domingo, 1 de setembro de 2013

Casas japonesas têm nova abordagem arquitetônica
Miki Tanikawa - IHT
Reprodução

Arquitetura típica do Japão
Arquitetura típica do Japão
Os arquitetos agora se sentem livres para misturar detalhes tradicionais com elementos modernos.
A casa empoleirada no alto de um penhasco com vista para a baía de Sagami, a sudoeste de Tóquio, tem muitas das características que definem uma casa tradicional japonesa, como os beirais longos estilo hisashi que formam uma linha reta acentuada ao longo da fachada de frente para o mar e as paredes externas de madeira escura num padrão de treliça --ou koshi.
Mas os proprietários, Takamitsu e Megumi Takebayashi, dizem que não encomendaram uma casa em estilo japonês em 2011. "Eu só disse que gostaria de uma casa integrada à natureza, em que pudéssemos relaxar", afirmou Takebayashi , que recentemente se aposentou como diretor-executivo da Fourteen, uma empresa de equipamentos de golfe fundada por ele.
Eles contrataram Kazuhiko Kishimoto, um arquiteto com sede em Chigasaki, que também fica na baía de Sagami. "Eu já conhecia o trabalho de Kishimoto das revistas", disse Takebayashi. "Então apenas disse a ele que não gostava de tetos altos e que queria uma casa confortável que desse a sensação de estar num casulo."
Como resultado, contou Kishimoto, "o projeto que concebi acabou com uma aparência japonesa para atender a essas exigências".
Não mais preocupados em atender todas as regras rígidas que antes definiam a arquitetura japonesa, os arquitetos do Japão hoje se sentem livres para infundir as casas de elementos tradicionais quando eles se encaixam no senso de estética e conforto dos clientes.
Essa abordagem pragmática também é ilustrada pela casa que Kiyotoshi Mori e Natsuko Kawakami projetaram em Yatsugatake, uma área montanhosa no centro da ilha de Honshu, a maior do Japão. O exterior da casa, concluído na primavera de 2012, oferece poucos indícios de que dentro existem dezenas de divisórias shoji, feitas de papel translúcido sobre armações leves de madeira.
"As divisórias Shoji permitem uma entrada difusa de luz, mas oferecem aos moradores um escudo de privacidade", disse Mori. "À medida que os estilos de vida japoneses se modernizam, as divisórias shoji vêm desaparecendo, mas elas oferecem altos níveis de isolamento também."
Durante mais de um século de vida em casas modernas, os japoneses passaram do uso da luz natural para uma forte dependência de iluminação elétrica. Eles agora também fecham rápido as janelas quando chove, ampliando a divisão outrora tênue entre interior e exterior das casas tradicionais, dizem os especialistas.
Mas, para um número cada vez maior de prósperos integrantes da geração baby boom com uma sensibilidade aguçada, entre eles Takebayashi, a quantidade de luzes artificiais na maioria das casas modernas do Japão é problemática. "Eu gosto de ver a luz externa a partir do interior, onde não há muita luz", diz ele. "Acho isso muito mais relaxante."
Takebayashi disse que nunca gostou do apartamento em que ele e sua esposa viviam em Toranomon, uma área do centro de Tóquio, "que era brilhante e limpo por dentro". E completa: "percebi depois de mudar para cá como eu não ficava de fato relaxado por ficar exposto a tanta luz elétrica".
Na casa de Akiya, portas de correr permitem que a maior parte da face oceânica fique aberta. Mas o beiral do telhado, que têm uma profundidade de 1,8 metro, sombreia a estreita passarela de madeira do lado de fora, uma área chamada de engawa na arquitetura japonesa. "Os beirais criam uma sombra e uma espécie de tela leve na área da engawa", diz Kishimoto.
A arquitetura "deveria permitir que alguma informação de dentro fluísse para fora", disse ele, acrescentando que há muitas casas fechadas no Japão, que não oferecem nenhum indício de que há alguém vivendo lá dentro.
Assim, para os Takebayashi, Kishimoto desenhou as paredes do piso térreo de frente para a rua e dos dois lados para serem feitas de tiras verticais de madeira cobertas com um material acrílico semitranslúcido que se assemelha ao papel tradicional japonês chamado washi. Como resultado, os passantes podem ver sombras quando os moradores se movimentam dentro da casa, mas somente a quantidade de visibilidade que Kishimoto esperava alcançar.
Takebayashi afirma: "Eu gosto que a nossa presença possa ser sentida a partir do exterior, mas apenas de forma ambígua". Fora esses detalhes estruturais, o uso de materiais naturais e a decoração interna sem muitos elementos são calmantes para os olhos japoneses.
"Eu sinto que, quando os arquitetos e seus clientes são japoneses, compartilham de um senso de beleza estética japonesa", disse Mori. Mas a fome japonesa por tradição muitas vezes só vai até aí.
Dentro da casa dos Takebayashi, por exemplo, a área da cozinha preenche um lado da sala de jantar, com uma ilha independente que inclui a pia e um fogão cooktop. Em casas japonesas mais antigas, e até em algumas razoavelmente novas, a cozinha fica bem no fundo da casa, para que o cozinhar seja feito nos bastidores.
E na casa que Mori e sua parceira construíram em Yatsugatake, as telas shoji não fazem parte do exterior da construção; elas ficam do lado de dentro de uma gigante janela de vidro que fornece isolamento durante o inverno. Os Takebayashi dizem que apreciam as características modernas de sua casa. "Eu gosto de cozinhar enquanto converso com convidados e amigos na mesa de jantar", disse Takebayashi, observando que a vista do mar às vezes oferece atrações como um cardume de peixes turvando a água ou um submarino emergindo. "O tempo que eu passo aqui é o mais agradável."
A casa foi construída em níveis, com a sala de estar e jantar conjugada com a cozinha ao nível da rua, com uma grande varanda. Os outros andares se derramam pela encosta da montanha. Um deles tem um quarto, um banheiro com vista para o mar e outra sala de estar com sofás. Mais abaixo fica o "andar do hobby" de Takebayashi, onde ele guarda seu equipamento de pesca artesanal e varas, enquanto o andar mais abaixo se abre para o jardim.
Tradutor: Eloise De Vylder

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