Jaafar Ashtiyeh/AFP

Movimento em frente à mesquita Al-Aqsa, em Jerusalém, durante o mês sagrado do Ramadã
"Ah, a melhor época para visitar Jerusalém é fevereiro ou março! Não há turistas e o clima está ameno. Sim, também chove um pouco no inverno, mas esta é a minha época favorita na cidade", dizia um guia turístico do lado de fora da Igreja do Santo Sepulcro.Decidi convocar dois bons amigos para dar um passeio comigo por Jerusalém.
"O que vocês aconselhariam os visitantes a verem?", eu perguntei a eles.
Gali Tibbon, que é fotógrafa, sacudiu seu longo cabelo preto, e um punhado de pulseiras de prata tilintaram no seu braço. "Bem, se vierem no inverno, vai estar chovendo".
Gali sempre se veste só de preto, com joias de prata; brincos de prata brilhavam enfileirados ao longo das bordas das orelhas.
"Então, eles provavelmente deveriam ir ao Museu de Israel em primeiro lugar." Leões de pedra cananeus, esculturas romanas de bronze, vestidos de noiva bordados de judeus Bukhara, Torás medievais iluminadas, pinturas impressionistas e os Manuscritos do Mar Morto.
A peça favorita de Gali é uma fotografia, feita pelo artista israelense Adi Nes, das Forças de Defesa israelenses em seus quartéis sentados atrás de uma longa mesa nas posturas exatas de Jesus e seus discípulos em "A Última Ceia" de Leonardo da Vinci.
"Ela toca em muitas questões sobre a sociedade israelense", explicou. "A justaposição dos judeus e dos cristãos, a intimidade da vida militar. Ela evoca um sentimento de sacrifício e de presságio."
Gali é sarcástica e cínica. Benji Balint, que já foi um estudante devoto de um colégio judeu ortodoxo agora dá aulas de história do Iluminismo numa universidade palestina na Cisjordânia, representa um lado mais místico da cidade.
Entramos na Cidade Velha pelo Portão de Jaffa. "Eu diria aos visitantes para andarem observando as paredes", disse Benji, olhando para muralhas dos cruzados. "É possível ter uma noção das pesadas camadas de história." Nós três saímos dos mercados lotados com seus menorás de bronze em miniatura ao lado de bandeiras "Palestina livre". Benji bancou o guia turístico, apontando para a barbearia armênia gay enquanto cardeais vestidos de roxo saíam de uma porta anônima. Conseguimos, com uma certa lábia, entrar em parte do labirinto escondido atrás dos muros; o complexo Grego Ortodoxo, uma cidade dentro da cidade. Alamedas de pedra passam sob intersecções de arcos, transformam-se em telhados e pontes ou terminam em lances de escadas de pedra entre muros antigos.
Nós nos encontramos num telhado, olhando para os turistas embaixo reunidos num pátio em frente à Igreja do Santo Sepulcro. Pudemos ver por cima do muro o jardim da Mesquita de Omar, a mais antiga mesquita de Jerusalém, a dourada Cúpula da Rocha, a curva branca pálida da Sinagoga Hurva recentemente reconstruída após ter sido destruída em 1948 e chegamos até mesmo a ver o Monte das Oliveiras. Jerusalém é um mosaico de terraços sobrepostos; em cada língua e alfabeto; o centro das três grandes religiões abraâmicas.
"Sobre os telhados você se sente mais perto de Deus", disse Gali, negando seu secularismo por um instante.
Gali passou longas horas fotografando o Santo Sepulcro. "É como um caleidoscópio", disse ela. O complexo é partilhado pelos gregos ortodoxos, armênios ortodoxos, siríacos ortodoxos, católicos romanos, egípcios cópticos e etíopes cópticos. Para evitar disputas, as chaves da porta da frente foram confiados à guarda da mesma família árabe por quase mil anos. "É caótico, você se perde, você pode esquecer o mundo real", disse Gali. Abaixo de nós pudemos ver uma procissão de monges franciscanos em suas simples vestes marrom amarradas com corda.
"Você vê aquela escada lá?" Benji apontou para uma escada comum com degraus de madeira. "É a famosa 'escada imóvel'. Você pode vê-la em fotografias de cem anos atrás. Ninguém pode movê-la, porque a base onde ela está pertence a uma das denominações e a janela à qual ela leva pertence a outra e há uma disputa antiga entre ambas."
Continuamos nossa turnê, tecendo nosso caminho pela Cidade Velha, passando pelo Zalatimo, onde eles fazem a massa folhada mais fina que você já viu e a dobram em envelopes de queijo coalho ou nozes moídas misturadas com canela; depois pela loja de fotografia dirigida por três gerações de fotógrafos armênios e onde você pode comprar fotos de Jerusalém da época do mandato britânico; e através de seus labirínticos mercados muçulmanos e uma rua de açougues com pilhas de tripas e línguas. Como todos os moradores de Jerusalém fazem, Gali e Benji argumentaram sobre o melhor lugar para comer homus – no Lina, Abu Shukri ou no lugar onde eles não queriam que eu revelasse que Benji uma vez viu o chefe de polícia de Jerusalém comendo com sua comitiva depois da cerimônia do Fogo Sagrado no Santo Sepulcro na sexta-feira antes da Páscoa.
"Ah, e meu lugar favorito para tomar café", disse Benji, "é no Cotton Souk, um mercado coberto que leva ao Monte do Templo e à Cúpula da Rocha. Você pode se sentar em bancos e tomar pequenas xícaras de café turco espesso e observar as pessoas passando".
No final do Habad Street, subimos um conjunto de degraus de metal azul e nos encontramos numa extensão de telhado, um pedaço de terra de ninguém entre os bairros muçulmano e judeu. Em uma das ruas, um judeu ortodoxo estava voltando das orações no Muro das Lamentações com seu xale de oração sobre os ombros enquanto meninos árabes passaram por ele de bicicleta gritando de alegria. Em primeiro plano, havia um terraço cercado supervisionado por um estande de guarda onde uma yeshiva judaica havia sido criada no bairro muçulmano. Um estudante do Talmud estendeu-se com o rosto voltado para o céu e seu chapéu preto de aba apoiado no nariz. "Há muitos cruzamentos", disse Benji. "Este é um deles. Turistas demais vêm aqui e veem os locais históricos importantes, mas a melhor apreciação de Jerusalém acontece nos pequenos interstícios entre os prédios."
(Wendell Steavenson é editor associado da Prospect.)
Tradutor: Eloise De Vylder
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