de Estado no domingo. Conversar com o Paquistão sobre seu programa nuclear é especialmente delicado.
Nos últimos anos, o país acelerou seu esforço para construir pequenas armas nucleares táticas –semelhantes às posicionadas pelos Estados Unidos na Europa durante a Guerra Fria– que poderiam ser usadas para repelir uma invasão da Índia. Mas essas armas são consideradas mais vulneráveis a roubo ou uso por um comandante renegado, e são um motivo para as agências de inteligência americanas terem investido tão pesadamente no monitoramento do arsenal paquistanês.
Um susto em 2009, quando os Estados Unidos temeram que material nuclear ou uma arma tinha desaparecido no Paquistão, levou Obama a ordenar a instalação de um monitoramento e capacidade de busca permanente na região.
Mas as complexidades de encerrar essas capacidades estão forçando as agências de inteligência, que realizam ataques secretos no Paquistão e monitoram eventos nucleares por todo o mundo, a buscarem alternativas. A base delas dentro do Paquistão foi fechada depois de um tiroteio envolvendo um prestador de serviços de segurança da CIA, Raymond Davis, e da incursão no território paquistanês que matou Osama Bin Laden, ambos em 2011.
O uso de um drone RQ-170 foi crucial para a vigilância da casa de Bin Laden em Abbottabad. As autoridades paquistanesas falaram abertamente nas semanas após a incursão sobre seu temor de que drones também estavam sendo usados para monitorar seu arsenal nuclear, que acredita-se atualmente ser o que cresce mais rapidamente no mundo. A incursão e os drones partiram de instalações americanas próximas da fronteira afegã.
"Você ouve falar sobre a decisão do presidente a respeito da 'opção zero' no contexto do futuro do Afeganistão, mas isso se trata realmente do Paquistão", disse outro ex-alto funcionário da inteligência, que foi consultado pelo Pentágono e pelas agências de inteligência sobre o problema. "É aí que está o grande problema."
As bases de drones da CIA no Afeganistão permitem aos operadores responderem rapidamente a nova inteligência. A proximidade das áreas tribais do Paquistão também permite que os drones Predators e seus primos maiores e mais rápidos, Reapers, realizem missões de voo mais longo sem terem que retornar à base.
O "New York Times" não cita a localização das bases de drones a pedido dos funcionários do governo, que disseram que identificá-las colocaria em risco a segurança dos americanos que trabalham lá.
"Certamente há uma interdependência entre os militares e a comunidade de inteligência no Afeganistão", disse um alto funcionário do governo.
Os Reapers, os veículos não tripulados armados mais novos, maiores e mais capazes, têm autonomia de até 1.770 quilômetros. Isso coloca as áreas tribais do Paquistão dentro do alcance de algumas bases da qual decolam os militares americanos, especialmente no Quirguistão, de onde por mais de uma década o Pentágono realizou operações aéreas, incluindo voos de transporte de carga e tropas, a partir de uma base em Manas. Mas os Estados Unidos disseram no final do ano passado que se retirariam daquela base em julho.
Outros países aliados estão dentro do alcance dos Reapers –no Golfo Pérsico, por exemplo. Mas as distâncias seriam grandes demais para a realização de operações eficazes com drones, disseram funcionários, e é muito improvável que qualquer um desses países aprove o lançamento de missões de ataque diplomaticamente sensíveis a partir de seu solo.
"Não há uma alternativa fácil para o Afeganistão", disse um ex-alto funcionário americano de contraterrorismo.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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