Jean-Pierre Stroobants e Philippe Ricard - Le Monde
Foi com constrangimento e choque que, no domingo (30) à noite, após um dia de reflexão, os serviços de Catherin Ashton, vice-presidente da Comissão Europeia e responsável pela diplomacia dos 27 países-membros da UE, divulgaram um comunicado de nove linhas em resposta às informações publicadas na véspera pelo site da "Der Spiegel". A revista alemã havia revelado que a Agência Nacional de Segurança Americana (NSA) espionara a representação diplomática da União Europeia (UE) em Washington, a delegação da UE na ONU e a sede do Conselho Europeu, em Bruxelas.
Quase ao mesmo tempo, o jornal britânico "The Guardian" revelava que a França, a Itália e a Grécia figuravam entre os 38 alvos privilegiados dos serviços de escuta americanos. Paris, assim como Bruxelas, está pedindo explicações a Washington.
Ben Rhodes, conselheiro adjunto de Segurança Nacional, afirmou que os europeus estavam "entre os aliados mais próximos" dos Estados Unidos na área de inteligência.
Os documentos publicados ressaltam que países europeus (França, Alemanha) são "menos confiáveis" que o Reino Unido, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia, todos os quatro membros da rede de monitoramento Echelon, um sistema de escuta global dirigido pela NSA, criado durante a Guerra Fria e depois ampliado para a espionagem financeira e comercial.
O comunicado da Comissão tentou mostrar cautela. Já Viviane Reding, comissária para Justiça e Direitos Fundamentais, defendeu um congelamento das negociações comerciais entre a Europa e os Estados Unidos. "Não podemos negociar um grande mercado transatlântico se houver qualquer suspeita de que nossos parceiros estejam espionando os gabinetes de nossos negociadores", considerou a comissária.
"Se as informações forem confirmadas, isso criará uma situação muito grave", acredita Karel De Gucht, comissário para o Comércio, negociador-chefe com os Estados Unidos. Mas, segundo o comissário belga, ainda não chegou a hora de copiar eurodeputados que, como Daniel Cohen-Bendit, co-presidente dos Verdes, estão exigindo uma suspensão dessas negociações de livre-comércio, cujo início estava previsto para o dia 8 de julho.
Os embaixadores junto à UE deverão tentar, na quarta-feira, coordenar as reações e entrar em um acordo sobre os questionamentos a fazer sobre a administração Obama. Um dos planos seria nomear um grupo de especialistas em inteligência. Foi a solução que surgiu após as revelações sobre o Prism, no início do mês de junho, e conversas com o governo americano. Até o momento, os especialistas ainda não foram designados e Washington não respondeu aos diversos questionamentos de Bruxelas.
Esta semana o escândalo deve agitar o Parlamento europeu, que se reunirá em sessão plenária em Estrasburgo. Seu presidente, Martin Schulz, se diz "chocado": para ele, se o caso se confirmar, deverá ter um "sério impacto" sobre as relações entre os Estados Unidos e a Europa.
Em Bruxelas, as revelações da "Der Spiegel" confirmam a ideia de especialistas de que a cidade é "a mais escutada do mundo". Um caso de espionagem do prédio Juste-Lipse, que abriga os serviços secretos do Conselho da UE, foi revelado em 2003. Não se sabe até o momento se é o mesmo caso mencionado por Edward Snowden e atribuído à NSA. Um sistema de escuta foi criado. Microfones teriam sido colocados no prédio, permitindo ouvir as representações de diversos países, entre eles a França. A investigação dos serviços secretos belgas não apresentou conclusões determinantes, exceto pela falta de diligência do Conselho em dar esclarecimentos.
No início da década, uma comissão parlamentar belga que investigava o programa de monitoramento Echelon denunciou diversas invasões em redes belgas. Os deputados também haviam acusado a espionagem financeira conduzida pelos serviços britânicos e exigiram, em vão, o acesso às suas instalações de escuta. A Comissão Europeia se manteve discreta quanto ao Echelon. No Parlamento, os diferentes países se dividiram.
Tradutor: UOL
Ben Rhodes, conselheiro adjunto de Segurança Nacional, afirmou que os europeus estavam "entre os aliados mais próximos" dos Estados Unidos na área de inteligência.
"Alvos a atacar"
As informações da "Der Spiegel" se baseiam em documentos confidenciais de 2010 e obtidos, em parte, graças a Edward Snowden, o autor das recentes revelações sobre o Prism, a rede de monitoramento geral dos arquivos eletrônicos dos europeus. Eles também mencionam diplomatas europeus apontados como "alvos a atacar", que podem ter suas conversas espionadas.Os documentos publicados ressaltam que países europeus (França, Alemanha) são "menos confiáveis" que o Reino Unido, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia, todos os quatro membros da rede de monitoramento Echelon, um sistema de escuta global dirigido pela NSA, criado durante a Guerra Fria e depois ampliado para a espionagem financeira e comercial.
O comunicado da Comissão tentou mostrar cautela. Já Viviane Reding, comissária para Justiça e Direitos Fundamentais, defendeu um congelamento das negociações comerciais entre a Europa e os Estados Unidos. "Não podemos negociar um grande mercado transatlântico se houver qualquer suspeita de que nossos parceiros estejam espionando os gabinetes de nossos negociadores", considerou a comissária.
"Se as informações forem confirmadas, isso criará uma situação muito grave", acredita Karel De Gucht, comissário para o Comércio, negociador-chefe com os Estados Unidos. Mas, segundo o comissário belga, ainda não chegou a hora de copiar eurodeputados que, como Daniel Cohen-Bendit, co-presidente dos Verdes, estão exigindo uma suspensão dessas negociações de livre-comércio, cujo início estava previsto para o dia 8 de julho.
Estagnação
As discussões tratarão sobretudo das questões de proteção de dados, tema controverso. Os Estados Unidos esperam chegar a um mecanismo de reconhecimento mútuo garantindo que suas empresas não receberão a imposição de mais regras em solo europeu. Os europeus estão irritados com a estagnação de conversas iniciadas em 2011.Os embaixadores junto à UE deverão tentar, na quarta-feira, coordenar as reações e entrar em um acordo sobre os questionamentos a fazer sobre a administração Obama. Um dos planos seria nomear um grupo de especialistas em inteligência. Foi a solução que surgiu após as revelações sobre o Prism, no início do mês de junho, e conversas com o governo americano. Até o momento, os especialistas ainda não foram designados e Washington não respondeu aos diversos questionamentos de Bruxelas.
Esta semana o escândalo deve agitar o Parlamento europeu, que se reunirá em sessão plenária em Estrasburgo. Seu presidente, Martin Schulz, se diz "chocado": para ele, se o caso se confirmar, deverá ter um "sério impacto" sobre as relações entre os Estados Unidos e a Europa.
Em Bruxelas, as revelações da "Der Spiegel" confirmam a ideia de especialistas de que a cidade é "a mais escutada do mundo". Um caso de espionagem do prédio Juste-Lipse, que abriga os serviços secretos do Conselho da UE, foi revelado em 2003. Não se sabe até o momento se é o mesmo caso mencionado por Edward Snowden e atribuído à NSA. Um sistema de escuta foi criado. Microfones teriam sido colocados no prédio, permitindo ouvir as representações de diversos países, entre eles a França. A investigação dos serviços secretos belgas não apresentou conclusões determinantes, exceto pela falta de diligência do Conselho em dar esclarecimentos.
Pazes feitas em 2009
Em 2006, o caso Swift --nome de uma empresa sediada no subúrbio da capital belga-- havia mostrado que a CIA e o Tesouro Americano tiveram acesso durante anos às informações sobre as transações bancárias mundiais, violando regras sobre a proteção de dados. A Swift havia sido submetida a injunções americanas sob pretexto de combate ao terrorismo. Europeus e americanos fizeram as pazes em 2009.No início da década, uma comissão parlamentar belga que investigava o programa de monitoramento Echelon denunciou diversas invasões em redes belgas. Os deputados também haviam acusado a espionagem financeira conduzida pelos serviços britânicos e exigiram, em vão, o acesso às suas instalações de escuta. A Comissão Europeia se manteve discreta quanto ao Echelon. No Parlamento, os diferentes países se dividiram.
Tradutor: UOL
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