Brasil e Argentina, luz e sombra
O Estado de S.Paulo
Brasil e Argentina são tão diferentes quanto o dia e a
noite e os mercados conhecem as diferenças, disse em Davos o professor e
ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) Kenneth
Rogoff. A comparação torna-se inevitável quando a segunda maior economia
da América do Sul e principal parceira do Brasil na região entra de
novo em turbulência. Com inflação próxima de 30%, reservas cambiais
perigosamente baixas, indústria estagnada, problemas até de
abastecimento e - mais importante - governo sem a mínima credibilidade, a
Argentina é candidata natural ao desastre quando surge qualquer
inquietação mais ou menos séria no mercado. Os vizinhos e parceiros mais
próximos estarão em condições igualmente ruins?
Apesar da opinião de Rogoff, a indagação parece natural, quando se
fala em risco de rebaixamento da nota de crédito soberano do Brasil,
principal parceiro comercial da Argentina e notório - pela ação do
governo - aliado ideológico. A presidente Dilma Rousseff e sua equipe
têm procurado mostrar afinidade com os governos argentino e venezuelano e
pouco interesse em maior aproximação com países mais estáveis, mais
prósperos e mais abertos, como Chile, Peru e Colômbia. Se houver uma
aproximação perigosa das imagens do Brasil e da Argentina, os
responsáveis serão encontrados no Palácio do Planalto.
Rogoff tem razão, no entanto, quanto a várias importantes diferenças.
Com reservas de US$ 375,54 bilhões, dado oficial de quinta-feira, o
País tem como resistir por bom tempo a especulações de mercado. A
inflação, próxima de 6%, é muito alta pelos padrões internacionais, mas
muito menor que a argentina, próxima de 30%. A dívida pública, embora
muito mais alta que a de outros emergentes, é financiada sem
dificuldades especiais, porque o acesso aos mercados é amplo - o oposto
da situação argentina.
Além disso, o sistema público de estatísticas continua funcionando
tecnicamente, sem distorções impostas pelo Executivo. A imprensa
consegue exercer as funções de vigilância e informação. As tentativas de
maquiar resultados fiscais e administrar índices de inflação por meio
do controle de preços têm sido denunciadas com rapidez. As estatísticas
oficiais brasileiras são recebidas com respeito pelos mercados e pelas
instituições internacionais, ao contrário das argentinas.
Os dois países são, de fato, diferentes como o dia e a noite, quando
se consideram esses detalhes. Se o mercado conhecer essas distinções, o
Brasil será menos atingido, no caso de turbulências motivadas pela
redução dos estímulos monetários americanos, pela perda de impulso dos
emergentes ou pela combinação desses fatores. Os investidores, disse em
Davos a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, saberão distinguir
os fundamentos econômicos e as qualidades da política de cada país.
Somada ao comentário de Rogoff, a afirmação parece tranquilizante. A
presidente Dilma Rousseff procurou reforçar a percepção positiva ao
afirmar, no Fórum Econômico Mundial, um compromisso contra a inflação e a
favor da melhora das condições fiscais do País.
Mas o compromisso com os bons fundamentos já havia sido afirmado
muitas vezes. Apesar disso, a inflação continua longe de 4,5% e a
presidente parece contentar-se com números bem mais altos, embora dentro
da margem de tolerância (até 6,5%). Além disso, o Executivo tem
administrado os índices pelo controle de preços. Ninguém desconhece esse
fato. Do lado fiscal, o uso de receitas atípicas e de manobras
contábeis tornou-se quase rotineiro. Tudo isso diminui perigosamente o
contraste entre o dia e a noite.
Em Davos, dificilmente alguém criticaria de forma aberta a fala da
presidente. Mas o governo ganharia credibilidade se o discurso fosse
mais claro quanto a objetivos, problemas e linhas de ação. Um bom
exemplo foi o do vice-presidente da Comissão de Planejamento da Índia, o
respeitado economista Montek Singh Ahluwalia: o menor dinamismo de seu
país se deve em parte a fatores externos, mas dois terços dos problemas
são internos e o governo os reconhece. Essa conversa todos aceitam mais
facilmente.
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