sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O colapso da ordem
Jeffrey Nyquist - MSM

O colapso da velha ordem abre caminho para uma nova ordem. E os líderes dessa nova ordem não se importam se as nações empobreçam ou se milhões pereçam.
Meu artigo da semana passada foi sobre o colapso do capitalismo. Esse colapso (que alguns crêem estar se aproximando) acarretaria "uma crise americana, uma crise mundial e um levante global". Quando um sistema social fracassa, automaticamente alguns países fracassam com ele. Se o capitalismo entrar em colapso, a grande república dificilmente sobreviverá.
Num livro chamado The Gingerbread Race (descontinuado por seus editores em Londres), o escritor russo Andrei Navrozov explica que ele "viu na civilização não apenas a moral e os costumes burgueses de um Ocidente privado de seus antecedentes aristocráticos, mas o futuro em si, além do horizonte, um Ocidente caindo nas garras da militarização totalitária e um progresso na qual sua cultura, solipsista e geocêntrica, não é realista o suficiente para percebê-lo num contexto mais amplo e, portanto, impotente para interrompê-lo ou mesmo retardá-lo". A conclusão de Navrozov, contra o Ocidente, é curta e grossa: "Pacificado pela mediocridade, a civilização não tem a cultura necessária para sobreviver...". O Ocidente não é apenas impotente diante do materialismo televisivo e da "indústria da música". Uma cultura oca é militarmente (e economicamente) indefesa diante do dinheiro. Em outras palavras, James Bond é ficção e Kim Philby é fato. "A verdade é", escreve Navrozov, "que o otimista não quer lutar porque tudo vai bem no seu quintal, e tudo continuará bem nesse mundo maravilhoso, enquanto o pessimista não deseja lutar porque tudo será para o bem alheio, enquanto no seu quintal tudo está fadado a fracassar".
Os pilares de nossa civilização estão se esfarelando há décadas. Superficialmente há prosperidade na forma de novos carros, belos edifícios, boas rodovias e lojas lotadas. Mas no substrato há uma coisa podre, doente, sem futuro, mediada por imbecilidades intelectuais. Enquanto escrevo este artigo, não há rebeliões armadas ou guerras mundiais que me dêem razão. Tudo está relativamente calmo no Ocidente, pois o trabalho dos vermes não é mensurável em decibéis. E mesmo se fosse, a música pop diluiria tudo num mar de ruídos.
Em seu livro Technopoly, Neil Postman escreveu sobre o colapso da civilização em termos de "informação enlouquecida". Ele explica que nosso "sistema imunológico informacional está inoperante". Sofremos de uma espécie de "AIDS cultural", ou seja, "Síndrome da Deficiência Anti-Informacional". Numa ordem social cada vez mais tecnocrática, "não poderá haver nenhum senso de propósito ou significado transcendental, nenhuma coerência cultural". E mais: "A informação é perigosa quando não há para onde ir, quando não há teoria que a aplique, quando não há nenhum padrão que a englobe, quando não há nenhum propósito que a sirva". Nesse contexto, lembro-me das palavras do filósofo espanhol Miguel de Unamuno, que escreveu: "Tudo que conspira em mim para quebrar a unidade e a continuidade da minha vida conspira para me destruir e, portanto, para destruir-se. Todo indivíduo que conspira, no seio de um povo, para quebrar a unidade e continuidade desse povo tende a destruí-lo e destruir-se a si mesmo, como parte desse povo".
A cultural do Ocidente entra em colapso sob uma onda de entretenimento e cálculos econômicos. Nossas universidades não são mais centros de cultura, já que a cultura não é mais respeitada ou - como Postman diz - "coerente". De acordo com Christopher Lasch, "cultura é um way of life escorado pelo desejo de condenar e punir aqueles que desafiam seus mandamentos". Quando o desejo de condenar morre, a ordem morre. E sem ordem não há segurança nem meios de defesa. Nas palavras de Edmund Burke, o que virá é um "mundo de loucura, discórdia, vício, confusão e aflição infrutífera".
