domingo, 24 de fevereiro de 2013

Padre é acusado de tráfico de drogas nos Estados Unidos
N.R. Kleinfield* -NYT
Suzanne DeChillo/The New York Times

22.fev.2013 - Interior da Catedral St. Augustine, em Bridgeport, Connecticut, nos EUA, onde atuava o padre Kevin Wallin, acusado de tráfico de drogas22.fev.2013 - Interior da Catedral St. Augustine, em Bridgeport, Connecticut, nos EUA, onde atuava o padre Kevin Wallin, acusado de tráfico de drogas
A partir do momento em que entrou para o sacerdócio há três décadas, ele parecia destinado a se tornar uma estrela. Como confidente de dois bispos e, em seguida, como o pastor erudito e responsável por duas igrejas, o monsenhor Kevin Wallin era uma figura de destaque na Igreja Católica Romana no sudoeste do Connecticut, EUA.
Os fiéis se sentiam confortados com suas homilias. Eles se inscreviam avidamente para suas longínquas peregrinações espirituais, reuniam-se nos eventos de captação de recursos da igreja para ouvir sua voz melodiosa interpretando músicas populares. Ele ia à ópera com um homem que se tornaria cardeal e ele próprio parecia destinado à mitra de um bispo.
Mas há cerca de dois anos, questões preocupantes começaram a ser sussurradas. Ele agiu de forma estranha. Estava mais magro. Andava curvado. Estava ausente. Ele estava doente? Ou morrendo? E então a conversa picante sobre homens suspeitos marchando para dentro e para fora do presbitério.
Finalmente, veio a revelação do mês passado. O padre foi preso, acusado de traficar metanfetamina.
Numa época em que padres da Califórnia até Delaware foram acusados de atos repugnantes, as alegações contra Wallin, ex-pastor da Catedral de Santo Agostinho, em Bridgeport, são de uma dimensão notavelmente diferente: a de que ele era um viciado e traficante de drogas que estava comprando um sex-shop para lavar recursos ilícitos, um padre que estava se travestindo e fazendo sexo com homens.
A vida dupla enigmática de Wallin explodiu à vista do público no mês passado, depois que promotores federais anunciaram que o haviam prendido sob a acusações de posse e conspiração para venda de drogas, crime que poderia mandá-lo para prisão perpétua. Agora com 61, ele definha na prisão, depois de ter se declarado inocente de um comportamento que muitos que o conhecem acham pervertido e inapreensível - o caso de um homem que trocou Deus pelo diabo.
A Diocese de Bridgeport obrigou Wallin a deixar seu cargo em St. Augustine em Junho de 2011, depois de ter sido alertada sobre seu comportamento dissonante. Quando ele se recusou a aceitar ajuda, a diocese o despojou de suas funções sacerdotais sem alarde, mas disse que não tinha conhecimento de qualquer tráfico de drogas.
"O que ele fez no final foi chocante e saiu do nosso controle", disse Brian Wallace, porta-voz da diocese. "Quando soubemos, tomamos uma atitude imediatamente e com força. O que foi lamentável, levando em conta o bom sacerdote que ele era."
O caso escabroso é apenas o escândalo mais recente para a Diocese de Bridgeport, já maculada por uma série de casos de abuso sexual por parte do clero. No ano passado, o reverendo Michael R. Moynihan, ex-pastor da Igreja de São Miguel Arcanjo, em Greenwich, foi mandado para a prisão por obstrução à justiça depois de ser acusado de gastar dinheiro da igreja em benefício próprio. Em 2007, o reverendo Michael Jude Fay, da Igreja Católica de São João em Darien, foi condenado por roubar US$ 1,3 milhão; ele morreu na prisão.
Suzanne DeChillo/The New York Times
Reverendo Gregg Mecca, amigo de Kevin Wallin, padre que foi destituído de suas funções religiosas em igreja de Connecticut, nos EUA
Muitos detalhes ainda não estão claros sobre a vida emaranhada de Wallin, e seu advogado não retornou as ligações da reportagem. Sua queda pareceu abrupta. Mas colegas disseram que sua fé estava enfraquecendo há anos sob os imperativos de administrar uma igreja com problemas financeiros, e que ele era sexualmente ativo com homens há muito tempo. O uso de drogas, eles suspeitam, deve ter sido mais recente, e o pavio final que fez explodir sua vida.
Segundo a diocese, desde o momento que Wallin chegou a St. Augustine, em 2002, a igreja, como muitas outras localizadas no centro das cidades, estava perdendo dinheiro, e as perdas foram aumentando. A diocese estava colocando dezenas de milhares de dólares por ano nela.
Uma boa amiga do padre disse que ele parecia "um refugiado de campo de concentração". Um dia ela foi para a igreja para ajudar com a papelada e descobriram que a eletricidade havia sido cortada por falta de pagamento.
Em abril de 2011, a diocese começou a ouvir sobre a degeneração do padre de funcionários da igreja. "Ele parecia distraído, e se ofendia facilmente", disse Wallace. "Ele tinha espasmos nervosos no rosto."
