Miguel Mora - El Pais
Corentin Fohlen/The New York Times

Mulher limpa área exterior a trailer em acampamento cigano em La Courneuve, na França
François Hollande prometeu durante a campanha eleitoral que sua política de imigração seria diferente da praticada por Nicolas Sarkozy. "Não haverá expulsões em massa, só caso a caso", afirmou o candidato socialista, e "nenhuma minoria será estigmatizada nem utilizada como bode expiatório". Nove meses depois de chegar ao poder, a promessa se desmanchou como um torrão de açúcar. O ministro do Interior, Manuel Valls, superou o recorde de expulsões de seu antecessor, o ultraconservador Claude Guéant: 36.882 estrangeiros foram devolvidos a seus países em 2012, contra 33 mil em 2011 (11% a mais) e 28 mil em 2010, segundo dados oficiais. Um terço deles eram cidadãos europeus: ciganos romenos e búlgaros.
Nas últimas semanas ocorreram vários episódios de discriminação da comunidade romani que sugerem que, como indicam as associações de direitos humanos, a política de Hollande e Valls é idêntica à de Sarkozy e Guéant. Em Marselha foram expulsas ilegalmente mulheres grávidas e crianças. No 15º distrito de Paris foi negada a escolarização de crianças ciganas. Na região de Val-d'Oise, elas não podem entrar no refeitório escolar.
Stéphane Maugendre, líder do Grupo de Informação e Apoio aos Imigrantes, denunciou a "brutalidade e os maus-tratos" das autoridades para com os ciganos, e enfatizou que essa perseguição "está servindo como moeda de troca em um contexto econômico e social cada vez mais crítico".
O caso mais preocupante de discriminação ainda acontece em Ris-Orangis, ao sul do aeroporto de Orly e muito perto de Evry, município onde Valls forjou sua legenda de político-policial.
O prefeito de Ris-Orangis, lugar desolador urbanizado nos anos 1960, onde quase não há pessoas de raça branca, é Stéphane Raffalli, um político socialista da província de Essone, feudo eleitoral de Valls e do PS. Raffalli declarou guerra aos acampamentos ilegais de ciganos e mirou uma favela levantada por várias famílias romenas em agosto do ano passado em um terreno baldio situado sob a rodovia Nacional 7.
Sua intenção de derrubar os barracos se chocou com a opinião do dono do terreno, o Conselho Geral (Câmara de Vereadores), que se opôs ao despejo. Mas o prefeito não arredou, e em setembro se negou a escolarizar no povoado 13 crianças do acampamento. "É um caso evidente de apartheid", afirma Sébastien Thiéry, fundador da associação Perou, que levantou no acampamento uma embaixada, uma grande cabana de madeira que serve de igreja e escola de desenho.
Raffalli alega que as classes estão cheias, que os registros das crianças estão incompletos e que não têm meios para administrar "tanta pobreza", e por enquanto só aceitou colocar os alunos ciganos, que têm entre 4 e 12 anos, em uma classe especial, um anexo do ginásio. Parece melhor que a solução encontrada na periferia de Lyon, em Saint-Fons, onde as crianças romanis recebem aulas desde novembro em uma delegacia. As ONGs definiram esse novo conceito com a expressão "classes étnicas", e tanto o Ministério da Educação como o Defensor do Povo, Dominique Baudis, continuam exigindo a inscrição das crianças. Há uma semana, Baudis deu dez dias de prazo a Raffalli para cumprir a lei. Mas segundo Anne, uma jovem voluntária do acampamento, "os prefeitos sabem que se as crianças estão escolarizadas é muito mais difícil expulsar suas famílias".
No acampamento, a sexta-feira (15) foi dia de festa. O astro do flamenco Israel Galván, o revolucionário bailarino de Sevilha, foi ao acampamento para dançar e conhecer a situação dos ciganos. Galván se apresenta atualmente no Teatro da Cidade de Paris com seu espetáculo "Lo Real", uma visão sobre a perseguição nazista e o Holocausto cigano, no qual morreram mais de 600 mil romanis e sintis.
