Para esses trabalhadores que, em sua maioria, recebem por hora, os contracheques de papel e até mesmo os depósitos diretos foram substituídos por cartões pré-pagos emitidos por seus empregadores. Os funcionários podem utilizar esses cartões, que funcionam como cartões de débito, nos caixas eletrônicos para retirar seus salários.
Mas, na esmagadora maioria dos casos, o uso desse cartão pré-pago envolve o pagamento de tarifas. E essas taxas podem se acumular rapidamente: uma das administradoras desses cartões, por exemplo, cobra US$ 1,75 para a realização de um único saque na maioria dos caixas eletrônicos, US$ 2,95 por um extrato impresso e US$ 6 pela substituição de um cartão. Alguns usuários ainda têm que pagar US$ 7 de taxa de inatividade caso não utilizem seus cartões durante determinado período.
Essas tarifas podem abocanhar uma fatia tão grande dos rendimentos dos trabalhadores que alguns deles acabam recebendo menos do que um salário mínimo quando se levam em consideração todas as taxas cobradas, segundo informaram advogados da área de defesa do consumidor, funcionários detentores desse tipo de cartão e órgãos reguladores estaduais e federais dos Estados Unidos.
Devonte Yates, 21 anos, que ganha US$ 7,25 por hora de trabalho em um drive-through de uma loja do McDonald's em Milwaukee, diz que gasta entre US$ 40 e US$ 50 por mês com as taxas associadas a seu cartão de pagamento pré-pago do JPMorgan Chase.
"É muito ruim", disse ele. "Há uma tarifa para todas as transações que a gente faz, literalmente."
Algumas transações realizadas com o cartão de pagamento do Chase são gratuitas, de acordo com uma lista de tarifas. Mas muitos funcionários dizem não ter escolha na hora de receber seus salários a não ser usar os cartões pré-pagos: algumas empresas deixaram de oferecer as opções normais para pagar seus empregados, como cheques comuns ou depósito direto.
Em empresas nas quais os empregados podem optar por como desejam receber seus salários, muitas vezes essa escolha fica mais na teoria do que na prática, de acordo com entrevistas realizadas com funcionários, reguladores estaduais e defensores dos direitos dos consumidores. Os funcionários dizem que, geralmente, eles são inscritos automaticamente nos programas de cartão de pagamento pré-pago e, caso queiram receber seus salários por outra forma de pagamento, precisam ler e preencher uma pilha de formulários.
"Praticamente todas as semanas nós ficamos sabendo de casos de funcionários que nunca foram informados sobre outras opções para receber seus salários, e os empregadores certamente não tentam esclarecer os trabalhadores", disse Deyanira Del Rio, diretora-adjunta do Neighborhood Economic Development Advocacy Project (Projeto Distrital de Defesa do Desenvolvimento Econômico), que trabalha com grupos comunitários em Nova York.
A Taco Bell, a Walgreen e o Wal-Mart são algumas das dezenas de empresas bem conhecidas que oferecem cartões pré-pagos para seus trabalhadores. Esses cartões são especialmente populares entre varejistas e restaurantes. E eles estão rapidamente ganhando terreno. Em 2012, US$ 34 bilhões foram carregados em 4,6 milhões de cartões de pagamento ativos, de acordo com a empresa de pesquisa Aite Group. A companhia afirmou que prevê que esse número alcance US$ 68,9 bilhões e 10,8 milhões de cartões até 2017.
As empresas e as administradoras de cartões, que incluem o Bank of America, a Wells Fargo e o Citigroup, dizem que os cartões pré-pagos são mais baratos e mais eficientes do que os cheques para o pagamento de salários --uma calculadora disponível no site da Visa estima que uma empresa com 500 funcionários é capaz de economizar US$ 21 mil por ano ao migrar dos cheques para os cartões de pagamento pré-pagos. Em seu site, o Citigroup alardeia como os cartões "garantem o pagamento na data certa para todos os funcionários".
A maior emissora de cartões de pagamento pré-pagos é a NetSpend, com sede em Austin, no Estado do Texas. Chuck Harris, presidente da empresa, diz que a NetSpend atrai as companhias ao oferecer comodidades aos funcionários e cortes de gastos para os empregadores.
"Nós criamos um produto que os empregadores podem apresentar sem medo a seus empregados como algo que trará benefícios reais para eles", disse Harris.
