Apesar da proibição de adoção que irritou o público russo e dividiu profundamente o establishment político e intelectual do país, Rebecca e Brian Preece chegaram na Rússia, vindos de Idaho (EUA), na segunda-feira (14), esperando pegar seu novo filho, um menino de 4 anos de idade com síndrome de Down. Eles planejam chamá-lo de Gabriel.
Um juiz aprovou a adoção em 29 de novembro – bem antes de a proibição entrar em vigor em 1º de janeiro – e na semana passada o porta-voz do presidente Vladimir Putin, Dmitri S. Peskov, disse que adoções que tinham aprovação do tribunal poderiam seguir em frente. Essa visão teve o apoio de Pavel Astakhov, ombudsman federal das crianças, que talvez seja o mais forte defensor da proibição.Mas em vez de fazer planos para o voo de regresso, os Preece e pelo menos outras cinco famílias estão agora num limbo legal, enquanto vários funcionários dentro da ampla burocracia russa tentam descobrir exatamente o que a proibição significa, e – talvez mais importante – o que os superiores no Kremlim querem de fato e esperam que eles façam.
Numa audiência no tribunal na terça-feira (15), a juíza Alexandra S. Lopatkina disse que não podia assinar um decreto finalizando a adoção dos Preece "sem nenhuma orientação do Supremo Tribunal da Rússia. Mesmo que ela assinasse o decreto, ela diz que não havia garantia de que outros funcionários emitiriam um passaporte ao menino. E mesmo se ele recebesse um passaporte, disse ela, os agentes de imigração poderiam bloquear sua saída no aeroporto.
Então eles estão esperando – Brian e Rebecca Preece num quarto no Marriott Grand Hotel de Moscou, e seu filho num orfanato da cidade.
"É uma montanha russa emocional", disse Brian Preece. "Você ouve uma boa notícia, e cruza os dedos por conta dessa notícia. Então ela é riscada e tudo começa novamente."
O rancor do público por conta da proibição tem crescido. Depois que milhares de pessoas protestaram em Moscou no domingo (13) num evento chamado "Marcha Contra a Desonestidade", três parlamentares da oposição propuseram leis na terça-feira para revogar a proibição. Eles citaram uma petição assinada por mais de 130 mil pessoas.
Era o primeiro dia de funcionamento do Parlamento depois de um recesso de férias de duas semanas, e os parlamentares trocaram farpas furiosas. Vladimir Zhirinovski, líder do Partido Liberal Democrático, nacionalista, chamou os adversários da proibição de traidores que querem "enviar nossa inteligência para os EUA."
Na segunda-feira, o primeiro-ministro Dmitry A. Medvedev, falando em uma conferência que ele organizou, advertiu que a Rússia deveria ser realista na definição de novas políticas destinadas a incentivar as adoções domésticas. No mesmo evento, a vice-primeira-ministra Olga Golodets observou que a Rússia tem atualmente uma base de dados de 128 mil órfãos elegíveis para adoção, mas cerca de apenas 18 mil possíveis famílias dispostas a adotar.
"Essas crianças precisam de uma família", disse ela.
Ao todo, a Rússia tem mais de 650 mil crianças no que é amplamente reconhecido como um sistema de bem-estar infantil profundamente problemático. A maioria dessas crianças está com famílias e não podem ser adotadas.
Alla V. Prozorova, uma facilitadora de adoção que está trabalhando com os Preece e outros norte-americanos, disse que os funcionários, inclusive Lopatkina, pareciam perplexos sobre como proceder.
"Ela mesma enviou uma carta ao Supremo Tribunal da Federação da Rússia, e nessa carta, ela pediu explicações", disse Prozorova sobre a juíza.
Prozorova vinha trabalhando para uma agência chamada Home Studies and Adoption Placement Services, com base em Nova Jersey. Mas a proibição de adoção também proibiu as agências de adoção norte-americanas de operarem na Rússia. Ela agora está atuando como voluntária tentando ajudar as famílias a concluírem suas adoções.
O debate feroz sobre a proibição incluiu uma avalanche de rumores e acusações, algumas bizarras, conspiratórias e xenófobas: por exemplo, de que os norte-americanos querem crianças russas para depois roubar seus órgãos para transplante ou para recrutá-las para o serviço militar.
Na terça-feira, uma matéria do jornal "Komsomolskaya Pravda" se mostrou fortemente a favor da proibição e procurou dissipar "mitos" de que as adoções por norte-americanos fossem necessárias para ajudar crianças doentes ou porque os orfanatos tem pouco financiamento e não há russos suficientes dispostos a adotar. O jornal citou estatísticas do governo mostrando que menos de 10% das crianças russas adotadas por norte-americanos em cada um dos últimos cinco anos foram consideradas deficientes.
Mas Prozorova, que já trabalhou no campo de adoções internacionais por 14 anos, disse que a matéria era enganosa porque praticamente ninguém mais está disposto a adotar crianças com deficiência.
"As pessoas que estão envolvidas com este problema – quero dizer, mesmo as autoridades de nível superior – sabem que só os norte-americanos se voluntariam para adotar crianças com necessidades especiais", disse ela. "Não há italianos, nem franceses, nem alemães." Ela disse que nos últimos anos ajudou a facilitar a adoção de crianças com HIV, espinha bífida, paralisia cerebral e outras doenças e incapacidades.
Os Preeces, por exemplo, já têm três filhos biológicos, incluindo uma de 6 anos de idade com síndrome de Down, e disseram que queriam ajudar outra criança que tivesse o mesmo desafio.
"Nós acabamos de descobrir através de amigos que também estavam adotando sobre a grande necessidade que as crianças com deficiência têm aqui; basicamente eles não são aceitas na sociedade", disse Rebecca Preece. "Isso é algo que nãottemos medo de fazer e estamos dispostos a fazer."
Do outro lado do corredor do hotel onde estão ficando está Jeana Bonner, de Salt Lake Valley, Utah, que está esperando para adotar uma menina de 5 anos de idade, também com síndrome de Down. Ela tem duas filhas biológicas, incluindo uma de 3 anos de idade com síndrome de Down.
Bonner disse que ela e seu marido haviam feito três viagens anteriores para a Rússia como parte do processo de adoção. Desta vez, ela veio sozinha, enquanto o marido está em casa com seus outros dois filhos. "Estamos no mesmo barco", disse ela. "Estamos apenas esperando."
Tradutor: Eloise de Vylder
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