sábado, 26 de janeiro de 2013

Crise financeira afeta indústria da cortiça usada na fabricação de rolhas
Stanley Reed - IHT                               
O vinho local está em quase todos os cardápios de Portugal
O vinho local está em quase todos os cardápios de Portugal
Nós passamos o Natal em um chalé em uma encosta na floresta de sobreiros que cobre grande parte da região sul e central de Portugal. Nós caminhamos ao longo de córregos despertados pelas chuvas de inverno. Após o jantar, nós caminhamos sob um céu altamente estrelado, com suas luzes não ofuscadas pela poluição luminosa, ouvindo corujas e o badalo dos sinos das cabras.
Os sobreiros, nós percebemos, estão no coração de uma paisagem que, apesar de altamente adaptada pelos seres humanos, ainda é uma maravilha ecológica.
"Os ecossistemas de sobreiros têm biodiversidade elevada de flora e fauna –a mais alta na Europa e uma das mais altas no mundo", disse Luisa Ferreira Nunes, uma especialista em florestas da Escola de Agricultura do Instituto Politécnico de Castelo Branco, em Portugal.
Por séculos, os sobreiros (Quercus suber) foram amplamente cultivados no Sul da Europa e no Norte da África por sua casca espessa e esponjosa. Elas são belas árvores perenes, frequentemente cobertas com líquen prateado, que lembram os carvalhos no Sul dos Estados Unidos.
Os sobreiros se adaptam bem a tempo quente e seco. Eles criam um rico habitat em lugares que seriam quase desertos se não fosse por eles. Essas florestas do sul parecem um tanto austeras, mas elas contam com milhares de espécies de plantas, incluindo orquídeas, assim como pássaros exóticos como a poupa-eurasiática, com suas longas cristas alaranjadas e grifos.
A cada 10 anos, a camada externa da casca é extraída com machadinhas. As árvores são deixadas com troncos avermelhados nus onde a casca foi retirada. Mas se o trabalho for feito da forma apropriada, a casca cresce de novo, para que possa ser colhida de novo em uma década. Números brancos são pintados nas árvores como lembretes de quando será a próxima extração.
Philip Mollet, que administra a fazenda de cortiça da família de 540 hectares onde ficamos hospedados, contrata uma equipe de oito pessoas todo verão para descascar aproximadamente 10% de suas árvores. Em 10 dias, eles geralmente produzem aproximadamente 45 toneladas de cascas.
A indústria da cortiça tem enfrentado dificuldades ultimamente. A crise financeira global a afetou, assim como o aumento do uso de tampas rosqueáveis e plástico como rolhas de vinho, ainda o principal uso da cortiça. Richard Halstead, da Wine Intelligence, uma firma de pesquisa de Londres, estima que a cortiça perdeu aproximadamente 20% de participação de mercado na última década e agora é usado como rolha em talvez 60% do mercado global anual de cerca de 17 bilhões de garrafas de vinho.
Mollet disse que o declínio no uso de cortiça contribuiu para a queda de seu preço, para quase metade do que era, na última década. Uma arroba, ou 15 quilos, de cortiça caiu para aproximadamente 15 euros, mas agora se recuperou um pouco, para aproximadamente 18 euros, ele disse.
A perda de mercados faz inevitavelmente com que a cortiça seja ameaçada. Mollet disse que os produtores estão "negligenciando suas florestas, causando danos irreversíveis".
O verão passado foi tão quente e seco que ele parou de extrair cortiça após meio dia, porque a casca interna estava se desprendendo, o que pode prejudicar as árvores. Ele atribui a secura à mudança climática e ao plantio de eucaliptos não nativos, sugadores de água, nas colinas próximas. Ele começou a diversificar há uma década, passando a produzir vinhos e a alugar chalés para turistas.
Mollet disse que a cortiça tem sido boa para sua família, que veio do Reino Unido e é dona da fazenda há aproximadamente 120 anos.
"Ela pagou o ensino de dez netos na Inglaterra", ele disse, falando de seus ancestrais.
Quando ele assumiu no final dos anos 90, "nós percebemos que as coisas não continuariam tão fáceis por muito mais tempo, mas não tínhamos ideia de que ficariam tão ruins quanto ficaram", ele disse.
O cultivo de cortiça exige visão a longo prazo. As árvores recém plantadas precisam de 25 anos ou mais antes da primeira extração.
Mas a cortiça não vai desaparecer. Os sobreiros são protegidos em Portugal e há programas europeus para ajudar os cultivadores a plantarem novas árvores.
A indústria antes discreta da cortiça está acordando para a divulgação de seu pedigree de boa para o meio ambiente.
As exportações de cortiça de Portugal, responsáveis por aproximadamente 60% do comércio mundial, se recuperaram dos níveis deprimidos durante a crise financeira para mais de 800 milhões de euros neste ano e no ano passado.
A cortiça não é barata, mas se "você está pensando em um material sustentável" para um prédio importante, como uma sede de uma empresa, então a cortiça é uma boa opção, disse Rui Barreira, um diretor para florestas do World Wide Fund for Nature (WWF, Fundo Mundial da Natureza) em Portugal.
O Grupo Amorim, uma empresa portuguesa cuja cortiça está presente em 3,6 bilhões de rolhas de vinho por ano e outros produtos, está buscando certificação de uma organização chamada Forest Stewardship Council. A aprovação do conselho sinaliza que os produtos vêm de florestas bem administradas.
Com vendas anuais batendo recordes, a empresa está se saindo bem fazendo algo bom.
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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