Várias pessoas acharam que ele podia estar com a doença de Parkinson, ou estava à beira de um colapso nervoso. Ele perdia compromissos. Chegou três horas atrasado para realizar um casamento.
Mais ou menos na mesma época, um funcionário da igreja disse a autoridades diocesanas que uma procissão de homens visitava Wallin no presbitério a todo momento. A diocese investigou, e Wallace disse: "Nós ouvimos o suficiente para acreditar que ele estava envolvido em atividade sexual no presbitério."
Naquele 3 de junho, o bispo William E. Lori confrontou Wallin, que não refutou inteiramente as revelações. Lori disse que ele teria que renunciar. Em 12 de junho, a paróquia foi informada de que ele estava saindo por motivos pessoais e de saúde.
Depois de sua partida, funcionários da igreja encontraram um saco guardado no presbitério contendo vídeos pornográficos adultos, brinquedos sexuais e máscaras de couro, de acordo com funcionários da igreja.
Alarmada com a possibilidade de pornografia infantil ou abuso de crianças, a diocese contratou um advogado. A diocese disse que Wallin foi interrogado e negou que tivesse interesse em crianças. Um especialista vasculhou seu computador, mas não encontrou nada relacionado a crianças.
A diocese decidiu que tinha um sacerdote que havia cometido um pecado, mas não um crime. Lori concedeu-lhe uma licença sabática. A diocese esperava que, com a ajuda, ele pudesse se corrigir e voltar a uma nova paróquia. Ela continuou pagando um salário mensal de cerca de US$ 1.400 a Wallin.
A diocese disse para ele passar por uma avaliação médica. Meses se passaram. "Ele estava se arrastando", disse Wallace. "Nós dizíamos: 'padre, quando você vai fazer a avaliação?'"
Finalmente, Lori ordenou que ele a fizesse. A diocese não especificou aonde ele a fez, mas uma pessoa familiar com o caso disse que ele foi submetido a uma extensa avaliação médica no hospital Johns Hopkins, em Baltimore.
Ela descobriu que precisava de tratamento residencial para lidar com problemas psicológicos e emocionais, incluindo um narcisismo excessivo e uma propensão para o sexo. Ele também era suspeito de usar drogas.
Mas ele resistiu a buscar cuidados. Em 7 de outubro, Lori suspendeu suas funções, o que significava que ele não tinha mais autorização para atuar publicamente como padre, uma decisão que a diocese não levou a público.
Em 31 de outubro de 2011, Wallin concordou em se internar no St. Luke Institute, um hospital psiquiátrico em Silver Spring, Maryland, que trata clérigos católicos e outros pacientes. Enquanto estava lá, de acordo com alguns que o conhecem, ficou claro que ele estava usando anfetaminas. Ele deixou o hospital contra a vontade da equipe em 4 de novembro.
No mês seguinte, Lori disse que se ele não aceitasse o tratamento, poderia ser excomungado.
Mais uma vez ele desistiu. Um novo ano começou. Neste momento, de acordo com as autoridades, ele havia mudado de profissão. Ele tinha se tornado um traficante de drogas. Estava morando num apartamento confortável num edifício comum de dois andares em Waterbury. Ele também estava alugando o apartamento vizinho, onde as autoridades disseram que morava seu cúmplice.
Este era o seu novo principado, onde oficiais da lei disseram que ele vendia metanfetamina.
Agentes da polícia anti-narcóticos de Nova Iorque chegaram até ele a partir de um distribuidor de drogas de Nova York que disse que havia encontrado o padre numa festa no início de 2012 e começou a comprar ele. O homem se tornou um informante.
Agentes de Nova Iorque avisaram agentes de Connecticut, que pediram ajuda da polícia do estado. Um policial à paisana, segundo as autoridades, fez seis compras de drogas com Wallin. Eventualmente, seus telefones foram grampeados.
Wallin planejava ir embora para Londres em 3 de janeiro por 12 dias. Uma amiga de longa data, que disse que não sabia nada de sua vida com as drogas, pediu que ele fosse com ela e outra mulher a um passeio educativo sobre espionagem. No dia em que o avião decolou, a polícia estava em sua porta.
Funcionários da diocese disseram que não sabiam da investigação e não perceberam que ele ficou preso vários dias.
"Olhávamos para ele como se ele fosse Deus, praticamente", disse Charlie Hall, um fiel de Danbury, que mora num abrigo. "Mas agora percebemos que ele é apenas humano, como o resto de nós."
Em 22 de janeiro, vestido com um macacão laranja folgado, um Wallin resignado declarou-se inocente de sua acusação num tribunal federal em Hartford. Os promotores calculam que ele arrecadou mais de US$ 300 mil com a de vendas de drogas.
Tradutor: Eloise De Vylder

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