sábado, 23 de fevereiro de 2013

Morte de menino adotado nos EUA causa indignação na Rússia
NYT                
Maxim Shemetov/Reuters
O presidente russo, Vladimir Putin, defendeu a proibição da adoção de crianças russas por americanos em coletiva de imprensa
O presidente russo, Vladimir Putin, defendeu a proibição da adoção de crianças russas por americanos em coletiva de imprensa
Autoridades russas acusaram na última terça-feira (19) uma mulher do Texas, EUA, de bater até a morte num menino de 3 anos que ela havia adotado na Rússia, desencadeando uma nova onda de indignação no país que já estava focado nas adoções norte-americanas que culminavam em negligência ou abuso.
Max Shatto e seu irmão deixaram um orfanato russo no ano passado com seus pais adotivos, Laura e Alan Shatto, que vivem na comunidade de Gardendale, em no Texas.
Em 21 de janeiro, o dia em que Max morreu, as autoridades de bem-estar da criança do Texas receberam a notificação de sua morte, bem como alegações de violência física e negligência, e um porta-voz do departamento de Proteção e Serviços da Família do Texas disse na terça-feira que a morte estava sendo investigada. A senadora Mary L. Landrieu, democrata de Louisiana, disse que a investigação será concluída em cerca de duas semanas, e serão tomadas medidas apropriadas.
A morte do menino saltou para o topo do noticiário nacional russo nesta semana, quando o comitê investigativo do Ministério Público da Rússia abriu um caso criminal sobre o que descreveu como o "assassinato de um menino russo de três anos de idade, Maksim Kuzmin, por sua mãe adotiva nos EUA". No final do ano passado, o presidente Vladimir Putin transformou em lei a proibição de todas as adoções por parte de norte-americanos, e inúmeras famílias ainda esperam concluir as adoções que estavam em seus estágios finais.
A Embaixada dos EUA em Moscou divulgou uma declaração afirmando que "seria irresponsável tirar conclusões sobre a morte ou apontar o culpado antes que os resultados da autópsia sejam analisados e a investigação seja concluída."
Mas poucos parecem inclinados a esperar na Rússia, onde um âncora de telejornal do horário nobre chamou o menino de "a 20ª criança russa morta nos EUA por pais adotivos". Políticos descreveram a reação das autoridades norte-americanas como insensível.
"Infelizmente, a morte de uma criança russa não foi uma tragédia para os congressistas americanos, senadores americanos, e em geral não foi uma tragédia para ninguém nos EUA", disse Olga Batalina, parlamentar do partido Rússia Unida, no poder, em observações ao Parlamento. "Proponho que façamos uma homenagem ao menino russo com um momento de silêncio."
A morte do menino foi relatada em detalhes dolorosos na televisão russa durante o dia todo. Um programa de notícias ilustrou seu relato com trechos de vídeos não relacionados ao caso que mostravam adultos maltratando crianças – inclusive um que circulou amplamente em 2011, de uma mulher no Alasca que puniu seu filho de sete anos obrigando-o a beber molho de pimenta.
"A informação que recebemos – das autoridades norte-americanas, eu gostaria de salientar mais uma vez – é chocante", disse Konstantin Dolgov, comissário de direitos humanos do Ministério de Exterior russo, à estação de rádio Voz da Rússia. "O menino de 3 anos de idade apanhava constantemente de sua mãe norte-mericana, e quando a autópsia foi realizada, eles descobriram que todo o corpo do menino estava coberto de hematomas."
Ele continuou, dizendo que tinham dado a Max um medicamento antipsicótico indicado para "formas muito avançadas da esquizofrenia em adultos".
"Esperamos que, se a investigação concluir que os pais norte-americanos são culpados de sua morte – seu assassinato – esperamos que, é claro, eles sejam levados à justiça", disse.
