domingo, 3 de fevereiro de 2013

Nova alta nas Bolsas dos EUA e da Europa alertam para possível bolha no setor
Audrey Tonnelier - Le Monde
Eric Thayer/Reuters
4.jan.2013 - Operadores trabalham na NYSE (Bolsa de Valores de Nova York), que desde as crises de 2007 e 2009 vem observando grande volatilidade na cotação das ações ali negociadas
4.jan.2013 - Operadores trabalham na NYSE (Bolsa de Valores de Nova York), que desde as crises de 2007 e 2009 vem observando grande volatilidade na cotação das ações ali negociadas
Mas o que está acontecendo com as Bolsas de Valores do mundo? Sujeitos ao desprezo público até pouco tempo atrás, símbolos tanto dos abusos do mercado financeiro internacional quanto da incapacidade dos dirigentes políticos de conterem a crise, os mercados hoje são alvo de um novo entusiasmo. Se antes seus sobressaltos faziam o mundo das finanças estremecer, desde o investidor americano até o pequeno poupador grego, agora neste início de 2013 eles vêm batendo todos os recordes.
Tanto em Wall Street como em Frankfurt, as Bolsas estão se aproximando de seus mais altos índices da história. O índice S&P500, que reflete o desempenho das maiores empresas americanas, ultrapassa os 1.500 pontos. Ele está a somente 4% de seu recorde de outubro de 2007. Em Frankfurt, nem 3% separam o Dax, o equivalente alemão do CAC 40, de seu ápice de julho de 2007. Um período em que o Lehman Brothers dominava o cenário bancário mundial, e onde a própria ideia do fim do euro parecia ser ficção científica….
Mesmo em Londres, Madri ou Milão, onde os mercados estão longe de igualar seus recordes, os índices mostram saltos de 6% a 10% desde o início do ano. "Os mercados estão desafiando a gravidade", resume Pierre Sabatier, presidente da consultoria PrimeView.
Um número dá a dimensão do fenômeno: desde o dia 1º de janeiro, cerca de US$ 42 bilhões (R$83 bilhões) fluíram para os fundos de ações de todo o mundo, algo jamais visto desde o estouro da bolha da internet em 2000, e uma vez e meia o recorde anterior de 2011!
Se os investidores estão otimistas, é primeiramente graças a Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE). Ao garantir no verão de 2012 que sua instituição faria "tudo que fosse necessário" para salvar o euro, e depois concedendo sob certas condições a possibilidade de comprar a dívida dos países em dificuldades, o fleumático italiano conseguiu dissuadir os investidores de apostar contra os Estados mais frágeis. E deu um respiro para as Bolsas do mundo. "Quando você anda à beira do precipício durante anos, o simples fato de se afastar um pouco desperta otimismo", ressalta Sabatier.
As últimas semanas confirmaram esse sentimento. Os difíceis acordos obtidos entre republicanos e democratas americanos sobre o fiscal cliff ("abismo fiscal") e sobre o teto da dívida, mas também as novidades animadoras sobre o crescimento nos Estados Unidos e na China, animaram os investidores.

Investidores nervosos

A esses elementos macroeconômicos se somam outros, mais técnicos: o tanto de liquidez injetada nos mercados pelos principais bancos centrais com o intuito de apoiar economias convalescentes. Os empréstimos a três anos concedidos aos bancos pelo BCE para desbloquear o sistema bancário lançaram mais de 1 trilhão de euros no sistema.
O Federal Reserve, banco central americano, que se comprometeu a comprar todos os meses US$ 85 bilhões (cerca de R$168 bilhões) em títulos enquanto o índice de desemprego não cair para baixo de 6,5% - ele chegava a 7,8% no início de 2013 - , e agora o Banco do Japão indiretamente estão inundando os mercados.
Ainda mais pelo fato de que as ações, com seus generosos dividendos, hoje constituem o investimento mais rentável. Após passarem meses de olho nos empréstimos dos Estados e das empresas mais sólidas, consideradas sem riscos em meio às turbulências econômicas e financeiras, os investidores estão se afastando dessas aplicações. E estão redescobrindo o charme das ações, mais arriscadas mas muito mais lucrativas.
"O rendimento das ações europeias, inclusive os dividendos, ultrapassa hoje os 4%, sendo que os empréstimos a dez anos, franceses ou alemães, chegam a cerca de 2%", observa Frédéric Jamet, da State Street, a segunda maior gestora de ativos do mundo.
Por fim, mais de dois terços das grandes empresas americanas que publicaram seus resultados de 2012 passaram com facilidade pelas humilhantes previsões dos analistas, segundo cálculos da empresa Aurel BGC, conseguindo devolver um sorriso aos investidores.
Talvez até demais. Não há mais nenhum corretor, banqueiro ou gestor que não aconselhe seus clientes a correr atrás de ações. Ninguém quer perder a alta… correndo o risco de que esta só seja alimentada por ela mesma. "Os investidores decidiram esquecer todos os fatores de risco […]. Trata-se exatamente das características de uma bolha", diz Patrick Artus, diretor de pesquisa econômica da Natixis. Pronto. foi dito.
"O S&P500 ganhou em um mês metade daquilo que prevíamos para o ano. É de se perguntar se ele não subiu demais", concorda Mathieu L’Hoir, estrategista da AXA IM. Ainda mais pelo fato de que as ações não estão mais tão baratas: o S&P500 paga 14,5 vezes os lucros das empresas esperados para 2013, comparando com uma média histórica de 12 a 15 vezes.
O suficiente para deixar os investidores nervosos. "Acontecimentos exógenos, como novas dificuldades sobre o teto da dívida ou uma volta da tensão na zona do euro, não deveriam fazer com que eles perdessem a confiança. Mesmo os economistas e os diretores dos bancos centrais americanos estão começando a falar em riscos de superaquecimento. A hipertrofia do balanço do Fed – US$ 3 trilhões em ativos! – e sua política de taxas baixas – na qual a reunião de seu comitê de política monetária nos dias 29 e 30 de janeiro não deverá mudar nada – , será que elas não acabarão subindo à cabeça dos investidores?
Mas é sobretudo na Europa que a recuperação das Bolsas parece estar construída sobre areia. No Velho Continente, "o crescimento é fraco ou até negativo, os bancos continuam mal, os déficits públicos e o endividamento dos cidadãos continuam grandes", se alarma Artus. Para ele, "a questão não é saber se a bolha europeia estourará, mas sim o que a fará estourar". O aumento da preocupação sobre os números do desemprego, repentina derrapagem de um banco do sul da Europa, dificuldades de Chipre em recuperar sua economia...
No final, os observadores concordam em dizer que o estado de graça ainda deve durar… um pouco. "A alta pode perdurar até parte do ano, mas há um risco de retrocesso no segundo semestre, quando os investidores se darão conta de que a economia europeia ainda está longe de estar curada", conclui Sabatier. A queda poderá ser feia. Como já se sabe, os mercados raramente são sutis. 
Tradutor: Lana Lim

Nenhum comentário: