quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Avião 'de sonho' da Boeing se torna pesadelo para empresa com a suspensão de voos
Guy Dutheil, Philippe Mesmer e Sylvain Cypel - Le MondeNoboru Tomura/AP
Um Boeing 787 Dreamliner da companhia aérea japonesa All Nippon Airways (ANA) fez um pouso não programado, nesta quarta-feira (16), no aeroporto de Takamatsu, no sul do Japão
Um Boeing 787 Dreamliner da companhia aérea japonesa All Nippon Airways (ANA) fez um pouso não programado, nesta quarta-feira (16), no aeroporto de Takamatsu, no sul do Japão
Nada mais tem dado certo para a Boeing! Na quinta-feira (17), a Agência Europeia de Segurança Aérea (AESA) proibiu todos os Boeing 787 do mundo de voarem. Na véspera, a autoridade federal americana da aviação (FAA, na sigla em francês) havia pedido a todas as operadoras do Dreamliner nos Estados Unidos que suspendessem os voos desse aparelho, dando início a uma investigação sobre os problemas técnicos do avião. Foi a primeira vez em 34 anos que a autoridade americana proibiu um modelo novo de aparelho de voar.
Essa ordem foi dada depois que duas companhias aéreas japonesas, a All Nippon Airways (ANA) e a Japan Airlines (JAL), decidiram, na quarta-feira (16), reter em solo os 24 Dreamliners que já haviam sido entregues. No total, por causa dos incidentes que sofreram em seus Boeing 787, a JAL e a ANA tiveram de cancelar quase quarenta voos internos. Por enquanto, as duas companhias japonesas preveem retomar os voos a partir de sexta-feira (18).
Diante dessa série de reveses que tem afetado o lançamento da Boeing, as autoridades reguladoras americanas reagiram. Na quarta-feira, o National Transportation Safety Board (NTSB), o equivalente americano ao Bureau d’Enquêtes e d’Analyses (BEA) francês, decidiu enviar uma inspetora ao Japão "para que ela participasse da investigação sobre a aterrissagem forçada de um Boeing 787 operado pela ANA". Depois do Japão e dos Estados Unidos, as autoridades indianas também ordenaram que a Air India mantivesse em solo os 5 Dreamliners de sua frota.
Depois da decisão da FAA, a Boeing vem tentando relativizar as dificuldades de seu 787. Desde novembro de 2011, data em que entrou em operação, "seu desempenho comercial foi comparável ao do avião que conseguiu o melhor início de operação da história da aviação, o Boeing 777", alega a fabricante americana.
No entanto, a investigação das autoridades americanas e japonesas deverá estabelecer se as dificuldades do 787 são somente "problemas de início" ou se eles resultam de uma "falha geral de concepção", coloca Richard Aboulafia, especialista em aeronáutica e defesa da consultoria Teal Group. Segundo ele, "nada confirma até agora essa última hipótese, mas a recorrência dos problemas técnicos fez com que essa questão fosse levantada, e fez com que os investigadores voltassem a levantá-la".
Estes últimos parecem justamente direcionar suas primeiras investigações para a alimentação elétrica e em especial as baterias do 787. Para reduzir ao máximo o consumo do combustível de seu novo aparelho, a Boeing apostou no uso maciço de materiais compósitos e do "tudo elétrico".
Para concebê-lo, a fabricante americana apelou ao know-how de fabricantes de peças franceses. Cada 787 – vendido por US$ 206,8 a 243,6 milhões, dependendo da versão – rende até US$ 10 milhões à Safran que, por meio de suas diferentes filiais, fornece os freios e os quadros elétricos, o trem de aterrissagem, as poltronas, os banheiros e ainda os escorregadores de evacuação de emergência.
Outro grupo francês, Thales, é encarregado de fornecer a alimentação elétrica dos 787. Uma parceria que lhe rende milhões de dólares por aparelho. Em compensação, é outra fabricante de peças japonesa, a GS Yuasa, que fabrica as baterias de lítio. "Nós só vendemos a eles nossas baterias", se defende a fabricante japonesa.
"Não sabemos como a Thales as utiliza. Mas nessa investigação é preciso estudar toda a aparelhagem associada à bateria."
A Boeing proibiu seus fornecedores de se manifestarem. Para certos especialistas, é o grande número de parceiros reunidos pela Boeing em um "dream team" que poderia explicar parte das preocupações do 787. Setenta por cento do Dreamliner é fabricado por 50 fornecedores distribuídos pelo mundo, sendo 35% no Japão.
No entanto, "a Boeing está acostumada com parcerias", coloca Pierre Sparaco, ex-jornalista e membro da Academia do Ar e do Espaço. Segundo ele, "a Boeing poderia ser vítima de uma perda de vigilância".
A fabricante americana teria "relaxado". Para outros especialistas, o avião teria sido lançado cedo demais. "Pela primeira vez, 50 aparelhos foram entregues antes que o processo de certificação tivesse sido concluído", aponta Richard Aboulafia. Ele diz ainda que "a investigação lançada pela FAA e, sobretudo, sua dimensão são fenômenos pouco frequentes 15 meses após o lançamento de um aparelho".
Se a "permanência em solo" dos Dreamliner se prolongar, isso poderá custar caro à Boeing. As japonesas JAL e ANA, companhias de lançamento do 787, deverão pedir indenizações à fabricante americana.
Por enquanto a conta não está muito elevada. "Alguns milhões de euros somente", enfatiza uma companhia, pois os 787 da JAL e da ANA ainda estão em "road proofing", em fase de testes em linhas domésticas.
Até agora, nenhuma companhia aérea cancelou suas encomendas de Dreamliners (848 até o momento). Assim, a Air France, que fez uma encomenda de 25 unidades do 787 com opção de compra de outras 25 de outro modelo, mantém seu pedido.
Tradutor: Lana Lim

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