Há muitas décadas as lideranças universitárias estão às voltas com doutrinas subversivas. Editoras, jornais e revistas insistem em novas idéias sociais (desde o socialismo até o feminismo e o multiculturalismo). Por meio de um processo sutil e gradual, as fundações de uma grande civilização têm sido minadas. "O niilismo está à espreita", escreveu Friedrich Nietzsche em 1886. "O fim do Cristianismo - nas mãos de sua própria moralidade". Trata-se de um processo descrito, mais tarde, por James Burnham em Suicide of the West, em termos de "culpa enquistada na ideologia liberal (1)". De acordo com Burnham, "o grupo, nação ou civilização infectada por doutrinas e valores liberais estará moralmente desarmado diante daquele que o liberal considera menos afortunado que si mesmo". Burnham explica: "Quando o sentimento de culpa tipicamente liberal do Ocidente, e seus sentimentos associados de vulnerabilidade moral, torna-se obsessivo diante das aflições e demandas dos menos favorecidos, então é normal desenvolver-se um ódio generalizado pela civilização ocidental e pelo seu próprio país". A mente vazia é um recipiente perigoso. A coisa que subsitui a cultura acaba sendo a "ideologia" - um substituto fácil e barato. Se na cozinha há o fast food, na cultura política há Michael Moore e Rush Limbaugh.
As rebeliões começam nos corações e nas mentes. A ordem social não é algo visível, mas invisível. Em seu livro Behemoth, Thomas Hobbes descreve as causas da Guerra Civil Inglesa. Apesar da aparente normalidade monárquica, e apesar da apatia do povo, uma mudança intelectual anunciara um levante sangrento. "Os corruptores eram de diversos tipos", explica Hobbes. "Um tipo era ministro". Ele acrescentou dizendo que "havia um grande número de pessoas da melhor estirpe, educadas à altura, que durante sua juventude leram livros escritos por homens famosos da Grécia a Roma antigas...em cujos livros o governo popular era exaltado em nome da liberdade, e a monarquia era execrada em nome da tirania; eles, portanto, se apaixonaram por suas formas de governo".
Voltando às proximidades do século XXI. A revolta popular dos anos 1960 não era Cícero ou Lívio, mas matracas marxistas e semi-músico s drogados anarquistas. As revoluções francesa e russa tentaram erradicar a ordem existente, substituindo-a por uma nova. A Revolução dos Anos 60 não foi diferente. Em Enemies of the Permanent Things, Russel Kirk notara que "desde a Revolução Francesa, a palavra 'ordem' tem sido impopular. Ordem implica em liderança, disciplina, autocontrole, dever; e os ideólogos panfletários, de Tom Paine em diante, foram hostis a esses conceitos. Emancipação de todos os controles, visíveis e invisíveis, tem sido o desejo dos liberais mais extremistas dos tempos modernos". A anarquia é a estrada para a tirania. Aqueles que, como Marx e Lênin, pregam a revolução mundial, torcem para que a anarquia do colapso capitalista dê espaço para uma nova ordem socialista. Conforme Antonio Gramsci explicou em seu Prison Notebooks: "Marx é o criador de uma Weltanschauung (2)".
De acordo com Gramsci: "Marx deu início a uma época histórica intelectual que durará, considerando-se todas as probabilidades, por séculos, isto é, até o desaparecimento da sociedade política e o advento de uma sociedade regulada".
O colapso da velha ordem abre caminho para uma nova ordem. E os líderes dessa nova ordem não se importam se as nações empobreçam ou se milhões pereçam.
Notas:
N.T.:
(1) Liberal no sentido americano do termo, isto é, esquerdista.(2) "Cosmovisão", em alemão.
Publicado por Financialsense.com
Tradução: MSM.

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