Às vezes, no entanto, os incentivos para que os empregadores convençam seus funcionários a adotar os cartões de pagamento pré-pagos são mais explícitos. No caso da Secretaria de Habitação da Cidade de Nova York, o órgão receberá US$ 1 para cada funcionário que se inscrever no programa de cartões de pagamento pré-pagos do Citibank, de acordo com um contrato analisado pelo jornal "The New York Times". (Sheila Stainback, porta-voz da Secretaria de Habitação, observou que o órgão tem um orçamento anual de US$ 3 bilhões e que cerca de 430 funcionários se inscreveram para receber seus salários por meio do cartão de pagamento pré-pago.)
Outra funcionária do McDonald's, Natalie Gunshannon, 27, diz que os donos da franquia da lanchonete na qual ela trabalhou em Dallas, no Estado da Pensilvânia, se recusaram a depositar seu salário diretamente em sua conta corrente, aberta em uma cooperativa de crédito local. Detalhe: a cooperativa onde Natalie tem conta permite que seus clientes usem os caixas eletrônicos gratuitamente. Em vez disso, segundo Natalie, ela foi obrigada a usar um cartão de pagamento pré-pago emitido pelo JPMorgan Chase. Ela já deixou o emprego no drive-through e está processando os donos dessa franquia do McDonald's.
"Eu sei que eu mereço receber uma quantia justa pelo meu trabalho", disse ela.
Os proprietários da franquia, Albert e Carol Mueller, disseram em um comunicado que cumprem todas as leis trabalhistas e fiscais e que tentam proporcionar uma experiência positiva para seus funcionários. O McDonald's observou que não foi citado no processo e afirmou que permite que seus franqueados determinem suas políticas trabalhistas e aquelas referentes ao pagamento de salários.
Alguns empregadores e administradoras de cartões de pagamento pré-pagos afirmam que esses cartões são úteis para trabalhadores de baixa renda que não possuem contas bancárias. Eles também afirmam que as taxas cobradas pelos cartões são, geralmente, mais baixas do que aquelas associadas aos serviços de desconto de cheques, que são, muitas vezes, a única opção para as pessoas que não têm contas bancárias.
"Os funcionários que não têm conta bancária muito provavelmente terão que pagar uma tarifa para descontar seus cheques quando forem receber seus salários por meio dessa forma de pagamento", disse Nina Das, uma porta-voz do Citigroup. Ela disse que "alguém que desconte um cheque de pagamento no valor de US$ 500 acabará pagando US$ 15 ou o correspondente a 3% de taxa de desconto de cheque".
E essa população que tende a não usar ou a usar poucos serviços bancários está aumentando. Aproximadamente 10 milhões de famílias norte-americanas não utilizam serviços bancários, contra 9 milhões de famílias quatro anos atrás, de acordo com estimativas da Federal Deposit Insurance Corp. Além disso, 24 milhões de famílias que não possuem conta bancária usam serviços financeiros caros, como cartões de pagamento pré-pagos, informou a agência.
Para os bancos --que estão tentando recuperar bilhões de dólares em receitas perdidas após a recente adoção de uma série de restrições à cobrança de taxas pelo uso de cartões de débito e de crédito--, os contratos para a emissão de cartões de pagamento pré-pagos podem se mostrar lucrativos, uma vez que esse tipo de produto se manteve praticamente intocado pelas últimas normas financeiras implementadas. Como resultado, alguns dos maiores bancos dos Estados Unidos estão expandindo seu negócio de cartões de pagamento pré-pagos, dizem analistas do setor.
A falta de regulamentação do mercado de cartões de pagamento pré-pagos, apesar de ser atraente para algumas administradoras, pode, possivelmente, fazer com que os detentores desses cartões fiquem atolados em tarifas. Tomemos o exemplo das taxas de inatividade, que penalizam os usuários que utilizam raramente seus cartões pré-pagos. O Federal Reserve proibiu a cobrança dessas tarifas por cartões de crédito e de débito, mas não há esse tipo de proteção para os cartões de pagamento pré-pagos. Os cartões usados como forma de pagamento por mais de duas dezenas de grandes redes varejistas norte-americanas têm taxas de inatividade de US$ 7 ou mais, de acordo com uma análise desses contratos.
Em alguns dos cartões pré-pagos, os funcionários também podem ter que arcar com tarifas de US$ 25 para utilizar o cheque especial, um serviço batizado de "proteção de saldo". De acordo com a lei Dodd-Frank de reforma financeira, os bancos com mais de US$ 10 bilhões em ativos estão impedidos de cobrar tarifas referentes ao uso de cheque especial das contas correntes dos clientes.
É praticamente impossível escapar de muitas das tarifas cobradas pelas administradoras dos cartões pré-pagos, dizem alguns funcionários. Bintou Kamara, funcionária da Victoria's Secret, por exemplo, disse que teve de pagar US$ 1,50 apenas para transferir o dinheiro de seu cartão de pagamento pré-pago do Citi para sua conta corrente.
"Eu ganho tão pouco dinheiro que parece muito ter que pagar apenas para ter acesso a ele", disse Kamara, 23, que trabalha como balconista em Nova York.
Naoki Fuji, um dos responsáveis pela área de políticas do Retail Action Project (Projeto de Ação no Varejo), grupo de defesa dos direitos dos trabalhadores que atuam no setor varejista, disse: "Essas são as pessoas que menos podem se dar ao luxo de gastar muito com tarifas altíssimas".
Em alguns de seus cartões de pagamento pré-pagos, a NetSpend cobra US$ 2,25 por saques realizados em caixas eletrônicos fora da rede credenciada gratuita, US$ 0,50 para consultas de saldo via atendente, US$ 0,50 por compras realizadas com o cartão, US$ 5 para reimpressões de extratos, US$ 10 para o fechamento de conta, US$ 25 para participação em um programa de proteção de saldo (leia-se, utilização do cheque especial) e US$ 7,50 após 60 dias de inatividade, de acordo com uma apresentação da empresa com data de abril passado, analisada pelo "The Times".
Patrick Brown, vice-presidente sênior da NetSpend, disse que a empresa "se empenha muito para garantir que os consumidores sejam capazes de acessar seus salários de maneira gratuita" e que proporciona um localizador de caixas eletrônicos para ajudar os funcionários a fazerem saques sem pagar tarifas.
Algumas das maiores redes varejistas dos Estados Unidos, como a Home Depot, o Wal-Mart, a Walgreen e a Limited Brands, controladora da Victoria's Secret, dizem que permitem que seus funcionários escolham se preferem receber seus salários por meio de depósitos diretos ou de cartões pré-pagos --ou por meio de cheques, em alguns casos.
Em outros casos, os funcionários dizem que, embora eles sejam capazes de fazer alguns saques gratuitos em determinados caixas eletrônicos, é difícil encontrar os caixas certos em seus bairros. Nina Das, do Citigroup, disse que "os detentores de seus cartões de pagamento pré-pago têm acesso a mais de 27 mil caixas eletrônicos em todo o país".
No entanto, os problemas surgem quando os empregadores obrigam seus funcionários a utilizar exclusivamente cartões de pagamento pré-pagos. Em 25 Estados norte-americanos, os empregadores estão autorizados a não utilizar cheques em papel e a oferecer depósitos diretos ou cartões de pagamento pré-pagos. Nos demais estados norte-americanos, as normas são menos claras e os empregadores estão assumindo um risco ao não oferecerem também a opção de pagamento via cheque, de acordo com pesquisa realizada por Madeline K. Aufseeser, analista da Aite. Não foi possível determinar quantos empregadores oferecem cartões de pagamento pré-pagos nos EUA atualmente.
Para os trabalhadores que recebem baixos salários, as tarifas cobradas por esses cartões podem gerar soluções inusitadas.
Krystal McLemore, 22, ganha US$ 7,65 por hora em uma loja da rede de lanchonetes Taco Bell em St. Louis. Ela disse que foi instruída a assinar um contrato para receber um cartão de pagamento pré-pago. (A Taco Bell diz que "oferece depósitos diretos e uma opção voluntária de cartões de pagamento pré-pagos como uma conveniência adicional" para seus funcionários.) Mas Krystal diz que se cansou de ter que pagar US$ 1,75 para sacar dinheiro, além das tarifas cobradas para a utilização dos caixas eletrônicos. Depois de receber uma dica de um colega de trabalho, Krystal percebeu que poderia reduzir suas tarifas caso sacasse seu salário todo de uma só vez. Agora, de posse de um dos produtos bancários mais modernos que existem, Krystal adotou uma maneira decididamente antiquada para lidar com seu dinheiro: ele fica guardado em uma caixa de sapatos dentro de seu armário, em notas de US$ 10 e US$ 20.
