sábado, 23 de fevereiro de 2013

Aumentam temores relacionados à ressurreição de Berlusconi na Itália

Remo Casilli/Reuters

O candidato para ser pela quinta vez primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi
O candidato para ser pela quinta vez primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi
O presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, alertou os italianos para que não votem em Silvio Berlusconi nas próximas eleições. Schulz vem se juntar à crescente lista de líderes que estão preocupados com o retorno de "Il Cavaliere" ao poder. Essa preocupação é especialmente nítida no mundo financeiro.
Em 2004, Silvio Berlusconi era visto como uma espécie de bálsamo para feridas políticas que assolaram a Itália durante décadas. Em 5 de maio daquele ano, uma série de reportagens publicadas pelos jornais ressaltou o fato de Berlusconi – que já ocupava o cargo de primeiro-ministro havia 1.060 dias – tinha se tornado o premiê italiano há mais tempo no poder durante o pós-guerra, superando os 59 governos anteriores que haviam administrado a Itália a partir de Roma desde 1946.
Mesmo à época, é claro, ele já era uma figura que dividia opiniões. A comparação de sua longevidade no cargo à de Benito Mussolini, ditador da Itália durante a Segunda Guerra Mundial, feita pelo próprio Berlusconi, certamente não ajudou. Mas, agora, após três mandatos como primeiro-ministro e um quarto se aproximando caso ele seja capaz de arrancar uma vitória surpreendente na eleição de domingo e segunda-feira próximos, os principais políticos alemães perderam a paciência.
Na quarta-feira passada, o alemão Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, fez o mais recente alerta aos italianos contra a eleição de Il Cavaliere. Berlusconi, disse ele, "já havia colocado a Itália em parafuso com suas ações irresponsáveis e aventuras pessoais quando era chefe de governo". Schulz disse que muita coisa depende das próximas eleições, "o que inclui evitar a perda da confiança".
É claro que não é nenhuma novidade que Schulz não é um grande fã de Berlusconi. Em 2003, quando Schulz era um parlamentar europeu normal, sem cargo de liderança, e Berlusconi ocupava o cargo de presidente do Conselho Europeu, o primeiro-ministro italiano se ofendeu com os comentários críticos feitos por Schulz. Em resposta, Berlusconi disse: "Eu sei que na Itália há um homem produzindo um filme sobre os campos de concentração nazistas. Eu vou recomendar você para o papel de guarda". O comentário desencadeou uma breve mas intensa rusga diplomática entre Roma e Berlim.
Líderes empresariais preocupados
Antes do alerta de Schulz, o ministro alemão da Fazenda, Wolfgang Schäuble, teria dito esta semana à revista italiana L'Espresso que seu "conselho para os italianos é: não cometam o mesmo erro novamente. Não reelejam (Berlusconi)". Posteriormente, o porta-voz de Schäuble negou o comentário.
Na terça-feira passada, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Guido Westerwelle, também emitiu um alerta apenas ligeiramente velado contra a eleição de Berlusconi, em comentários feitos para o jornal de centro-esquerda Süddeutsche Zeitung. E o chefe do Comitê de Relações Exteriores do parlamento alemão, Ruprecht Polenz, também disse ao Süddeutsche Zeitung esta semana que "a Itália precisa de líderes políticos que representem o futuro. E Berlusconi certamente não é um deles".
Não ficou claro se a preocupação se justifica. A Itália não permite a publicação de pesquisas de opinião duas semanas antes das eleições. Mas os levantamentos divulgados no início deste mês mostraram que o partido de Berlusconi, de centro-direita, estava se aproximando rapidamente do Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, liderado por Pier Luigi Barsani.
Apesar de toda a inquietação em Berlim e Bruxelas, são os líderes empresariais, no entanto, que parecem ser os mais preocupados. Quando Berlusconi renunciou, no outono de 2011, para abrir caminho para o governo tecnocrata liderado por Mario Monti, a Itália foi confrontada com a disparada dos custos dos empréstimos, enquanto os investidores perdiam toda a fé na capacidade de Roma de administrar a enorme carga de sua dívida soberana, de 2 trilhões de euros (US$ 2,64 trilhões).
"Cenário de horror para os investidores"
 Desde então – a com a assistência oportuna do presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, que no ano passado prometeu realizar compras ilimitadas de títulos da dívida italiana para manter os empréstimos acessíveis –, Monti tem sido capaz de manter a Itália fora das manchetes econômicas.
Mas os sinais vitais do país permanecem fracos e a economia italiana encolheu 2,2% em 2012, ampliando seu mais longo período de recessão das últimas duas décadas. O desemprego alcançou a alta recorde de 11,2%.
Ecoando muitos de seus colegas do mercado financeiro mundial, o economista-chefe do Commerzbank, Jörg Krämer, disse esta semana ao diário econômico Handelsblatt que a reeleição de Berlusconi "seria um cenário de horror para os investidores e colocaria a crise da dívida soberana (da Itália) novamente em ebulição". Ulrich Kater, do DekaBank da Alemanha, disse que "a vitória Berlusconi dificultaria o restabelecimento da confiança no euro".
Supõe-se que a chanceler alemã Angela Merkel provavelmente também se opõe a ver Berlusconi de volta ao poder em Roma – apesar de ela ter se esforçado para evitar fazer comentários sobre a campanha italiana. Mais de uma vez, Merkel foi alvo dos comentários pouco lisonjeiros do ex-premiê italiano – e um dos principais temas do tour de comícios de Berlusconi têm sido os ataques a Merkel e à Alemanha.
Mario Monti, no entanto, parece pensar que Merkel se opõe à centro-esquerda italiana. Em entrevista concedida à agência de notícias italiana Adnkronos, ele disse que "Merkel teme a consolidação dos partidos de esquerda, especialmente em um ano eleitoral na Alemanha. Eu não acredito que ela queria ver o PD chegar ao governo". A porta-voz de Monti foi rápida em observar que o atual primeiro-ministro italiano não conversou com Merkel sobre esse assunto.
Tradutor: Cláudia Gonçalves

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