Enrique García Medina//Efe

COI, do presidente Jacqes Rogge (foto), anuncia neste sábado o país-sede dos Jogos de 2020. Madri, Istambul e Tóquio concorrem ao posto
Há quase 20 anos Madri sonha com Jogos Olímpicos que a transformem em uma grande capital europeia. Desde 1997, quando iniciou abertamente essa corrida, depois que Sevilha foi descartada na disputa para sediar o evento em 2004, Madri teve tempo para ser derrotada em duas ocasiões e tentá-lo uma terceira, chegando à votação final como favorita. Mas também teve tempo para se transformar por sua conta na grande capital europeia que sonhava ser. Madri não precisa mais dos Jogos Olímpicos para ser maior, embora continue a desejá-los. E se os conseguir não representarão mudanças de envergadura na cidade.Barcelona 92 precisou de um investimento de 5,56 bilhões de euros (no momento da escolha, em 1986, o Produto Interno Bruto espanhol somava um quarto do atual), mas só 9% desse dinheiro (501 milhões) foram dedicados a construir instalações esportivas. O grosso foi investido em melhoras urbanísticas e de transportes (terminais aeroportuários, torres de comunicação, dois anéis viários...).
Ao longo da última década, com Alberto Ruiz-Gallardón (PP) como prefeito (2003-2011), Madri investiu 9,8 bilhões em infraestruturas (ainda deve 80% desse dinheiro aos bancos). O soterramento da M-30 sob o parque Madrid Río custou 4,5 bilhões; foram gastos 1,15 bilhão em projetos de reabilitação urbanística distribuídos por toda a cidade e outros 516 milhões em estradas, túneis, estacionamentos, etc. A estes somam-se os investimentos em meio ambiente (536 milhões em parques, gestão de resíduos, etc.), centros culturais, educacionais, sociais e esportivos básicos. Essas são as obras de que se gaba a candidatura quando insiste que 80% do investimento necessário para os jogos já foram realizados.
A prefeita Ana Botella (PP) considera que esses investimentos "eram coincidentes com fazer uma cidade que pudesse ser sede olímpica". Não foram realizados com esse objetivo, mas agora podem inclinar a balança a favor de Madri, que, em uma época na qual a austeridade é um valor inclusive para o Comitê Olímpico Internacional, apresentou a candidatura mais barata.
Segundo suas contas, precisa de 1,5 bilhão de dinheiro público para preparar a cidade (os jogos custarão mais 2,4 bilhões, mas essas receitas estão garantidas por direitos televisivos, patrocínios e venda de ingressos). Tóquio, pelo contrário, precisa de 3,3 bilhões, a maioria para sedes esportivas (embora tenha a vantagem de possuir 3,4 bilhões reservados em espécie para gastar no momento em que for escolhida). Istambul precisaria de 12,7 bilhões (a metade para estradas e ferrovias). A cidade turca reproduz o sonho primitivo de Madri: precisa dos jogos para se renovar completamente e colocar-se no mapa. A capital espanhola, não mais.
As verbas estão garantidas em partes iguais pelas três administrações: cada uma deveria contribuir com 75 milhões por ano até os Jogos, uma quantia que a prefeitura defende como admissível, apesar das penúrias econômicas que atravessa exatamente para pagar o alto investimento em infraestruturas durante o mandato de Gallardón.
Como ocorre a Tóquio, o grosso do investimento pendente seria destinado às sedes esportivas porque, do ponto de vista urbanístico, a cidade já está madura. Isso reduz o dinheiro necessário, mas também torna mais difícil justificar o gasto diante dos cidadãos. Mesmo assim, só um em cada dez espanhóis é contra os Jogos, segundo a última pesquisa da candidatura, de um ano atrás; a maioria dos detratores acredita que não é uma prioridade em tempos de crise.
Entretanto, é exatamente a crise o principal ativo da candidatura: é barata quando ninguém tem ou quer gastar demais, mas, sobretudo, é divulgada como o impulso anímico de que a cidade e o país precisam para superar a recessão. Madri não precisa dos Jogos para amadurecer porque já é uma grande capital europeia. Precisa deles para, afinal, acreditar que realmente o é. E para que todo o mundo o veja.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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