Junto com o dançarino, cuja mãe é cigana, estavam Pedro G. Romero, diretor artístico de "Lo Real"; os batedores de palmas Bobote e Caracafé - moradores no gueto cigano das Três Mil Viviendas em Sevilha - e Carmen Lérida, Uchi, bailarina de velha estirpe flamenca.
No campo há cerca de 30 barracos, cada um mais precário que o outro. A terra é preta e úmida, e não há água corrente nem luz. Aqui vivem 130 adultos e 40 menores. Muitas crianças nasceram na França, porque a maioria das famílias chegou há dez anos, explica Dragomir, um jovem pai de três filhos. Ele conta que veio para Paris em 2004, que foi desalojado 16 vezes, e todos os habitantes do acampamento são do mesmo povoado - Bius -, 80% deles romanis.
Os anfitriões colocaram um estrado de madeira coberto com um plástico azul para que Galván mostrasse sua arte, e na porta de entrada pintaram uma frase do bailarino: "as forças que um dia não terei, as estou gastando agora". Tênis esportivos, calça laranja e blusão acolchoado, Galván dança vários números, e ao acabar está comovido e feliz: "Vi muitos rostos como o de minha avó", disse. "E é impressionante como as fotos dos anos 40 que usamos para preparar este espetáculo se parecem com isto. Agora a obra tem mais sentido. O Real é um olhar pessoal, apolítico, sobre o genocídio cigano, sobre a morte. A ideia é que, apesar das dificuldades, os ciganos somos salvos pela alegria, a energia, a vontade de viver. Ver a alegria dessas pessoas me faz pensar que acertamos, enche a obra de sentido, é como fechar um círculo. O melhor presente seria que a apresentação sirva para ajudá-los. A recepção em Paris e destas pessoas justifica o trabalho feito".
Emilio Caracafé e Bobote, que vivem no gueto levantado nos anos 1960 pela ditadura de Francisco Franco para afastar os "calós" do centro da cidade, não dão crédito ao que ouvem. "É um crime que eduquem as crianças separadas. É como lhes dizer que são diferentes e sempre serão. O mesmo que dizer que todos os camponeses são ladrões porque Urdangarín rouba", indigna-se Caracafé.
"O que a prefeitura está fazendo é ilegal", explica o ativista Sébastien Thiéry, "e já acontecia quando Sarkozy governava. Muitos prefeitos de esquerda e de direita fazem isso. Não é uma questão de partido, é a sociedade francesa que está doente e obcecada pelos ciganos."
A indústria da "expulsão voluntária" está azeitada desde sua fundação, em 2006, e há inclusive ônibus especiais para levar os romanis expulsos para os aeroportos, onde embarcam em voos fretados coletivos. No entanto, o dispositivo de repatriação parece ter sucumbido a seus paradoxos: seu êxito o transformou em inoperante e caro demais, porque muitos expulsos voltam. O gasto total em 2011 foi de 20,8 milhões de euros - 9,4 milhões para o transporte e 11,4 milhões pela indenização de 300 euros. Com a crise, o Ministério do Interior cortou o valor das ajudas e desde 1º de fevereiro o pagamento de 300 euros para os adultos passou a ser de 50 euros. Para as crianças, baixou de 100 para 30.
Essa mudança sugere que as chegadas e expulsões diminuirão. "O problema é que os que ficam, como os de Ris-Orangis, não recebem ajuda para seus direitos básicos, uma moradia decente, atendimento médico e educação, porque a França continua sem recorrer aos fundos europeus de ajuda para os romanis", explica Thiéry. Embora pareça mentira, a segunda economia da zona do euro, com 65 milhões de habitantes de todas as raças possíveis, não encontra uma forma de receber alguns milhares de ciganos, os únicos que parecem não ter lugar na República Francesa.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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