segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A próxima crise do mercado emergente
Simon Johnson - NYT
Será que os países de renda mediana do mundo --conhecidos no ramo de investimentos como "mercados emergentes" --enfrentam um sério risco de crise? Se uma crise como essa se desdobrar em um país, poderá contagiar outros e espahar o pânico ao redor do mundo?
Minha resposta é um cauteloso "não" para ambas as perguntas. Mas seria um erro descartar ou ignorar essas questões, em parte porque elas estão sendo colocadas por pessoas inteligentes nos mercados financeiros e, em parte, porque em algum momento num futuro não muito distante, a resposta poderia ser um decisivo "sim" --com consequências desastrosas.
Existem três fontes principais de preocupação. Em primeiro lugar, a Índia enfrenta dificuldades econômicas reais, crescendo para um tipo de crise, como expliquei aqui na semana passada. Arvind Subramanian, meu colega no Instituto Peterson para a Economia Internacional, disse no "New York Times" no fim de semana que a desaceleração do crescimento indiano tem causas antigas e que uma rápida recuperação não parecia ser muito provável.
A maioria das crises financeiras começam num país fraco e depois se espalham à medida que os investidores reavaliam mais amplamente suas perspectivas. A crise da "dívida dos países em desenvolvimento" de 1982 surgiu inicialmente no México, e a desestruturação da Ásia, em 1997, começou com a Tailândia. A Grécia deveria ser um caso isolado, no início de 2010, mas a pressão então se estendeu para a Irlanda, Portugal, Espanha e Itália.
Em segundo lugar, existem problemas potenciais de financiamento. Na Europa, os déficits orçamentários precisam ser financiados --e o principal problema é que as finanças públicas podem não ser sustentáveis quando as taxas de juros sobem. Em alguns mercados emergentes, há déficits orçamentários (por exemplo, na Índia e no Brasil), mas a característica geral comum aos países instáveis são os déficits em conta corrente --o país está comprando mais do que está vendendo para o mundo.
Os déficits em conta corrente são normalmente financiado por entradas de capital. Enquanto os investidores estão felizes em colocar dinheiro porque gostam das perspectivas de um país, isso funciona bem. Mas quando os mercados ficam abalados, porque a China está desacelerando, por exemplo, os investidores nacionais e estrangeiros tiram seus capitais de muitos mercados emergentes e o colocam em redutos seguros (como os Estados Unidos) --o que singifica que as taxas de juros sobem nos mercados emergentes. Se isso é o bastante para prejudicar o crescimento econômico, então as profecias de desaceleração podem se realizar.
Em terceiro lugar, o ambiente da macropolítica nos Estados Unidos não ajuda os mercados emergentes. Em parte, isso ocorre porque o Fed está se inclinando na direção de uma política monetária mais rígida e pode tanto aumentar as taxas de curto prazo quanto fazer declarações que empurrem para cima as taxas de juros de longo prazo (falando de um modo geral, é isso que tem acontecido desde a primavera) .
Em 1982, as taxas de juros mais altas nos Estados Unidos aumentaram os custos dos empréstimos para o México e outros mercados emergentes, contribuindo para o surgimento do que ficou conhecido como a crise da dívida latino-americana e, para muitos dos afetados, como a "década perdida". No início de 1997, os Estados Unidos também estavam apertando a política monetária. Às vezes, pequenas mudanças no financiamento global podem ter grandes consequências para os mercados emergentes.
Além disso, o amento da incerteza sobre a política fiscal dos Estados Unidos tende a fazer com que o capital flua para refúgios seguros – paradoxalmente, entre eles estão os Estados Unidos. Isso não ajuda os mercados emergentes com déficits em conta corrente que precisam de financiamento.

O mecanismo de transmissão para a crise se propagar são os mercados financeiros globalizados, que passam da sensatez à loucura com o premir de poucos botões. Você pode acrescentar uma grande variedade de elementos imprevisíveis que contribuiriam para perturbar os investidores sob pressão, incluindo negociações erradas causadas pelo sistema de negociação do Goldan Sachs recentemente, ou o problema do software da Nasdaq. Com certeza não vimos a última crise envolvendo os chamados "negócios de alta velocidade", em que os computadores fazem --por natureza-- grandes pedidos mais rápido do que os seus supervisores humanos podem controlá-los.
