sábado, 18 de agosto de 2012

Apesar da crise econômica, preço do petróleo dispara na Europa
Denis Cosnard - Le Monde
É um recorde que os dirigentes europeus, principalmente François Hollande, prefeririam dispensar. Apesar da desaceleração econômica mundial, o preço do petróleo vem sofrendo uma nítida alta nos últimos dois meses, enquanto o euro não para mais de cair em relação ao dólar. Resultado: em moeda europeia, o petróleo do Mar do Norte atualmente está sendo negociado em níveis históricos. Quase 95 euros o barril, na última quinta-feira (16). A Europa nunca pagou tão caro por sua principal matéria-prima, que ela importa em grande parte.
Os motoristas em todo o continente já sentiram as consequências. Em média, os preços do diesel na bomba chegaram a 1,50 euro o litro na semana passada na União Europeia, segundo relatos da Comissão. Ou seja, 60% a mais que em março de 2009! E o recorde de 1,53 euro tem todas as chances de ser batido nos próximos dias, acreditam os consultores da Petromatrix. Uma perspectiva de má surpresa para os veranistas, que terão de encher o tanque antes de pegar a estrada para a volta das férias.
Todos os grandes consumidores de produtos derivados de petróleo começaram a sofrer: os fabricantes de artigos de plástico, as companhias aéreas etc. “A conta de energia dos países da zona do euro ficará muito pesada”, confirma Harry Tchilinguirian, especialista em petróleo no BNP Paribas.
Como explicar o fato de que, apesar do marasmo europeu, que tem afetado o consumo, o petróleo em euros esteja nos mesmos picos de março passado ou de julho de 2008, em plena euforia mundial? Quatro fatores essenciais são responsáveis por esse paradoxo.O crescimento, apesar de tudo
É verdade que a crise e os preços elevados estão começando a conter a sede de petróleo do planeta. Na semana passada, a Agência Internacional de Energia (AIE) baixou suas previsões de consumo, pela quarta vez desde janeiro. Mas, embora a demanda esteja em recuo na Europa e estagnada nos Estados Unidos, ela continua em alta em outros lugares, sobretudo na Ásia. O Japão tem queimado óleo combustível para substituir seus reatores nucleares, desativados desde a catástrofe de Fukushima em março de 2011 e, do lado chinês, os mercados apostam que Pequim em breve tomará medidas para relançar sua economia. O primeiro-ministro, Wen Jiabao, não garantiu, na última quarta-feira (15), que o país atingiria suas metas econômicas para o ano, em particular um crescimento de pelo menos 7,5%?
Resultado, o consumo mundial de petróleo deverá subir mais 1% este ano, se aproximando dos 90 milhões de barris por dia, segundo a AIE. Um nível jamais atingido.
Uma oferta restrita
Diante dessa sede insaciável, a oferta de petróleo se encontra restrita. Sobretudo por causa de sanções internacionais cada vez mais fortes aplicadas contra o Irã, que o impedem de exportar. Em julho, sua produção caiu bruscamente para seu menor nível desde os anos 1980. Mesmo com a Arábia Saudita assumindo parte da produção, “a questão reduziu as capacidades excedentárias de produção em nível mundial”, ou seja, a margem de segurança que permite preços razoáveis, observa Harry Tchilinguirian, do BNP Paribas.
As operadoras petroleiras também se preocupam com a diminuição da produção no Mar do Norte. Seu declínio estrutural foi acentuado por greves na Noruega no início do verão, e operações de manutenção previstas em setembro contribuirão para o recuo.
A isso se somam as tensões atuais em torno de Israel e os rumores de uma guerra iminente contra o Irã e seu programa nuclear. É o suficiente para deixar o mercado nervoso, e entender por que o preço do WTI, o petróleo americano de referência, subiu, na quinta-feira (16), para US$ 95,75 o barril, seu mais alto nível em três meses.
Um bônus para o brent
Na Europa, o petróleo está ainda mais caro. Mais de US$ 117 pelo barril de brent do Mar do Norte, na quinta-feira, ou seja, uma diferença de US$ 21 em relação ao petróleo dos EUA. “Normalmente, o petróleo americano é de melhor qualidade e se vende mais caro”, observa Olivier Gantois, delegado-geral da União Francesa das Indústrias Petrolíferas (UFIP), o sindicato das petroleiras. “Mas é o contrário que tem ocorrido atualmente, em razão de um afluxo muito grande de petróleo em Cushing, Oklahoma, o hub de oleodutos onde se estabelece o preço do WTI, o que influencia nos preços.” Uma anomalia que beneficia os consumidores de petróleo americano.
A crise do euro
É o último elemento que explica por que os europeus estão sendo especialmente penalizados. Em 2008, o petróleo já havia sido propelido por uma demanda em alta combinada a uma produção limitada. O barril havia então culminado em US$ 146. “Mas, na época, o euro forte serviu de escudo”, lembra Tchilinguirian. Em outras palavras, o fortalecimento da moeda europeia havia atenuado a elevação dos preços do petróleo para os clientes do Velho Continente.
Não foi o que aconteceu desta vez, pelo contrário. Em um ano, o valor do euro em relação ao dólar diminuiu 14%, devido à crise das dívidas soberanas e às preocupações sobre o futuro da zona do euro. Esse enfraquecimento faz com que o barril de brent hoje se encontre no nível mais elevado de sua história em euros.
Para os países que adotaram a moeda única, onde a economia já está se retraindo, essa alta do ouro negro e os riscos de uma elevação ainda maior constituem uma grande preocupação. Na França, o movimento tem grandes chances de afundar ainda mais o comércio exterior.
E, no plano político, a questão se revela extremamente delicada. É difícil para um governo admitir que ele não pode fazer nada em um caso como esse. Depois de prometer durante a campanha eleitoral congelar os preços dos combustíveis durante três meses, François Hollande teve uma trégua graças ao recuo do petróleo entre meados de março e meados de junho. Hoje, o congelamento está sendo novamente estudado. Mas, na prática, como isso será feito? Obrigarão as refinarias ou os postos de gasolina a venderem com prejuízo? Pode o Estado reduzir provisoriamente os impostos sobre os produtos derivados do petróleo, e abrir mão de receitas substanciais? Um grande quebra-cabeça. O Ministério das Finanças prometeu uma resposta para o dia 28 de agosto.
Tradutor: Lana Lim

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