"Eu dou muito duro para ganhar o meu dinheiro", diz ela.
Tradutor: Cláudia Gonçalves
Mas, na esmagadora maioria dos casos, o uso desse cartão pré-pago envolve o pagamento de tarifas. E essas taxas podem se acumular rapidamente: uma das administradoras desses cartões, por exemplo, cobra US$ 1,75 para a realização de um único saque na maioria dos caixas eletrônicos, US$ 2,95 por um extrato impresso e US$ 6 pela substituição de um cartão. Alguns usuários ainda têm que pagar US$ 7 de taxa de inatividade caso não utilizem seus cartões durante determinado período.
Essas tarifas podem abocanhar uma fatia tão grande dos rendimentos dos trabalhadores que alguns deles acabam recebendo menos do que um salário mínimo quando se levam em consideração todas as taxas cobradas, segundo informaram advogados da área de defesa do consumidor, funcionários detentores desse tipo de cartão e órgãos reguladores estaduais e federais dos Estados Unidos.
Devonte Yates, 21 anos, que ganha US$ 7,25 por hora de trabalho em um drive-through de uma loja do McDonald's em Milwaukee, diz que gasta entre US$ 40 e US$ 50 por mês com as taxas associadas a seu cartão de pagamento pré-pago do JPMorgan Chase.
"É muito ruim", disse ele. "Há uma tarifa para todas as transações que a gente faz, literalmente."
Algumas transações realizadas com o cartão de pagamento do Chase são gratuitas, de acordo com uma lista de tarifas. Mas muitos funcionários dizem não ter escolha na hora de receber seus salários a não ser usar os cartões pré-pagos: algumas empresas deixaram de oferecer as opções normais para pagar seus empregados, como cheques comuns ou depósito direto.
Em empresas nas quais os empregados podem optar por como desejam receber seus salários, muitas vezes essa escolha fica mais na teoria do que na prática, de acordo com entrevistas realizadas com funcionários, reguladores estaduais e defensores dos direitos dos consumidores. Os funcionários dizem que, geralmente, eles são inscritos automaticamente nos programas de cartão de pagamento pré-pago e, caso queiram receber seus salários por outra forma de pagamento, precisam ler e preencher uma pilha de formulários.
"Praticamente todas as semanas nós ficamos sabendo de casos de funcionários que nunca foram informados sobre outras opções para receber seus salários, e os empregadores certamente não tentam esclarecer os trabalhadores", disse Deyanira Del Rio, diretora-adjunta do Neighborhood Economic Development Advocacy Project (Projeto Distrital de Defesa do Desenvolvimento Econômico), que trabalha com grupos comunitários em Nova York.
A Taco Bell, a Walgreen e o Wal-Mart são algumas das dezenas de empresas bem conhecidas que oferecem cartões pré-pagos para seus trabalhadores. Esses cartões são especialmente populares entre varejistas e restaurantes. E eles estão rapidamente ganhando terreno. Em 2012, US$ 34 bilhões foram carregados em 4,6 milhões de cartões de pagamento ativos, de acordo com a empresa de pesquisa Aite Group. A companhia afirmou que prevê que esse número alcance US$ 68,9 bilhões e 10,8 milhões de cartões até 2017.
As empresas e as administradoras de cartões, que incluem o Bank of America, a Wells Fargo e o Citigroup, dizem que os cartões pré-pagos são mais baratos e mais eficientes do que os cheques para o pagamento de salários --uma calculadora disponível no site da Visa estima que uma empresa com 500 funcionários é capaz de economizar US$ 21 mil por ano ao migrar dos cheques para os cartões de pagamento pré-pagos. Em seu site, o Citigroup alardeia como os cartões "garantem o pagamento na data certa para todos os funcionários".
A maior emissora de cartões de pagamento pré-pagos é a NetSpend, com sede em Austin, no Estado do Texas. Chuck Harris, presidente da empresa, diz que a NetSpend atrai as companhias ao oferecer comodidades aos funcionários e cortes de gastos para os empregadores.
"Nós criamos um produto que os empregadores podem apresentar sem medo a seus empregados como algo que trará benefícios reais para eles", disse Harris.
