sábado, 2 de fevereiro de 2013

Alemanha lamenta ascensão de Hitler 80 anos após sua chegada ao poder
Rafael Poch - La VanguardiaAP
Adolf Hitler chegou ao poder na Alemanha em 30 de janeiro de 1933
Adolf Hitler chegou ao poder na Alemanha em 30 de janeiro de 1933
Doze anos se passaram entre a chegada de Adolf Hitler ao poder e a libertação do campo de extermínio de Auschwitz pelo exército soviético.
Doze anos que determinaram e marcaram a Alemanha como nação, com um lastro de infâmia sem paralelos na história europeia, tão abundante em barbaridades. Aqueles doze anos continuam aqui, como advertência universal, como complexo nacional e também como dever de contrição pública.
A prova de tudo isso foi a lúgubre celebração que as autoridades alemãs dedicaram na última quarta-feira (30) ao 80º aniversário da chegada de Hitler ao poder, em 30 de janeiro de 1933. Ato solene no Bundestag [parlamento da Alemanha] e discurso da chanceler Merkel inaugurando uma exposição dedicada ao evento.
Trajes pretos, semblantes cabisbaixos e uma grande emoção ao escutar na câmara a prece, quase um pranto, recitada em hebraico rememorando as catedrais do holocausto judaico: Birkenau, Treblinka, Majdanek, Babi Yar...
"O caminho até Auschwitz começou com a destruição da democracia", disse o presidente do Bundestag, Norbert Lammert. Aquela democracia da República de Weimar, identificada com a derrota da Primeira Guerra Mundial, a paz humilhante, a instabilidade econômica e o caos social que, como explica o historiador Robert Gelletely em sua obra sobre o consenso nacional do nazismo, "não agradava a quase nenhum alemão".
"Hitler refletiu o caráter essencialmente provinciano, estreito e violento do nacionalismo alemão", explica o jornalista grego Dimitris Konstantakopulos, autor do diagnóstico mais sombrio do atual processo europeu liderado por uma Alemanha que cresceu por sua reunificação e por fim se emancipou totalmente das tutelas pós-bélicas impostas à sua soberania.
A atual política alemã na Europa está novamente conduzindo ao desastre, diz Konstantakopulos e, como em 1945, se encerrará com uma "derrota geopolítica, moral e estratégica" para a Alemanha. Uma Alemanha, explica esse autor, que superestima sua força e que levará todos, exceto a Alemanha, à mesma conclusão:
"Não mudaram, continuam sendo os mesmos, não se pode confiar neles", diz. Certa ou não, sua diatribe só ilustra o fardo e a sombra que aqueles doze anos projetam: oitenta anos depois, não há país mais fácil de demonizar.
No entanto, esse país, no qual os ex-nazistas continuaram mandando muito depois da guerra, mantém sua pública atitude de culpa, apesar da mudança das gerações, como se o próprio conceito de culpa coletiva não fosse um absurdo jurídico e moral transferido para os filhos e netos de quem cooperou ou consentiu com o horror.
A "ruptura da civilização" que representou o nazismo e seus extermínios – o judeu, o cigano, o dos homossexuais, esquerdistas e prisioneiros soviéticos - , é uma "advertência permanente", disse Angela Merkel ao inaugurar a exposição Topografia do Terror. A mostra é um dos muitos lembretes daquele período que recobrem o centro de Berlim e que a cidade converteu em um interessante atrativo histórico, demonstrando com ele uma inequívoca força de vontade. Merkel disse advertência porque a ascensão de Hitler foi possível "devido ao apoio da elite alemã e ao consentimento da maioria". Uma maioria que mostrou "indiferença na melhor das hipóteses" diante da falta de liberdades.
Oitenta anos depois de sua chegada ao poder, o nome de Hitler é uma espécie de antídoto contra aquele tipo concreto de barbárie porque sua memória introduz de alguma maneira anticorpos na consciência universal.
Tradutor: Lana Lim

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