Mas a questão subjacente continua sendo macroeconômica, ea questão de saber se o capital continuará fluindo para mercados emergentes à medida que suas perspectivas econômicas se tornam um pouco menos positivas. Guarde as previsões de crescimento econômico do Fundo Monetário Internacional para julho e observe como elas serão revisadas para baixo para a "Ásia em desenvolvimento" e outros mercados emergentes, quando os números mais recentes saírem em outubro. (Ou dê uma olhada no DataMapper do FMI, nos números de crescimento e veja como eles mudam de cor conforme as previsões mudam.)
Ao mesmo tempo, dois factores positivos diminuem a probabilidade de uma grave crise mundial.
Primeiro, a série contínua de fiascos envolvendo grandes bancos internacionais tem um lado positivo: eles são obrigados a serem mais cuidadosos e estão na defensiva em relação à regulamentação. Quase todos os grandes nomes estiveram envolvidos em pelo menos um grande escândalo nos últimos dois anos, incluindo as perdas monumentais do JPMorgan Chase; investigações de lavagem de dinheiro no HSBC e Standard Chartered que terminaram com os bancos concordando com grandes acordos, e o Barclays (e muitos outros) no Libor. Deutsche Bank, UBS , Barclays e outros permanecem sob pressão para aumentar seus fundos de equidade (o que significa que, se a pressão for significativa, precisam reduzir seus níveis de endividamento em relação ao total de ativos).
A arrogância entre os banqueiros internacionais nunca é pouca, mas está em níveis mais moderados do que os vistos entre 2005 e 2007. E a pressão dos reguladores permanece significativa, as pessoas ainda se lembram do colapso do Lehman há cinco anos. A alavancagem (dívida em relação aos ativos totais) nos maiores bancos é alta – e muito maior do que devemos considerar como razoável – mas não nos níveis estratosféricos de 2007. Como resultado, as perdas de investimentos nos mercados emergentes (ou qualquer outra coisa) têm menos chances de empurrar os grandes bancos imediatamente para a insolvência.
Em segundo lugar, muitos mercados emergentes têm maiores reservas de moeda estrangeira do que no passado, e estão menos inclinados a desperdiçar essas reservas para defender um determinado valor de taxa de câmbio. Na medida em que estes países podem permitir que suas moedas se depreciem modestamente à medida que os capitais fluem para fora, eles tenderão naturalmente a aumentar suas exportações e reduzir as importações – o que tende a reduzir seus déficits em conta corrente (e reduzir as suas necessidades futuras de financiamento).
Observe com cuidado os desdobramentos no Brasil, Indonésia, África do Sul e Turquia. A forma como eles respondem à pressão do mercado financeiro será fundamental para o que acontecerá em seguida. Se eles moderarem os efeitos – permitindo alguma desvalorização enquanto elevam um tanto as taxas de juros --e mantêm a confiança (e o crescimento) em níveis razoáveis, não haverá uma onda de crise dos mercados emergentes.
Mas quando as grandes companhias financeiras internacionais voltarem à boa forma, será uma história diferente. Grandes crises se seguem a prolongados episódios de exuberância, quando as pessoas acham que existem apenas apostas de sentido único (em mercados emergentes ou qualquer outra coisa), a alavancagem aumenta substancialmente e qualquer crise pode se transformar rapidamente num desastre. Todas as crises verdadeiramente grandes começam com investidores excessivamente confiantes.
Simon Johnson, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, é professor de Empreendedorismo na Escola Sloan de Administração do MIT e coautor de "White House Burning: The Founding Fathers, Our National Debt, and Why It Matters to You" [algo como "Casa Branca em Chamas: Os fundadores do país, a dívida nacional, e o que você tem a ver com isso"].

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