Der Spiegel
Divulgação/Editora Alaúde

O empresário Ademir Cardona, 47 anos, passa gentilmente sua mão por um modelo dos anos 70. "Se ninguém mais as quiser, bem, eu entendo", ele diz. "Mas tem muita gente batendo à minha porta para ficar com ela."
O modelo conhecido como "Bulli" na Alemanha tem um nome feminino no Brasil. Por muito tempo houve rumores de sua morte iminente, mas agora é oficial. Em dezembro, a última Kombi (ou VW Type 2 Bus), considerada um clássico em todo o mundo, sairá da linha de produção em São Paulo. Isso se deve porque o veículo não pode mais ser atualizado, agora que o Brasil tornou obrigatório que todos os carros possuam sistema antitravamento de rodas (ABS) e airbags a partir de 2014. Essas características não são viáveis no modelo de 56 anos, disseram os engenheiros da VW.
"Bobagem", diz Cardona. "Com um pouco de boa vontade, eles poderiam fazer." Ele já instalou direção hidráulica, vidros elétricos, assentos reclináveis e ar-condicionado em suas Kombis, acessórios que os inventores nunca previram. Cardona possui uma empresa chamada Cia das Kombis na cidade de Porto Alegre, no Sul do Brasil. Ele conta com 34 veículos, todos disponíveis para venda ou locação.
Os negócios vão bem e Cardona planejava expandir, mas agora está preocupado com o futuro. "Está ficando mais difícil obter peças", ele diz. "A VW está levando o último carro realmente popular para o túmulo."
'Tecnologia adaptada sobre rodas'
As primeiras Kombis foram montadas em uma grande fábrica perto de São Paulo em 1953. Quatro anos depois, a Volkswagen do Brasil deu início à produção em série. Dificilmente outro veículo no mundo foi produzido por tanto tempo. No Brasil, a Kombi representou um casamento incrivelmente bem-sucedido de engenharia alemã e estilo de vida brasileiro. Mais de 1,5 milhão de veículos foram produzidos no país, onde a Kombi é o veículo básico para várias gerações de pequenas empresas. Uma Kombi nova custa R$ 47 mil (ou cerca de 15 mil euros), o que o torna o micro-ônibus mais barato no mercado.As Kombis são onipresentes nas feiras semanais e nos canteiros de obras, e frequentemente servem como quiosques móveis, ambulâncias e até mesmo como carro fúnebre. No Rio de Janeiro, Kombis lotadas sobem e descem os morros das favelas da cidade, e na região amazônica são usadas para transportar os turistas pelas estradas de barro e levar os indígenas de volta para suas aldeias. Quando uma Kombi quebra, qualquer mecânico local com uma chave inglesa sabe como consertá-la.
"A Kombi é uma tecnologia adaptada sobre rodas", diz Cardona. Como milhões de brasileiros, ele deve sua carreira como empresário à Kombi. Vinte anos atrás, Cardona comprou três Kombis usadas de uma cervejaria. Ele vendeu uma com lucro e alugou as outras duas. Hoje, sua empresa tem uma reputação que vai além dos limites de Porto Alegre.
Um cliente recentemente restaurou uma Kombi 1966 para se parecer com a que seu pai tinha. "De dia, ele usava a Kombi para entregar madeira para tacos para assoalho, de noite ele e sua família dormiam nela", diz Cardona.
Uma 'última edição' elegante
Ao longo das décadas, a Volkswagen realizou periodicamente pequenas atualizações no veículo popular. Luzes foram instaladas para substituir a velha seta "bananinha", que ocasionalmente atingia os pedestres no rosto quando saltavam na lateral do veículo. Por alguns poucos anos, a Kombi esteve disponível não apenas com o lendário motor boxer refrigerado a ar, mas também a diesel. Mas o modelo não foi bem projetado e rapidamente saiu de linha.Quando novas regras de emissões entraram em vigor, a VW instalou um motor refrigerado a água. Desde então, uma grade preta de radiador desfigurou a frente clássica. Mas a mudança não afetou sua popularidade. Apenas neste ano, mais de 13 mil Kombis foram fabricadas, a maioria delas montada manualmente. Mas os clientes não têm muita opção. No Brasil, a Kombi só está disponível como veículo com nove assentos ou como van de entrega. E está disponível em apenas uma cor: branca.
Como gesto de despedida, a VW produzirá uma série final do veículo em sua antiga glória. A "Última Edição" comemorativa, que consiste de apenas 600 Kombis, vestirá a "saia e blusa", como os brasileiros chamam a versão de luxo lendária dos anos 60 e 70. O modelo terá até mesmo cortinas nas janelas, e a única concessão à modernidade será um rádio MP3 com porta USB. A VW cobrará R$ 85 mil, ou cerca de 27 mil euros, pela edição de colecionador.
Não há sucessor para a Kombi em vista. A Volkswagen não possui em sua linha um veículo que possa se aproximar da Kombi em termos de espaço e preço. Por esse motivo, qualquer dono de Kombi hoje, diz Cardona, deve prestar atenção, porque os preços dos modelos usados estão em alta.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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