sábado, 7 de setembro de 2013

Casa Branca vê votação sobre Síria como guia para resto do mandato
Peter Baker - NYT                                          
O presidente Obama e seus assessores estão encarando a decisão sobre a ação militar contra a Síria como um potencial ponto de virada, que poderia efetivamente definir sua política externa em seus três últimos anos de mandato.
Enquanto fazia lobby junto aos líderes mundiais em uma reunião de cúpula em São Petersburgo e por telefone junto aos membros do Congresso em Washington, na quinta-feira (05), Obama argumentava que a omissão representaria uma abdicação do chamado papel indispensável desempenhado pelos Estados Unidos desde o fim da guerra fria, e não restaria ninguém para agir na hipótese de inação dos organismos internacionais.
Em privado, Obama e sua equipe veem a votação como um guia para o resto de sua presidência, algo que vai além da questão imediata de lançar mísseis contra alvos militares sírios. Se o Congresso não apoiar uma ação relativamente modesta em resposta a um ataque químico que matou mais de 1.400 pessoas na Síria, o presidente não poderá contar com seu apoio em praticamente nenhuma situação que requeira o uso da força, dizem seus assessores.

Apesar de Obama afirmar que tem a autoridade para ordenar os ataques à Síria mesmo que o Congresso diga não, os assessores da Casa Branca consideram essa possibilidade quase impensável. Em termos práticos, a medida o deixaria mais isolado do que nunca, aparentemente agindo contra a vontade de seu povo. Em termos políticos, quase certamente desencadearia um esforço na Câmara para seu impeachment que, mesmo que não desse em nada, poderia ser uma distração cansativa.
Como resultado, Obama relutaria ainda mais em agir no principal caso de preocupação para os militares: o desenvolvimento de uma bomba nuclear pelo Irã. Uma operação para destruir as instalações nucleares iranianas necessitaria de um compromisso das forças armadas muito mais amplo do que o ataque de mísseis proposto contra a Síria. Além disso, a rejeição do ataque contra a Síria tornaria Obama menos propenso a deixar uma força robusta no Afeganistão quando as tropas de combate forem retiradas no final de 2014.

"Eu acho que esta votação determina o futuro de sua política externa, independentemente de ser sim ou não", disse Rosa Brooks, que foi do alto escalão do Departamento de Defesa de Obama. "Se o voto for sim, deixará Obama em dívida com os republicanos. Se for não e Obama tiver que se curvar para a Síria, ficará permanentemente enfraquecido e, provavelmente, mais introspectivo".
Obama já é relutante em se envolver em guerras, retirou todas as tropas americanas do Iraque, ordenou uma retirada do Afeganistão e recentemente falou sobre reduzir seu uso agressivo de drones no Paquistão e em eventualmente suspender a guerra contra o terrorismo. Alguns críticos argumentam que, ao transferir a decisão da Síria ao Congresso, Obama estava à procura de uma desculpa para não agir e ter alguém para culpar.
Membros da Casa Branca negam essa sugestão e dizem que o que o presidente realmente quer é uma frente unida. Mas para os adversários de um ataque à Síria, um recuo no uso da força, após uma rejeição pelo Congresso, finalmente reverteria o que eles veem como um militarismo excessivo desde 11 de setembro de 2001. Para eles, a restrição da flexibilidade militar que a Casa Branca professa temer seria algo a ser celebrado.
Talvez o duro discurso da Casa Branca reflita uma estratégia para manipular o Congresso: votem contra isso e estarão votando contra proteger Israel do Irã. E mesmo que os funcionários da Casa Branca acreditem nisso hoje, Obama ainda agiria para impedir o desenvolvimento do programa nuclear iraniano ou para tratar de alguma outra circunstância ameaçadora, caso aconteça.
"Obviamente, a derrota seria um duro golpe para a liderança presidencial, mas eu não acho que seria fatal para a decisão de atacar o Irã, porque os riscos são diferentes", disse Gary Samore, ex-assessor de segurança nacional de Obama. "O perigo é que o Irã entenda a oposição do Congresso a um ataque à Síria como um sinal verde para a fabricação de armas nucleares, o que poderia forçar uma ação de Obama".
Nancy Soderberg, que foi representante diplomática na ONU sob o presidente Bill Clinton, disse que um voto negativo tiraria o Congresso da política externa. "Ao invés de amarrar as mãos do presidente pelos próximos três anos, o fracasso da Câmara iria deixá-lo mais dependente de seu círculo íntimo e de poucos líderes mundiais em escolhas difíceis entre a força e a diplomacia", disse ela.
Mas Obama e seus assessores estão tentando costurar sua posição em casa e no exterior. Enquanto argumentam que os riscos são profundos, eles garantem que a intervenção seria modesta. Enquanto Obama argumenta que nada menos do que a credibilidade mundial está em jogo, ele está propondo apenas um "tiro de advertência" para deter o uso de armas químicas, não para acabar com uma guerra civil que já matou 100.000 pessoas. Isso torna esta situação diferente, por exemplo, das circunstâncias que cercaram Kosovo na década de 1990, quando os Estados Unidos lideraram as forças da Otan para impedir o banho de sangue.
Obama apresentou sua posição aos líderes do G-20 reunidos aqui, mas foi recebido com a mesma cautela que encontrou no Congresso. Enquanto França, Turquia e Arábia Saudita apoiam o ataque, a maioria dos outros governantes foram mais cautelosos, e o anfitrião do encontro, o presidente Vladimir V. Putin, foi abertamente hostil.
As autoridades chinesas advertiram que qualquer ataque elevaria ainda mais os preços do petróleo e perturbaria a economia global, enquanto o primeiro-ministro da Itália disse temer uma ampliação do conflito. Do Vaticano, o papa Francisco escreveu uma carta exortando os líderes "a deixarem de lado a busca inútil de uma solução militar".
Obama, que se reuniu separadamente com o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, e a presidente Dilma Rousseff, do Brasil, estava esperando, principalmente, conquistar o apoio para a ideia de responsabilizar a Síria, mesmo que não pelo seu método.
A reunião do G-20 exibiu claramente a relação cada vez mais afastada e tensa entre Obama e Putin. Para protestar contra a decisão da Rússia de conceder asilo temporário para Edward J. Snowden, o ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional que divulgou programas secretos, Obama cancelou, no mês passado, uma reunião separada em Moscou e se recusou até mesmo a conceder uma sessão privada aqui em São Petersburgo.
Quando chegou ao Palácio de Constantino, Obama foi recebido por Putin, e os dois apertaram as mãos e sorriram, em um encontro que parecia formal, não caloroso, e que durou aproximadamente 15 segundos. Eles não se deram tapinhas nas costas ou pegaram nos cotovelos como os líderes costumam fazer e, na sessão de abertura, sentaram-se separados pelos líderes da Austrália e da Indonésia, sem dizerem nada um ao outro enquanto as câmeras estavam presentes.
Mergulhado em reuniões, Obama tentou administrar dois públicos: um na frente dele, representando as maiores potências do mundo; outro em casa, que tem o destino de sua política externa em suas mãos.
"Uma coisa que o Congresso deve considerar", disse Benjamin J. Rhodes, vice-assessor de segurança nacional, "é a mensagem que este debate transmite sobre a liderança dos EUA em todo o mundo -que os EUA há décadas tem desempenhado o papel de guia da arquitetura de segurança global e de fiscal das normas internacionais. E nós não queremos enviar uma mensagem de que os Estados Unidos estão se retirando desse papel de forma alguma".
Tradutor: Deborah Weinberg

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