domingo, 3 de fevereiro de 2013

Crise faz espanhóis transformarem casas em restaurantes clandestinos
Dan Bilefsky* - NYT
Samuel Aranda/The New York Times
Restaurante clandestino Nikkei tem culinária nipo-chilena
Restaurante clandestino Nikkei tem culinária nipo-chilena
Em um porão à meia-luz em uma rua afastada daqui, Mikio, um cineasta, dono de restaurante e às vezes palhaço profissional nipo-chileno, alerta um pequeno grupo de clientes a baterem palmas ruidosamente e cantarem "Parabéns para você!" caso a polícia apareça em seu restaurante clandestino, o Nikkei.
Mikio, 39, está determinado a criar a ilusão de um encontro privado de amigos em seu restaurante clandestino pós-moderno. O porão é decorado com fotos em preto-e-branco de seus avós. Há até mesmo uma escova de dente em exposição no banheiro. Ele dirige o lugar sem livro contábil e só aceita pagamento em dinheiro.
"Por favor, não use meu sobrenome", ele disse, sorrindo nervosamente. A dona do espaço, uma produtora de cinema independente, não tem ideia do que ele está fazendo, ele disse.
As dificuldades econômicas inspiraram um grande número de empreendimentos clandestinos na Espanha. A combinação de impostos mais altos e desemprego tem levado espanhóis desesperados a converter seus apartamentos, lofts e depósitos em clubes de jazz, salões de beleza, restaurantes e até mesmo salões de flamenco. Os espaços costumam não ter endereços listados e são encontrados por meio de boca a boca, no Facebook ou Twitter.
Mas os restaurantes parecem estar entre as ofertas clandestinas mais populares, e apesar de não serem novos em Barcelona, ou em muitas cidades por todo o mundo, seus fornecedores dizem que eles estão propiciando um refúgio necessário em um país com 25% de desemprego, onde até restaurantes com estrela Michelin foram forçados a fechar devido à pressão econômica.
De fato, Mikio disse que teve a ideia para o Nikkei, que abriu no ano passado, de quando morou alguns anos atrás em Cuba, onde jantar nos "paladares", os restaurantes clandestinos nas casas das pessoas, era uma forma popular de driblar as autoridades e ganhar algum dinheiro.
"Para começar, eu fiz isso por diversão, para ganhar um dinheiro extra e porque as pessoas precisavam de opções inovadoras de baixo custo em uma economia ruim", disse Mikio, um homem magro e jovial que anunciava cada novo prato tocando um sino de metal da fábrica de armamentos de sua família, no Japão. "Mas eu prefiro pensar nisto como um encontro social em vez de um negócio."
A receita perdida devido a aqueles que não pagam impostos pode chegar a até 37 bilhões de euros, dizem os economistas, privando o governo endividado da Espanha de reservas muito necessárias. Quantificar o número desses negócios é difícil, já que são, por definição, clandestinos. Mas os economistas estimam que a economia informal da Espanha pode representar até um quinto de seu produto interno bruto.
Além de evitar impostos, Mikio disse que consegue manter os preços baixos comprando produtos em grande quantidade de amigos em mercados atacadistas locais e limitando suas porções. Em uma noite recente, o local estava lotado com aproximadamente 18 pessoas. Entre os convidados estava a peixeira que lhe vendeu o peixe para seu sushi (ela ganhou uma refeição gratuita).
Os clientes mal podiam conter sua alegria com o preço. A refeição fusion catalã-japonesa de nove pratos, suntuosa, mas minimalista –incluindo bolinhos japoneses, uma sopa tropical feita de romã, gengibre e sementes de girassol e uma pequena porção de sushi– custou apenas 23 euros.
Mas nem todos esses empreendimentos clandestinos evitam pagar impostos. Alguns, como La Contrasenya –em um bairro operário boêmio de Barcelona chamado Poble Nou– disseram que decidiram optar pela clandestinidade para gerar intriga e atrair consumidores cada vez mais inconstantes, que querem economizar. Essa também parece ser a inspiração do Urban Secrets, uma rede clandestina que oferece noites secretas em espaços por toda a cidade.
Em uma noite recente no La Contrasenya ("senha" em espanhol), uma porta coberta de grafite foi aberta depois que os convidados sussurraram a senha, "abóbora", no interfone. Eles então foram conduzidos por uma aparente menina de rua com cabelo descolorido até um elevador industrial que os levou dois andares acima até um ateliê, com um clima criado pela iluminação, transformado em um elegante restaurante improvisado, repleto de pinturas geométricas.
Os clientes –o local só tinha duas mesas– incluíam vários escritores, um professor e um fotógrafo. O professor, Ferrán Viladevall, disse que foi atraído pelos ingredientes frescos, preços moderados e a sensação de espontaneidade, assim como pela chef, Angela Vinent, uma ex-executiva de relações públicas que virou artista (a arte nas paredes é dela), que já escreveu sobre os anos pós-Franco antes de trocar a caneta pela faca de cozinha.
"Se não fosse pela crise eu não estaria fazendo isto", disse Vinent, que abriu La Contrasenya no ano passado, na esperança de complementar sua renda e atrair gourmets de mentalidade frugal. "As pessoas vêm por vários motivos, por que a comida é boa, porque o preço é razoável, porque é bacana."
Vinent –que conversa calorosamente com os convidados quando não está debruçada sobre o fogão– serviu uma refeição "de crise" farta e variada de cinco pratos caseiros– incluindo atum marinado, creme de abóbora com curry, pão recém-assado banhado em azeite de oliva caseiro de sua oliveira nos Pirineus espanhóis, sorbet de manga e um bom Rioja –tudo por 25 euros. (A aparente menina de rua, Helena, que é sua filha, foi a garçonete.)

Talvez por pagar os impostos, Vinent não parecia preocupada em ser descoberta pelas autoridades, enquanto no Nikkei, Mikio olhava para fora com frequência enervante, temendo que seu destino culinário secreto fosse exposto.
Mesmo assim, ele disse, ele está ficando mais relaxado. A demanda é tamanha, ele disse, que ele conta até mesmo com alguns policiais à procura de uma pechincha entre seus clientes.
*Silvia Taules contribuiu com a reportagem.
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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