sábado, 7 de setembro de 2013

Sem ONG, Irmandade Muçulmana fica por um fio
Governo diz que vai fechar organização que representa o movimento islamista
Duas pessoas morreram durante as manifestações contra atual governo
O Globo

Braço político da Irmandade Muçulmana, Khalid Hanafy (centro), com membros da coalizão islâmica, no Cairo
Foto: GIANLUIGI GUERCIA / AFP
Braço político da Irmandade Muçulmana, Khalid Hanafy (centro), com membros da coalizão islâmica, no Cairo - GIANLUIGI GUERCIA / AFP
CAIRO - O governo interino do Egito anunciou que vai fechar a ONG que representa a Irmandade Muçulmana no país, numa nova fase da ofensiva para desmantelar o grupo do presidente deposto em 3 de julho, Mohamed Mursi. Sem a ONG, a Irmandade perde parte de sua figura jurídica e fica debilitada para se defender judicialmente. O anúncio é mais um episódio no avanço da polarização política no país e ocorre um dia após a tentativa de assassinato por carro bomba do ministro do interior Mohamed Ibrahim. Nesta sexta-feira, novos protestos levaram milhares de pessoas às ruas em vários pontos. Os confrontos deixaram dois mortos.
- Eles foram notificados três vezes e nenhum deles apareceu. Então, de acordo com a lei, o ministro da Solidariedade pode dissolver a ONG - disse o porta-voz do Ministério de Solidariedade, Hany Mahana, sobre o processo formal de suspensão da ONG, sem especificar quando a medida será oficialmente executada.
Desde que foram expulsos do poder por uma ampla aliança civil apoiada pelos militares, os membros da Irmandade foram perseguidos, presos e mortos pelas forças de segurança do Estado egípcio.
Embora esteja perto da extinção de sua representação jurídica, o grupo ainda possui um braço político, o Partido da Liberdade e Justiça -que até agora não sofreu tentativas de fechamento. A Irmandade, oficialmente dissolvida em 1954, era tolerada nos anos que antecederam sua chegada ao poder, em 2012, após a Primavera Árabe. A nova ofensiva contra a Irmandade coloca, para analistas, um risco ao pacto político necessário para a realização de novas eleições.
Fortalecimento de discursos radicais
Além do atentato contra ministro do interior, a semana também foi marcada pelo fortalecimento de discursos sectários e radicais. Um grupo militante, supostamente da Brigada Furqan, postou um vídeo afirmando ter atingido uma embarcação no Canal de Suez, o que o governo afirma ter evitado.
A brigada já havia advertido à Irmandade Muçulmana que “democracia e eleições” não eram o caminho e que o Islã só seria estabelecido com a “luta contra os infiéis, os renegados e seus aliados”.
O país, um dos berços do cristianismo, assiste também a um processo de vingança de grupos radicais que culpam os cristãos pela queda de Mursi. Na cidade de Dalga, ocupada pelos islamistas desde julho, cristãos reclamam de perseguição religiosa, que inclui a quebra de santos e a queima de igrejas.
A Irmandade foi fundada em 1928, mas formalmente dissolvida pelos governantes militares do Egito em 1954. Adversários do grupo argumentaram que a Irmandade manteve um movimento ilegal, mesmo depois da queda de Hosni Mubarak. Em resposta, a Irmandade decidiu reforçar sua posição legal se registrando formalmente como uma ONG.

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