As autoridades do Texas foram mais cautelosos em seus comentários, dizendo que estavam aguardando os resultados de uma investigação. Patrick Crimmins, do departamento de Proteção e Serviços à Família do Texas, disse que a agência não havia recebido nenhuma queixa anterior de abuso contra a família Shatto, e recusou-se a dar mais detalhes sobre os sinais de negligência ou violência física.
"Talvez queiramos esperar o relatório de um médico legista ou toxicologista", disse numa declaração.
Enquanto isso, disse ele, o irmão mais novo de Max permanece na casa dos Shatto. "Estamos monitorando a residência para garantir sua segurança", disse ele.
O que quer tenha levado à morte do menino, foi um final terrível para uma adoção. Uma nota triunfante na página do Facebook da Laura Shatto em novembro comemorava seu retorno ao Texas com Max e seu irmão mais novo, Kirill, 2, a quem os Shatto chamam de Kristopher. Natalia Vishnevskaya, médica-chefe do orfanato em Pskov, onde eles foram adotados, disse ao Canal Um da Rússia que "a mãe biológica não teve interesse na vida dos meninos e que seus direitos parentais foram retirados quando seus filhos tinham 1 e 2 anos idade.
Ela disse que os Shatto haviam visitado os irmãos repetidamente no orfanato e nunca despertaram suspeitas entre os funcionários. Os Shatto não forneceram uma declaração público sobre a morte do menino. Um obituário informou que ele havia "passado para os braços de Deus na tarde de segunda-feira, 21 de janeiro". O texto dizia, numa parte: "Max, você não esteve conosco tempo suficiente para deixar impressões digitais nas paredes, mas deixou impressões digitais nos nossos corações."
Na terça-feira, ninguém respondeu a mensagens de telefone ou atendeu à porta da casa da família em Gardendale, uma comunidade rural com uma população de 1.600 habitantes. Duas equipes de televisão russas estavam entre os jornalistas estacionados num cruzamento perto da casa, que fica no fim de uma rua de cascalho.
A Rússia conta 19 crianças que morreram por causa de abuso ou negligência nas mãos de famílias adotivas norte-americanas. Autoridades norte-americanas defendem que estes resultados são extremamente raros, dizendo que mais de 60 mil crianças russas foram adotadas por famílias norte-americanas nos últimos 20 anos.
A ideia de proibir a adoção de crianças russas por norte-americanos não foi totalmente abraçada por líderes russos até o ano passado, quando estavam à procura de uma resposta dura à Lei Magnitsky, uma medida dos EUA contra oficiais russos acusados de corrupção e abusos de direitos.
A proibição de adoção levou o nome de um menino de 21 meses de idade, Dima Yakovlev, que morreu de insolação na Virgínia, em 2008, quando seu pai adotivo o deixou num veículo estacionado por nove horas. A raiva contra a adoção foi reavivada em 2010, quando um menino de 7 anos de idade, nascido Artyom Solovyev, foi enviado sozinho num voo de volta para a Rússia por sua mãe adotiva do Tennessee, junto com um bilhete dizendo que o menino era "violento e tinha graves problemas de psicopatia."
Relatos sobre a morte de Max na terça-feira desencadearam uma série de novas medidas – sendo que a mais notável foi a suspensão temporária de todas as adoções na região de Pskov, de onde Max e Dima Yakovlev haviam sido adotados.
"Um crime selvagem foi cometido novamente nos EUA", disse o governador da região, Andrei Turchak, de acordo com o serviço de notícias Interfax. Ele disse também que seu escritório tomaria medidas imediatas para devolver o irmão de Max, Kirill, à Rússia.
"Kirill não pode mais ficar nos EUA", disse Turchak. "A criança vai simplesmente mudar de mãos. As leis norte-americanas não proíbem isso. Isso vai traumatizar a criança ainda mais. Ele não é um cachorro nem um carro. Kirill deve retornar para a região de Pskov. "
Tradutor: Eloise De Vylder

Nenhum comentário: