sábado, 18 de agosto de 2012

A UM PASSO DO ABISMO

Fracasso da Europa em resolver crise pode provocar caos econômico mundial
Hal S. Scott (*) - Herald Tribune
A crise da zona do euro tem paralelos notáveis com nossa experiência em duas guerras mundiais, quando os Estados Unidos calcularam equivocadamente que a Europa poderia resolver seus próprios problemas de política externa e que os americanos estavam imunes às consequências do fracasso da Europa em fazê-lo.
O fracasso da Europa lançou duas vezes o mundo em guerra. No mundo econômico globalizado de hoje, o fracasso da Europa em resolver sua crise financeira pode lançar o mundo ao caos econômico. Esta é uma crise global – não uma crise da zona do euro – e devemos adotar uma ação internacional para lidar com ela.
Um paralelo fundamental com as duas guerras mundiais é a tensão entre a Alemanha e os outros países europeus. Apesar de integrada com sucesso à Europa, a Alemanha continua sendo a força econômica mais poderosa do continente, com taxas mais altas de produtividade e crescimento econômico e inflação mais baixa do que os outros principais países europeus, incluindo França, Itália, Espanha e Reino Unido. Nos períodos que antecederam as guerras mundiais, os vizinhos da Alemanha temiam com razão e se ressentiam profundamente do poderio militar alemão. Hoje, eles temem o poder econômico alemão, mesmo enquanto apelam pela ajuda alemã.
Há um limite até onde a Alemanha pode resgatar a Europa. O custo da recapitalização dos bancos europeus (apesar dos testes de estresse exageradamente otimistas), incluindo os alemães, é estimado em 420 bilhões de euros em um cenário adverso, apenas para os empréstimos inadimplentes. O custo da redução – sem contar o de uma baixa contábil – de dívida soberana seria muito maior. Em novembro passado, 20 dos maiores bancos da União Europeia contavam com US$ 4,2 trilhões em títulos de dívida soberana, cerca de sete vezes a quantia de seu valor de US$ 620 bilhões.
A quantia do apoio potencial ao orçamento para os países com dívida insustentável também é substancial, até 1,4 trilhão de euros para 2012 e 2013, excluindo qualquer apoio à Grécia. Isso não conta as perdas do Banco Central Europeu com suas operações para reduzir os juros sobre a emissão de novos títulos de dívida soberana.
Resgatar a Europa está além da capacidade prática da Alemanha, cujo PIB é de aproximadamente 2,6 trilhões de euros, um nível que está longe de certo diante do colapso da Europa à sua volta.
Igualmente importante, a Alemanha enfrenta restrições políticas severas para resgatar a Europa. O governo alemão é afortunado pelo partido de oposição pró-europeu, o Partido Social Democrata, não ter atacado seu apoio econômico à Europa. Mas a chanceler Angela Merkel enfrenta divisões profundas dentro de seu próprio partido, alimentadas pelo constante rufar de tambores negativo do Bundesbank. Se a Alemanha fizer demais pela Europa, isso poderia levar à queda de Merkel. Se a Alemanha fizer pouco, isso poderia causar um profundo ressentimento entre aqueles que ela se recusasse a ajudar.
O fardo de reparação grande demais imposto à Alemanha depois da Primeira Guerra Mundial contribuiu para a ascensão dos nazistas; em comparação, após a Segunda Guerra Mundial, nós usamos a abordagem internacional do Plano Marshall para reconstruir a Europa. Em vez de impor outro fardo impossível sobre a Alemanha, nós devemos novamente adotar uma ação internacional.
Várias soluções para os problemas da Europa que não dependem totalmente da Alemanha estão sendo consideradas na Europa, enquanto o restante do mundo dá conselhos de fora, mas essas soluções propostas são insuficientes e incertas. A dívida pode ser reestruturada, assim como com a Grécia, mas isso torna a futura tomada de empréstimos mais cara, impacta de modo negativo o capital dos bancos e apresenta risco de contágio. Além disso, não trata da causa raiz da crise – as economias não competitivas e com excesso de gastos. Os bancos podem levantar capital adicional, mas não o suficiente. Medidas de austeridade são politicamente difíceis de sustentar e, para aqueles que acreditam em estímulos, contraproducentes para o crescimento econômico.
O Banco Central Europeu pode financiar os países incapazes de tomar empréstimo a taxas viáveis, mas isso levanta o espectro da inflação e aumenta o fardo da dívida para os países que estão financiando.
A opção de uso do ajuste cambial, abandonando a camisa de força do euro de taxa de câmbio fixa, envolve muitos problemas operacionais. Uma redenominação da dívida e controles de capital temporários exigiriam aprovação internacional.
De forma mais fundamental, teme-se que até mesmo uma ruptura parcial da zona do euro poderia ser o início do fim da União Europeia, um grande passo para trás após décadas de integração.
O que é necessário é uma abordagem internacional, liderada pelos Estados Unidos, China e Japão, canalizada pelo Fundo Monetário Internacional, e talvez considerada em uma conferência internacional –Bretton Woods 2º.
Essa conferência examinaria a necessidade de revisão dos atuais arranjos internacionais de taxa de câmbio, focados no euro, mas não limitados a ele. Poderia exigir que todas as uniões monetárias com consolidação fiscal incompleta tivessem um mecanismo para ajuste das taxas de câmbio dos membros individuais, como o Mecanismo de Taxa Cambial, não o euro. Poderia discutir como restringir o crescimento de dívida insustentável, talvez por meio do aumento dos direitos do credor e impondo limites ao acesso ao mercado internacional e ao apoio dos bancos centrais. Também poderia discutir medidas para estimular a economia global.
Nada pode ser feito pelos Estados Unidos e pela China até que a transição para os governos recém-escolhidos esteja completa, e tempo é necessário para os participantes formularem soluções internacionais. Todavia, deveria haver hoje uma convocação para uma conferência em 2013, com a esperança razoável de que o Banco Central Europeu possa fornecer a liquidez necessária nesse ínterim.
(*) Hal S. Scott é professor de sistemas financeiros internacionais da Escola de Direito de Harvard e diretor do Comitê para Regulação dos Mercados de Capital
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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