sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Jornalista acusa político da base governista alemã de assédio
Severin Weiland - DerSpiegel
Kay Nietfeld/EFE
Rainer Brüderle, 67, líder do Partido Democrático Livre (FDP) (à esq.), foi acusado de fazer comentários impróprios a uma jovem jornalista
Rainer Brüderle, 67, líder do Partido Democrático Livre (FDP) (à esq.), foi acusado de fazer comentários impróprios a uma jovem jornalista Uma repórter da revista semanal alemã "Stern" acusou Rainer Brüderle, líder político de um partido que faz parte da base de apoio do governo, de assediá-la. Segundo a repórter, Brüderle fez comentários sugestivos para ela durante uma reunião política realizada em Stuttgart há um ano.
Brüderle é líder parlamentar do Partido Democrático Livre, que apoia o setor empresarial e é aliado minoritário na coalizão da chanceler Angela Merkel, que governa a Alemanha. Ele também é o principal candidato de seu partido nas eleições nacionais, previstas para ocorrer em setembro próximo. Políticos do FDP defenderam o colega e criticaram a revista, dizendo que a publicação foi longe demais e que quebrou um tabu ao publicar a história.
Até agora, Brüderle não comentou a reportagem, e nenhuma declaração oficial foi emitida pela da sede de seu partido.
"É lamentável o baixo nível a que a Stern chegou", disse à Spiegel Online Wolfgang Kubicki, membro do conselho nacional do FDP e chefe parlamentar do estado de Schleswig-Holstein, no norte do país.
"Eu não entendo por que a jovem jornalista demorou mais de um ano para falar sobre essa experiência", acrescentou ele. Outros políticos do FDP condenaram a história e disseram que ela representa um golpe "baixo". Para eles, a revista está apenas tentando aumentar suas vendas.
O editor-chefe da Stern, Thomas Osterkorn, defendeu sua repórter na quinta-feira passada, e afirmou que o comportamento posterior Brüderle demonstra que o político do FDP acredita que suas atitudes não foram inadequadas.
"A primeira impressão que Laura Himmelreich teve um ano atrás em relação a como Brüderle trata as mulheres foi confirmada ao longo do tempo por meio de observações e reuniões posteriores", disse Osterkorn no artigo da Stern. "Eu acredito que nossa reportagem é legítima, já que parece que Brüderle repetiu seu comportamento em outras ocasiões. O que ele não está gostando, no momento, é que seu comportamento esteja sendo exposto".
"Rechear um dirndl"
Em uma reportagem intitulada "Piadas de homem", Laura Himmelreich, a jornalista de 29 anos de idade que trabalha na redação da Stern em Berlim, disse que, na noite de 5 de janeiro de 2012, jornalistas se reuniram com políticos em um bar após um tradicional baile organizado pelo FDP. O encontro ocorreu antes de uma importante reunião política anual, que aconteceria no dia seguinte.
Ela escreveu que Brüderle ficava olhando para seus seios e que ele teria lhe que ela "também poderia rechear um dirndl", traje típico tradicional usado pelas mulheres da Bavária que tem um corpete na parte superior e um decote provocante. Durante a conversa, o político de 67 anos de idade supostamente pegou na mão da jornalista e a beijou, além de pedir que ela aceitasse suas investidas, escreveu ela.
Himmelreich disse a Brüderle que ela era uma jornalista e ele, um político, escreveu a repórter no texto publicado pela Stern. Após ele insistir, Himmelreich afirma ter dito ao político: "Acredito que é melhor manter isso em um nível profissional". Ao que ele teria respondido: "No final, todos nós somos apenas humanos".
A jornalista disse que a noite terminou quando Brüderle se despediu de seus colegas políticos e, em seguida, colocou seu rosto muito perto do dela. Ela disse que se afastou e colocou as mãos na frente do corpo. Em seguida, uma porta-voz do FDP entrou em cena rapidamente e gritou para o político que era "hora de dormir". A mulher também pediu desculpas à jornalista, escreveu Himmelreich.
Sexismo persistente
A Stern defendeu sua cobertura sobre o incidente em um artigo publicado em seu site na quarta-feira. Segundo o texto, "Há uma linha tênue entre ser informal e ser desinibido, e Rainer Brüderle adora cruzar essa linha. Várias jornalistas que viveram experiências semelhantes às de Laura Himmelreich – mas poucas vieram a público e escreveram sobre essas experiências. Recentemente, Annett Meiritz escreveu na Spieglel Online sobre sua indignação relacionada aos sinais misóginos emitidos pelo Partido Pirata.
E a ex-repórter da Spiegel, Ursula Kosser, também escreveu um livro sobre sua experiência como correspondente de política na antiga capital alemã, Bonn, num período em que políticos do sexo masculino demonstravam praticamente nenhum escrúpulo ao serem sexualmente explícitos com repórteres do sexo feminino. O ponto alto: um membro do parlamento certa vez entregou a uma jornalista um pacote com um vibrador e um cartão com os dizeres: ‘Um presente pela boa colaboração’".
A revista Stern admitiu que estava quebrando um tabu ao publicar essa história, mas afirmou que, apesar de incidentes flagrantes como o do vibrador felizmente fazerem parte do passado, o sexismo na política alemã ainda persiste hoje em dia.
Na quinta-feira, Osterkorn, editor-chefe da Stern, divulgou um comunicado no qual afirmava: "O encontro ocorrido entre minha colega e esse senhor não aconteceu em um local sigiloso ou privado. Ele ocorreu durante uma reunião pública com jornalistas em um bar. Além disso, jovens jornalistas do sexo feminino não devem ser consideradas alvos fáceis nem para o Partido Pirata nem para os políticos mais velhos – quer elas trabalhem para Stern, para a Spiegel Online ou para qualquer outro meio de comunicação".
O grupo de jornalistas Pro Quote também ofereceu seu apoio à reportagem. Em um post no Twitter, o grupo disse: "Finalmente as jornalistas estão falando sobre os políticos que cometem abusos. Esses ataques são a exceção, mas o sexismo continua sendo a ser a norma".

Tradutor: Cláudia Gonçalves     

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