Às vezes, no entanto, os incentivos para que os empregadores convençam seus funcionários a adotar os cartões de pagamento pré-pagos são mais explícitos. No caso da Secretaria de Habitação da Cidade de Nova York, o órgão receberá US$ 1 para cada funcionário que se inscrever no programa de cartões de pagamento pré-pagos do Citibank, de acordo com um contrato analisado pelo jornal "The New York Times". (Sheila Stainback, porta-voz da Secretaria de Habitação, observou que o órgão tem um orçamento anual de US$ 3 bilhões e que cerca de 430 funcionários se inscreveram para receber seus salários por meio do cartão de pagamento pré-pago.)
Outra funcionária do McDonald's, Natalie Gunshannon, 27, diz que os donos da franquia da lanchonete na qual ela trabalhou em Dallas, no Estado da Pensilvânia, se recusaram a depositar seu salário diretamente em sua conta corrente, aberta em uma cooperativa de crédito local. Detalhe: a cooperativa onde Natalie tem conta permite que seus clientes usem os caixas eletrônicos gratuitamente. Em vez disso, segundo Natalie, ela foi obrigada a usar um cartão de pagamento pré-pago emitido pelo JPMorgan Chase. Ela já deixou o emprego no drive-through e está processando os donos dessa franquia do McDonald's.
"Eu sei que eu mereço receber uma quantia justa pelo meu trabalho", disse ela.
Os proprietários da franquia, Albert e Carol Mueller, disseram em um comunicado que cumprem todas as leis trabalhistas e fiscais e que tentam proporcionar uma experiência positiva para seus funcionários. O McDonald's observou que não foi citado no processo e afirmou que permite que seus franqueados determinem suas políticas trabalhistas e aquelas referentes ao pagamento de salários.
Alguns empregadores e administradoras de cartões de pagamento pré-pagos afirmam que esses cartões são úteis para trabalhadores de baixa renda que não possuem contas bancárias. Eles também afirmam que as taxas cobradas pelos cartões são, geralmente, mais baixas do que aquelas associadas aos serviços de desconto de cheques, que são, muitas vezes, a única opção para as pessoas que não têm contas bancárias.
"Os funcionários que não têm conta bancária muito provavelmente terão que pagar uma tarifa para descontar seus cheques quando forem receber seus salários por meio dessa forma de pagamento", disse Nina Das, uma porta-voz do Citigroup. Ela disse que "alguém que desconte um cheque de pagamento no valor de US$ 500 acabará pagando US$ 15 ou o correspondente a 3% de taxa de desconto de cheque".
E essa população que tende a não usar ou a usar poucos serviços bancários está aumentando. Aproximadamente 10 milhões de famílias norte-americanas não utilizam serviços bancários, contra 9 milhões de famílias quatro anos atrás, de acordo com estimativas da Federal Deposit Insurance Corp. Além disso, 24 milhões de famílias que não possuem conta bancária usam serviços financeiros caros, como cartões de pagamento pré-pagos, informou a agência.
Para os bancos --que estão tentando recuperar bilhões de dólares em receitas perdidas após a recente adoção de uma série de restrições à cobrança de taxas pelo uso de cartões de débito e de crédito--, os contratos para a emissão de cartões de pagamento pré-pagos podem se mostrar lucrativos, uma vez que esse tipo de produto se manteve praticamente intocado pelas últimas normas financeiras implementadas. Como resultado, alguns dos maiores bancos dos Estados Unidos estão expandindo seu negócio de cartões de pagamento pré-pagos, dizem analistas do setor.
A falta de regulamentação do mercado de cartões de pagamento pré-pagos, apesar de ser atraente para algumas administradoras, pode, possivelmente, fazer com que os detentores desses cartões fiquem atolados em tarifas. Tomemos o exemplo das taxas de inatividade, que penalizam os usuários que utilizam raramente seus cartões pré-pagos. O Federal Reserve proibiu a cobrança dessas tarifas por cartões de crédito e de débito, mas não há esse tipo de proteção para os cartões de pagamento pré-pagos. Os cartões usados como forma de pagamento por mais de duas dezenas de grandes redes varejistas norte-americanas têm taxas de inatividade de US$ 7 ou mais, de acordo com uma análise desses contratos.
Em alguns dos cartões pré-pagos, os funcionários também podem ter que arcar com tarifas de US$ 25 para utilizar o cheque especial, um serviço batizado de "proteção de saldo". De acordo com a lei Dodd-Frank de reforma financeira, os bancos com mais de US$ 10 bilhões em ativos estão impedidos de cobrar tarifas referentes ao uso de cheque especial das contas correntes dos clientes.
