quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O passado manda na igreja do futuro
Lucia Magi - El Pais
Cinco meses depois do início de seu pontificado, Francisco destituiu o todo-poderoso Tarcisio Bertone, 78 anos, salpicado pelo escândalo dos vazamentos dos documentos do Vaticano (o chamado Vatileaks) e nomeou novo secretário de Estado o núncio apostólico em Caracas, arcebispo Pietro Parolin. Com esse gesto, o papa argentino volta à velha escola diplomática do Vaticano para organizar à sua imagem e semelhança a frente interna: a Cúria Romana.
O novo secretário de Estado, um autêntico vice-papa (substitui o pontífice se este adoecer, por exemplo), terá controle sobre a diplomacia e as finanças do Vaticano. Em declarações à Rádio Vaticano, Parolin disse que sua nomeação foi "uma surpresa de Deus" e expressou sua "renovada vontade e total disponibilidade" para colaborar com o papa pelo bem da igreja e "o progresso e a paz da humanidade". Para assuntos chaves como a corrupção e a pedofilia, contará com o novo código aprovado recentemente.
O novo número 2 da igreja nasceu no norte da Itália, perto de Veneza, em 17 de janeiro de 1955. Ordenado sacerdote em 1980, seis anos depois entrou para o serviço diplomático vaticano. Em novembro de 2002 foi nomeado vice-secretário do Departamento de Relações Exteriores da Secretaria de Estado, sob as ordens de Angelo Sodano. Sua "linha de 'real politik', concreta e sempre disposta a mediar, aberta ao diálogo" - segundo a descrição feita por Lucio Brunelli, vaticanista veterano da rádio RAI 2 -, contribuiu para administrar as delicadas relações com a China e o Vietnã.
Há quatro anos foi enviado a Caracas. "Era uma pessoa de muito apreço entre os embaixadores na Santa Sé", afirma Ignazio Ingrao, analista do semanário "Panorama". "Lembro muito bem de sua decepção quando souberam que devia deixar Roma."
Antes de abandonar o Tibre, Ratzinger o elevou a arcebispo. Mas muitos leram essa promoção como um afastamento. Foi Bertone quem insistiu em destituir Parolin. Queria - e conseguiu - substituí-lo por Ettore Balestero, que pouco antes do conclave foi enviado por Bento 16 como núncio a Bogotá.
As lutas entre lados de interesses contrapostos eram muito agudas naquele momento, tanto que justamente na missa em que nomeou Parolin bispo o papa disse: "O sacerdócio não é um domínio, mas um serviço". É o mesmo conceito que Francisco repete com frequência.
"Entretanto", salienta Rachel Donadio, correspondente no Vaticano do "New York Times", "Ratzinger era um teólogo sutil, concentrado em detalhar as questões doutrinárias, mais que em segurar com força as rédeas do governo interno." Os tempos mudaram. E Parolin volta aos palácios sagrados como vice-chefe de tudo aquilo. Termina a era Bertone, que os documentos do Vatileaks pintaram como o protagonista de um lobby de poder.
O novo primeiro-ministro entrará em seu escritório em 15 de outubro. Resta tempo para que Parolin encerre os assuntos pendentes em Caracas e organize sua mudança para Roma. Resta tempo para que Bertone leve a cabo seu último encargo: presidir a peregrinação internacional a Fátima, em Portugal, em 12 e 13 de outubro.
Mas, sobretudo, esta margem de 45 dias permite que o papa comente em pessoa sua decisão ao Conselho da Coroa, os sábios nomeados para reformar a Cúria. Os oito cardeais deverão fazer sua entrada simbólica na Santa Sé no início do próximo mês. São 11 dias marcados em vermelho no calendário vaticano. Dias em que começará a revolução de Francisco.
"Desde as primeiras semanas depois do conclave", escreve Paolo Rodari, vaticanista do jornal "La Repubblica", "sabia-se que Francisco substituiria Bertone por um diplomata. O nome mais cogitado era o de Giuseppe Bertello, chefe da governança do Estado da Cidade do Vaticano. Sobre Parolin, também provável nas apostas, pesava a idade: com 58 anos, seria o mais jovem recrutado para esse cargo desde a época de Eugenio Pacelli."
Bertello tinha a vantagem de ser uma figura de mediação com o partido romano que prosperou nos últimos anos de João Paulo 2º e sob o mandato de Ratzinger. É considerado próximo de Bertone, mas ao mesmo tempo goza de muita autonomia. "Francisco quis dar um passo de descontinuidade mais radical", conclui Rodari.
"A ruptura é evidente", comenta Donadio. "A época em que só se olhava para dentro dos limites nacionais terminou." A nova estratégia responde ao que pediu a maioria dos cardeais nas congregações anteriores ao conclave de março, preocupados com os escândalos e a lentidão de uma Cúria superpovoada, dominada por um secretário de Estado que atuava como primeiro-ministro. Foi esse partido que ganhou as eleições secretas na Capela Sistina e conseguiu pôr no trono de Pedro o homem "que vem quase do fim do mundo". Um embaixador no centro do catolicismo é garantia de abertura.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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