domingo, 1 de setembro de 2013

Talentos do beisebol continuam deixando Cuba, com ou sem permissão
Ben Strauss - NYT
Lalo de Almeida /Folha Imagem
Beisebol foi responsável por um dos 59 ouros de Cuba no Pan de 2007, no Rio de Janeiro
Beisebol foi responsável por um dos 59 ouros de Cuba no Pan de 2007, no Rio de Janeiro
De costa a costa neste verão, a temporada de beisebol da liga principal teve uma forte influência cubana.
Em Los Angeles, o estreante Yasiel Puig ajudou a impulsionar o Dodgers à sua incrível reviravolta no meio da temporada. Yoenis Cespedes do Oakland venceu o Home Run Derby com um desempenho vertiginoso no Citi Field. E José Fernandez do Miami Marlins emergiu como um dos melhores jovens arremessadores na ativa.
Agora, o forte primeiro baseman José Abreu também teria deixado Cuba, e pode em breve estar disponível para as equipes da liga principal, sendo o jogador mais recente num fluxo contínuo de talentos que estão indo para os Estados Unidos.
Desde a revolução cubana liderada por Fidel Castro, que terminou em 1959, os jogadores são obrigados a desertar para jogar nas ligas norte-americanas, e os que fazem isso são impedidos de voltar a Cuba. Para uma nação insular de 11 milhões de habitantes, cada jogador perdido é um duro golpe para o pequeno grupo de talentos da liga nacional, conhecida como Série Nacional, e para a seleção nacional, o orgulho do esporte cubano.
Com cada vez mais jogadores deixando o país, o governo cubano fez um experimento neste verão, permitindo que um jogador – Alfredo Despaigne, um outfielder de 27 anos considerado por muitos como o melhor rebatedor de Cuba – competisse na liga mexicana.
Em Cuba, os atletas são amadores, e acredita-se que, desde que Castro assumiu, Despaigne seja o primeiro astro cubano a ter permissão para jogar no exterior e ganhar um salário no auge de sua carreira. É um esforço para levantar a enfraquecida Série Nacional – que alimenta a seleção nacional – e ajudar a conter a onda de deserções, flexibilizando as restrições sobre os jogadores.
"Isso é muito importante para nós", disse o veterano repórter de beisebol Sigfredo Barros por telefone, de Havana. "Nossos jogadores não são como os dominicanos, que saem e voltam para casa. A tentação de sair é muito, muito grande."
Resta ver se esta estratégia pode ser eficaz. O valor dos contratos assinados pelos jogadores que desertam Cuba, que são atletas que podem assinar com qualquer time (ou free agents) e podem contornar as regras de admissão da Liga Principal de Beisebol, é surpreendente para atletas que vêm de um país onde a maioria vive com cerca de US$ 20 por mês.
Puig assinou um contrato de sete anos e US$ 42 milhões. Cespedes tem um contrato de quatro anos e US$ 36 milhões. O Cincinnati assinou com Aroldis Chapman por seis anos e US$ 30,25 milhões, e Jorge Soler, um outfielder de 21 anos, está no sistema do Chicago Cubs com um contrato no valor de US$ 30 milhões ao longo de nove anos. Uma vez que Abreu cumprir os requisitos necessários para a imigração, ele poderá receber mais de US$ 50 milhões no mercado aberto. (Fernandez deixou Cuba quando tinha 15 anos e estava, portanto, sujeito às regras da liga).
Outros fatores que levaram ao aumento de deserções, incluindo as dificuldades econômicas em Cuba e a flexibilização nas regras para viajar. A visibilidade do sucesso dos cubanos nas ligas principais tem sido ajudada pela melhoria do acesso à Internet em Cuba. Jogadores cubanos sabem que podem prosperar nas ligas. O shortstop do Chicago White Sox Alexei Ramirez, que deixou Cuba em 2007, disse: "quando comecei a jogar, eu não sabia de nada a não ser de Cuba".
Dayan Viciedo, um outfielder que assinou com o White Sox depois de desertar em 2008, disse que ficou surpreso quando soube da oportunidade de Despaigne e espera que isso sinalize uma mudança na política do governo.
"Se eles podem jogar no México ou na República Dominicana e na Venezuela e ganhar algum dinheiro, isso poderia fazer a diferença na decisão de vir para cá", disse através de um intérprete.
Despaigne ficará com 80% de seu salário, e o restante irá para o Instituto Nacional de Esporte de Cuba. Acordos como esse, teme Viciedo, podem comprometer qualquer progresso. "Se os jogadores recebem seu valor total, é um negócio melhor", disse ele.
Ramirez disse que o dinheiro é apenas uma parte da equação. "A melhor liga e os melhores jogadores estão aqui, não no México", disse ele. "Bons jogadores sempre vão querer jogar contra os melhores."
No México, neste verão, Despaigne participou de 33 jogos para o Piratas de Campeche e bateu bem, fazendo uma média de 0,338 com oito home runs. Ele não é o primeiro cubano que teve permissão para jogar profissionalmente em outros lugares desde que Castro assumiu o poder, mas, no passado, o privilégio era uma recompensa depois de uma carreira de sucesso na seleção nacional, disse Peter Bjarkman, do site BaseballdeCuba.com.
Pedro Lazo, o líder de carreira em vitórias na Série Nacional, jogou para o Campeche na última temporada, e Orestes Kindelan, Antonio Pacheco e Omar Linares já jogaram no Japão. Despaigne foi acompanhado no Campeche por Michel Enriquez, um veterano infielder, e pelo outfielder Yordanis Samon. Ambos foram liberados logo depois de chegar por causa de lesões e desempenho fraco.
Quando Despaigne partiu para o México, havia uma preocupação em Cuba de que ele pudesse não voltar, disse Barros, jornalista cubano de beisebol. Os medos eram infundados, embora Despaigne tenha dito que foi abordado sobre desertar. Ainda assim, como prova de que a nova política certamente não será um remédio para todos os males, dois membros da equipe nacional – além de Abreu – desertaram neste verão: os pitchers Odrisamer Despaigne e Misael Siverio.
Barros gostaria de ver mais jogadores retornar para o México no próximo verão e, finalmente, jogar livremente nos Estados Unidos, disse ele, porque seria um benefício para os jogadores e para a economia cubana. Para que isso aconteça, Cuba teria de permitir que os jogadores viajassem, e os Estados Unidos, por sua vez, teria de aliviar o embargo e as restrições a levar dinheiro de volta a Cuba.
"Isso seria melhor do que o México", disse Barros. "Seria melhor se os nossos jogadores pudessem jogar nos Estados Unidos e trazer o dinheiro para casa. Isso ajudaria muito a todos."

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