Resposta tardia das autoridades ao terremoto causa indignação no Irã
Christophe Ayad e Assal Reza - Le Monde
Foram necessários cinco dias para que o primeiro dirigente iraniano fosse até o Azerbaijão Oriental (noroeste do país), palco de um terremoto que matou 306 pessoas e feriu mais de 3 mil no dia 11 de agosto, segundo um balanço oficial. Na última quinta-feira (16), o líder supremo da República Islâmica, Ali Khamenei, principal figura do Estado, visitou Tabriz, a capital da província, e depois Ahar, Varzeghan e Heris, os vilarejos mais afetados pelo tremor, que danificou mais de 10 mil casas.
Esse gesto tardio pretendia acalmar a ira crescente nas redes sociais contra a indiferença demonstrada pelos líderes iranianos e pela mídia oficial a respeito dessa tragédia. Também demorou a reagir o presidente Mahmoud Ahmadinejad, que foi criticado por comparecer à cúpula da Organização da Cooperação Islâmica de Meca, nos dias 14 e 15 de agosto, sem dizer uma palavra sobre as vítimas do Azerbaijão Oriental.
Na última quarta (15), Ahmadinejad chegou a enviar uma mensagem de condolências... ao presidente de Serra Leoa, pela morte de sua mãe. Os sobreviventes do terremoto tiveram de esperar até o dia seguinte.
Mas foi a cobertura – ou melhor, a total ausência de cobertura – dos acontecimentos pela rádio e pela televisão do Estado que mais chocou os iranianos. “É possível testemunhar a morte de nossos compatriotas e o luto de milhões de iranianos e não dar atenção a isso?”, se indignou o site conservador Asr-e Iran.
Então foi essencialmente por intermédio da internet que os iranianos se informaram e se mobilizaram. Repassados pela numerosa diáspora iraniana, apelos por doações de sangue foram lançados no Facebook. Eles repercutiram em todas as camadas sociais, desde o mundo do cinema até jogadores de futebol.
Depois da indiferença das autoridades, foi a vez da negligência delas ser duramente criticada. Um deputado, Jalal Yahyazadeh, revelou na quinta-feira que o orçamento reservado aos incidentes e às crises imprevistas havia sido gasto com outros fins, como o pagamento de subsídios e a reconstrução do santuário religioso de Fatima Masumeh, em Qom.
Para acalmar a opinião pública, o primeiro vice-presidente iraniano, Mohammad-Reza Rahimi, anunciou que cada família afetada receberia 40 milhões de rials (cerca de R$ 6.450) de ajuda direta e um empréstimo de 100 a 120 milhões de rials (entre R$ 16.100 e R$ 19.590), a uma taxa preferencial de 4%, para reconstruir suas casas. Promessas que não substituem uma ajuda de urgência, por enquanto em falta.
Apesar de suas dificuldades, o governo iraniano tem controlado rigorosamente a ajuda às vítimas. Hassan Ghadami, o chefe da organização encarregada de gerir a crise no Irã, anunciou na quarta-feira que somente a Guarda Revolucionária Iraniana, o Crescente Vermelho e alguns órgãos ligados ao Estado estavam autorizados a arrecadar ajuda financeira.
Diferentemente do que aconteceu após o terremoto que afetou a região de Bam (40 mil mortos em dezembro de 2003), as autoridades iranianas recusaram a maior parte das ofertas de ajuda internacional, a começar pela que veio dos Estados Unidos. “Não acreditamos que os Estados Unidos tenham enviado essa ajuda de boa fé”, declarou Hassan Ghadami, que acusou os ocidentais de serem responsáveis pela falta de medicamentos, devido às sanções adotadas para dissuadir Teerã de continuar com seu controverso programa nuclear. “Façam-nos um favor e retirem as sanções”, concluiu o dirigente iraniano, em um evidente esforço para politizar a questão humanitária.
Na segunda-feira (13), o departamento de Estado explicou que qualquer ajuda eventual não dizia respeito às sanções. Além da oferta americana, o Crescente Vermelho iraniano recusou a ajuda da Alemanha, de Taiwan e da Rússia, mas a mídia local anunciou a chegada de material do Qatar, do Paquistão, da Suíça e do Azerbaijão.
Tradutor: Lana Lim
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