É praticamente impossível escapar de muitas das tarifas cobradas pelas administradoras dos cartões pré-pagos, dizem alguns funcionários. Bintou Kamara, funcionária da Victoria's Secret, por exemplo, disse que teve de pagar US$ 1,50 apenas para transferir o dinheiro de seu cartão de pagamento pré-pago do Citi para sua conta corrente.
"Eu ganho tão pouco dinheiro que parece muito ter que pagar apenas para ter acesso a ele", disse Kamara, 23, que trabalha como balconista em Nova York.
Naoki Fuji, um dos responsáveis pela área de políticas do Retail Action Project (Projeto de Ação no Varejo), grupo de defesa dos direitos dos trabalhadores que atuam no setor varejista, disse: "Essas são as pessoas que menos podem se dar ao luxo de gastar muito com tarifas altíssimas".
Em alguns de seus cartões de pagamento pré-pagos, a NetSpend cobra US$ 2,25 por saques realizados em caixas eletrônicos fora da rede credenciada gratuita, US$ 0,50 para consultas de saldo via atendente, US$ 0,50 por compras realizadas com o cartão, US$ 5 para reimpressões de extratos, US$ 10 para o fechamento de conta, US$ 25 para participação em um programa de proteção de saldo (leia-se, utilização do cheque especial) e US$ 7,50 após 60 dias de inatividade, de acordo com uma apresentação da empresa com data de abril passado, analisada pelo "The Times".
Patrick Brown, vice-presidente sênior da NetSpend, disse que a empresa "se empenha muito para garantir que os consumidores sejam capazes de acessar seus salários de maneira gratuita" e que proporciona um localizador de caixas eletrônicos para ajudar os funcionários a fazerem saques sem pagar tarifas.
Algumas das maiores redes varejistas dos Estados Unidos, como a Home Depot, o Wal-Mart, a Walgreen e a Limited Brands, controladora da Victoria's Secret, dizem que permitem que seus funcionários escolham se preferem receber seus salários por meio de depósitos diretos ou de cartões pré-pagos --ou por meio de cheques, em alguns casos.
Em outros casos, os funcionários dizem que, embora eles sejam capazes de fazer alguns saques gratuitos em determinados caixas eletrônicos, é difícil encontrar os caixas certos em seus bairros. Nina Das, do Citigroup, disse que "os detentores de seus cartões de pagamento pré-pago têm acesso a mais de 27 mil caixas eletrônicos em todo o país".
No entanto, os problemas surgem quando os empregadores obrigam seus funcionários a utilizar exclusivamente cartões de pagamento pré-pagos. Em 25 Estados norte-americanos, os empregadores estão autorizados a não utilizar cheques em papel e a oferecer depósitos diretos ou cartões de pagamento pré-pagos. Nos demais estados norte-americanos, as normas são menos claras e os empregadores estão assumindo um risco ao não oferecerem também a opção de pagamento via cheque, de acordo com pesquisa realizada por Madeline K. Aufseeser, analista da Aite. Não foi possível determinar quantos empregadores oferecem cartões de pagamento pré-pagos nos EUA atualmente.
Para os trabalhadores que recebem baixos salários, as tarifas cobradas por esses cartões podem gerar soluções inusitadas.
Krystal McLemore, 22, ganha US$ 7,65 por hora em uma loja da rede de lanchonetes Taco Bell em St. Louis. Ela disse que foi instruída a assinar um contrato para receber um cartão de pagamento pré-pago. (A Taco Bell diz que "oferece depósitos diretos e uma opção voluntária de cartões de pagamento pré-pagos como uma conveniência adicional" para seus funcionários.) Mas Krystal diz que se cansou de ter que pagar US$ 1,75 para sacar dinheiro, além das tarifas cobradas para a utilização dos caixas eletrônicos. Depois de receber uma dica de um colega de trabalho, Krystal percebeu que poderia reduzir suas tarifas caso sacasse seu salário todo de uma só vez. Agora, de posse de um dos produtos bancários mais modernos que existem, Krystal adotou uma maneira decididamente antiquada para lidar com seu dinheiro: ele fica guardado em uma caixa de sapatos dentro de seu armário, em notas de US$ 10 e US$ 20.
"Eu dou muito duro para ganhar o meu dinheiro", diz ela.
Tradutor: Cláudia Gonçalves
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