Alessandro Bianchi/Reuters

O líder da coalizão de centro-esquerda italiana, Pier Luigi Bersani, participa de um comício em Nápoles
Pier Luigi Bersani, 62 anos, não é apenas uma alternativa política a Silvio Berlusconi. Ele também é seu oposto polar em termos de personalidade. Por exemplo, enquanto Bersani não se importa em mostrar o avanço de sua calvície, "Il Cavaliere" mantém sua cabeça coberta com implantes cirúrgicos. Enquanto Bersani faz relutantemente aparições públicas discretas, às vezes desajeitadas, Berlusconi, 78 anos, adora o grande palco e aperfeiçoou a habilidade de entreter a plateia. Enquanto o primeiro está casado com a mesma mulher há 30 anos, o segundo já se envolveu em inúmeros casos. Berlusconi é o gesto ostentoso, a manchete em letras garrafais da política italiana, enquanto Bersani é a letra miúda.
Mas como um pensador discreto e cuidadoso pode ficar à frente em um país apaixonado por grandes óperas, com seus heróis e vilões? Na campanha para a eleição que será realizada no domingo e na segunda-feira, todos seus adversários estão muito à frente dele em termos de domínio da mídia. Isso se aplica não apenas a Berlusconi, mas também a Beppe Grillo, o ex-humorista de TV, que enche as praças com suas tiradas espirituosas contra a elite política e a União Europeia. Até mesmo Mario Monti, o professor de economia indiferente que é o candidato dos sonhos da Europa para se tornar o comandante de um país importante, mas imprevisível, sabe como as coisas funcionam e faz aparições na TV com um vira-lata fofinho em seus braços.
Mas Bersani parece ser o único candidato sem noção. De fato, ele é o camundongo cinza da política italiana.
Mas desafiando a crença, o camundongo cinza está à frente nas pesquisas, um indício de que ele tem uma boa chance de se tornar o próximo primeiro-ministro em Roma. Apesar de estar mais para assistente de palco do que o heróico tenor de ópera, talvez sejam exatamente os aspectos tediosos, dignos e não espetaculares de Bersani que os italianos mais desejem agora.
Há uma foto autêntica de Bersani que chegou a muitos jornais no ano passado. Ela mostra Bersani sentado à uma mesa de bar, escrevendo seu discurso um dia antes da convenção anual do seu Partido Democrático (PD). Bersani provavelmente é igual ao homem visto nessa foto de turista, e é assim que muitas pessoas que votarão nele também o veem.
Um construtor de pontes
Bersani está quase sempre com um charuto na boca, até mesmo quando fala em seu modo dialético. Nessas ocasiões, ele tende a apresentar metáforas bizarras, cujo sentido não é imediatamente aparente, como "Quando chove, chove para todo mundo". Ou, quando encerrou um longo debate e exortou seus companheiros de partido a realizarem um trabalho sensível, ele disse: "Nós não estamos aqui para enxugar os penhascos do litoral".
Quando discursou ao assumir o comando do partido poucos dias atrás, ele disse: "Eu sou aquele que dirige o trânsito". Talvez seja assim que falem as pessoas de onde ele vem: Bettola, uma pequena cidade de cerca de 3 mil habitantes em Piacenza, no Estado de Emilia Romagna no noroeste, onde seu pai tem um posto de gasolina e uma garagem. A área é conhecida por ser "vermelha", mas é claro que também são católicos, e o pequeno Pier Luigi também passou alguns anos como coroinha. Mas então ele estudou filosofia, trabalhou brevemente como professor e logo se tornou um político "vermelho" profissional –ou, talvez mais precisamente, "rosa".
Inicialmente, ele esteve como os "vermelhos" do Partido Comunista Italiano (PCI). Mas ele acompanhou seus camaradas quando o PCI se transformou no Partido Democrático de Esquerda (PDS) depois da queda do comunismo. Em 1998, ele passou a ser Democratas da Esquerda (DS), que depois se fundiu com vários outros partidos de esquerda em 2007 para formar o Partido Democrático (PD).
O fato da linha do partido ter se alinhado mais estreitamente à social-democracia ao longo de todas essas transformações cai bem para o camundongo cinza. No final, o campo vermelho descartou seu lastro ideológico e começou a defender políticas econômicas mais liberais. Como ministro de três governos de coalizão de centro-esquerda, Bersani foi tão bem-sucedido que até mesmo a associação dos empregadores o elogiou –o que, por sua vez, afastou aqueles na extrema esquerda. Mesmo assim, ele criou uma nova base e conquistou novos eleitores para seu partido, que há anos vinha caindo na obscuridade.
Preparando o terreno para mudanças
Em outubro passado, Bersani teve sucesso nas primárias para determinar quem seria o principal candidato da aliança de centro-esquerda composta por seu partido e um pequeno partido ambientalista, Esquerda, Ecologia e Liberdade (SEL). Na época, como agora, seu adversário –Matteo Renzi, o prefeito de Florença– apresentava mais glamour e um toque especial retórico. Mas menos votos.
Se Bersani vencer a eleição, as coisas provavelmente continuarão do mesmo modo sem firulas, ao estilo empresarial. Ele anunciou que seu governo seguiria em frente com as políticas de austeridade para redução da dívida do setor público, mas também disse que pretende buscar mais "equidade e trabalho". Além disso, Bersani já falou com outros líderes socialistas proeminentes na Europa, incluindo o presidente da França, François Hollande, e o primeiro-ministro da Holanda, Mark Rutte. Na verdade, ele até mesmo viajou para Berlim –vista como a cova dos leões no sul da Europa– para falar com o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble. Depois, o porta-voz de Schäuble disse aos repórteres que a conversa foi boa.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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