segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Anúncio de chocolate na Alemanha é acusado de racista
Thomas Rogers - Der Spiegel
A companhia de doces Ferrero retirou do ar um comercial com tema eleitoral para os chocolates brancos depois que os telespectadores compararam seus slogans, entre eles "A Alemanha vota em branco" e "nozes brancas ficam", com os de extremistas de direita.
A fabricante italiana de chocolate Ferrero deixou a Alemanha perplexa esta semana com um comercial que está atraindo acusações de ter uma mensagem xenófoba subliminar.
O anúncio com temática eleitoral faz parte de uma campanha de lançamento do chocolate branco Ferrero Küsschen, ou "Ferrero Beijinhos" --que até agora só era disponível sazonalmente. O alvoroço sobre o anúncio, que agora foi retirado, desencadeou uma discussão sobre os limites do politicamente correto e a aparente insensibilidade do anunciante para com as questões de raça.
No anúncio, criado pela M&C Saatchi, uma das maiores agências de publicidade do mundo, um pacote de chocolate gigante e falante está sob um palanque discursando na frente de simpatizantes segurando cartazes e gritando "Yes Weiss Can" ("Sim, branco pode") e "Weiss Nuss bleiben" ("Nozes brancas ficam"). "Todos nós queremos mudar o país para algo mais saboroso, queremos o Ferrero Küsschen branco para sempre", diz o pacote antropomórfico na frente de um cartaz triunfante que se desenrola no palco com os dizeres "Alemanha Vota em Branco".
O anúncio provocou uma reação rápida e estupefata nas plataformas de mídia social. No Twitter, usuários compararam a campanha à do NPD, o partido de extrema-direita alemão associado ao movimento neonazista, que é conhecido por fazer declarações racistas e contra imigrantes. "Será que o Ferrero branco se tornou o principal financiador do NPD?", perguntou um usuário no Twitter. "A partir de agora, o NPD não vai comer nada além de Ferrero Küsschen", tuitou um outro.
A página de Facebook para a campanha se tornou um local de debate acirrado sobre a campanha, no qual um usuário disse: "Espero que os anunciantes por trás dessa campanha sufoquem com um beijo de chocolate e que não tenha nenhum nazista por perto para salvá-los". Outros reclamaram que era ridículo um anunciante não poder usar a palavra "branco" num anúncio sem ser acusado de racismo. Na esteira da reação do público, a Ferrero retirou o anúncio para "fazer mudanças".

"Racismo sutil" na Alemanha

"É importante para nós ressaltarmos claramente que somos rigorosamente contra qualquer forma de xenofobia, extremismo de direita ou racismo", disse a Ferrero em uma declaração por e-mail para a Spiegel Online. "Todas as nossas afirmações eram puramente sobre o chocolate branco e sem nenhuma intenção xenófoba. Lamentamos que o comercial tenha sido mal interpretado e as mensagens tenham sido vistas de outra forma."
De acordo com Tahir Della, presidente da Iniciativa para Alemães Negros (ISD ), o fato de que este comercial chegou ao ar "mostra quão sutil o racismo pode ser na Alemanha. É notório que as pessoas são afetadas por isso, mas a maioria não percebe tão rapidamente".
Ele diz que a Alemanha tem muito a caminhar no que diz respeito à raça e consciência racial. Apesar da crescente diversidade, diz ele, o país ainda se vê em grande parte como um lugar homogêneo, e como boa parte do discurso do pós-guerra tem lidado com a culpa pelo Holocausto, o país não lidou totalmente com sua problemática história colonial. "É uma reação normal dizer que as pessoas na Alemanha estão sendo excessivamente cobradas sobre o politicamente correto, quando eu acho que é na verdade o oposto disso", diz ele.
Esta não é a primeira vez que uma campanha publicitária alemã provoca acusações de insensibilidade racial. Dois anos atrás, uma rede de padarias causou um alvoroço quando anunciou um bolo de chocolate com uma foto de um bebê negro e as palavras: "Sonho de chocolate. Até quando durar o estoque."
Em 2009, a empresa alemã de alimentos Spehe comercializou iscas de frango frito com molho de curry com o nome de "dedos de Obama", aparentemente alheia à associação entre afro-americanos e esse tipo de alimento.
Em 2004, a Festspielhaus em Baden-Baden anunciou uma montagem de "Parsifal", de Wagner --conduzida pelo famoso maestro Kent Nagano, dos EUA-- com um poster digitalmente alterado que mostra Wagner puxando os olhos com os dedos, numa referência aparente à ascendência de Nagano. O anúncio não só passou em grande parte despercebido, como anunciantes alemães o premiaram no ano seguinte.
A xenofobia se tornou um tema especialmente carregado na Alemanha desde que uma série de ataques racistas terroristas neonazistas mataram nove imigrantes entre 2000 e 2006 (uma série de ataques por parte de um grupo chamado National Socialist Underground, pelo qual a última integrante sobrevivente, Beate Zschäpe, está atualmente em julgamento).
Della também aponta para o debate atual em torno de um novo centro de refugiados no distrito de Hellersdorf, em Berlim, como um exemplo da contínua batalha da Alemanha contra o racismo. Ao longo das últimas semanas, a abertura do centro, que se destina a abrigar refugiados do Afeganistão, Síria e Sérvia, tornou-se um ponto de encontro para os extremistas de extrema-direita. Grupos neonazistas fizeram protestos contra a abertura do centro e um homem foi preso por fazer uma saudação nazista. O incidente mais uma vez levou discussões sobre a xenofobia alemã para as manchetes.
Mas Della não acredita que a campanha da Ferrero tenha sido um resultado de uma decisão conscientemente racista, e foi apenas um erro. Ele acredita que o fato de a companhia ter reagido tão rapidamente é um sinal de progresso. "É um processo de aprendizado", diz ele, "e a reação deles --de retirar do ar-- é um passo positivo."
Tradutor: Eloise De Vylder

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