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Merkel: após tantas mudanças, o risco é o voto tático
O aquário de Ozeaneum, no porto de Stralsund no Mar Báltico, é uma estrutura futurista. Ele se vangloria de ter a chanceler alemã, Angela Merkel, como uma espécie de madrinha. O afilhado da chanceler, um pinguim fêmea chamado Alexandra, está esperando outra visita de Merkel em 21 de setembro.Naquela tarde de sábado, um dia antes das eleições gerais na Alemanha, a chanceler vai fazer um discurso diante do Ozeaneum. Nesta altura, seu partido, a União Democrata Cristã (UDC) de centro-direita, terá terminado sua campanha com um comício final, agendado para aquela manhã na sala de concertos Tempodrom, em Berlim. Após o comício, será hora dos eleitores votarem.
A chanceler, entretanto, tem bons motivos para fazer mais uma aparição. Para ela, os dias e as horas antes das eleições tornaram-se um risco incalculável. Um terço de todos os eleitores, quase o dobro do que na eleição de 2002, estarão decidindo em que partido votar. Na pior das hipóteses, a indecisão pode custar à chanceler a maioria que necessita para formar sua coalizão de preferência com o Partido Democrático Livre (PDL).
Todos os partidos alemães estão observando isso. Eles vão gastar mais dinheiro na última semana da campanha do que em qualquer outra semana, com a maioria dos anúncios caros de televisão indo ao ar nos últimos sete dias.
O número de eleitores indecisos marca uma mudança fundamental no comportamento do eleitor na Alemanha. Durante décadas, eles eram tão leais ao seus partidos políticos quanto ao seus times de futebol, suas igrejas ou sindicatos. Na antiga Alemanha, os partidos sabiam que podiam contar com seus principais eleitores e só tinham que se preocupar com alguns eleitores indecisos nos últimos dias de campanha.
Particularmente agravante
Agora os eleitores alemães se emanciparam e são tão imprevisíveis quanto o clima em abril. Até recentemente, muitos alemães não estavam nem mesmo cientes de que haveria uma eleição parlamentar no outono. Agora, as campanhas estão lentamente ganhando força, mas ainda assim os eleitores se recusam a ser pressionados. Alguns não querem sequer decidir em quem votar até estarem no caminho para o local de votação.Isto é particularmente agravante para a chanceler. Atualmente, seu adversário, o social-democrata Peer Steinbrück, pode parecer sem sorte e muito atrás nas pesquisas, mas há uma boa notícia para ele: os eleitores indecisos são aqueles que ainda podem ser convencidos. Na verdade, o SPD está se concentrando fortemente nos últimos três dias, com uma campanha de porta em porta até o dia da eleição. O SPD se lembra muito bem de 2005, quando Gerhard Schröder quase conseguiu derrotar Merkel, apesar do que parecia ser uma diferença insuperável nas pesquisas imediatamente anteriores à votação.
Por outro lado, os números de Merkel são tão altos que a única direção possível para ela parece ser para baixo.
A situação, contudo, é delicada. Pela primeira vez na história da Alemanha do pós-guerra, a Baviera realizará suas eleições estaduais uma semana antes das eleições nacionais. Merkel está preocupada que o PDL não consiga vencer os 5% necessários para entrar no parlamento estadual. Isso, por sua vez, poderia motivar os eleitores conservadores a votarem no PDL por razões táticas, para garantir que o partido consiga superar a barreira dos 5% na eleição nacional. As pesquisas indicam que a noite de contagem dos votos será de muita ansiedade para o PDL, pois o partido tem pairado em torno da marca dos 5% há meses.
Desastre
Existe um precedente recente. Em janeiro, o PDL estava tão fraco antes das eleições da Baixa Saxônia que muitos eleitores da UDCdecidiram mudar seu voto na última hora. O resultado foi uma votação surpreendente de 10% para o PDL e um total muito menor do que o esperado para o UDC-e a derrota da coligação dos sociais-democratas com o Partido Verde.Na Baviera, o PDL atualmente está com cerca de 4% das intenções de voto. Será um desastre, tanto para o PDL quanto para a União Social Cristã -partido da Baviera associado aos democratas-cristãos de Merkel- se os liberais não melhorarem esse número até o dia da eleição. "Se o PDL perder seus assentos no parlamento estadual da Baviera, é possível que haja uma campanha excessiva de resgate a nível nacional", dizem altos membros do UDC. O veterano do UDC, Wolfgang Bosbach, acrescenta que, se for este o cenário, "os resultados do PDL serão de dois dígitos".
A posição de Merkel é dificultada pelo complicado sistema eleitoral da Alemanha, no qual cada eleitor de fato tem dois votos -uma circunstância que pode levar muitos a dividirem seu par de votos entre o UDC e o PDL. Merkel está determinada a impedir que isso aconteça. Ao contrário de 2005 e 2009, a propaganda do UDC que irá ao ar na televisão, principalmente na última semana da campanha, não terminará com uma mensagem nebulosa, mas com uma declaração clara: "Ambos os votos para o UDC". Nos últimos dias da campanha, as organizações estaduais do partido vão colocar um adesivo em seus cartazes dizendo: "O seu segundo voto é um voto para Merkel".
Será que vai fazer diferença? O problema de Merkel é que ela mudou de ideia em muitas das questões centrais do UDC nos últimos anos. Ela eliminou o serviço militar obrigatório e descartou o apoio do seu partido para a energia nuclear e, agora, o partido ainda favorece cotas de gênero. Quando o conteúdo tem tão pouco significado, a fidelidade partidária também começa a desaparecer. Por que um eleitor de classe média não faria um voto tático no PDL?
O UDC espera que os resultados da pesquisa evitem tal cenário. Pela primeira vez na história da Alemanha do pós-guerra, uma pesquisa será divulgada na quinta-feira anterior às eleições. A pesquisa, a ser realizada pela rede de televisão ZDF, deve refletir os efeitos da eleição na Baviera: Se o PDL conseguir capturar 6 ou 7% na Baviera, os eleitores ficarão menos preocupados com a possibilidade do partido não conquistar o mínimo de 5% nas eleições nacionais.
Ainda assim, Wolfgang Bosbach, talvez o mais diligente de todos os candidatos, não quer correr riscos. O parlamentar da cidade de Bergisch-Gladbach, no Oeste, vem fazendo campanhas no Bundestag desde 1972 e sabe que seus partidários valorizam um serviço muito prático no domingo de eleição. Ele vai se levantar no meio da noite para caminhar pelas ruas de seu bairro e oferecer pequenos sacos de papel para os eleitores. Os sacos estarão cheios de pãezinhos frescos.
Traduzido do alemão por Christopher Sultan e do inglês por Deborah Weinberg
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