sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Partido Pirata da Alemanha afunda em meio ao caos e brigas
Sven Becker, Annett Meiritz, René Pfister e Merlind Theile - Der Spiegel
EFE

Deputados do Partido Pirata alemão participam de congresso para eleger o presidente, em Neumünster, na AlemanhaDeputados do Partido Pirata alemão participam de congresso para eleger o presidente, em Neumünster, na Alemanha
Bernd Schlömer não aguentava mais. "Para mim chega", anunciou. "Realmente, não dá mais".
O presidente do Partido Pirata da Alemanha está acostumado com críticas. Afinal, as pessoas já o chamaram de tudo online, desde "maníaco" até simplesmente um "idiota". Schlömer está acostumado com insultos.
Isso torna ainda mais surpreendente que Schlömer tenha reagido tão fortemente às críticas de um de seus colegas em fevereiro, durante uma reunião virtual com os líderes do partido. Esse membro em particular entrou na discussão para declarar que considerava Schlömer um incompetente.
Esse é um comentário comum para o partido, mas para Schlömer foi a gota d’água. "Não vou deixar todo mundo ficar me atacando publicamente", gritou. "As pessoas estão gostando da forma como estou sendo desacreditado e escorraçado da presidência do partido". Ele fez várias inspirações profundas e pareceu ter falta de ar. Depois, repetiu, "Para mim chega".
O Partido Pirata está se partindo em pedaços. Com as eleições federais alemães a sete meses de distância, teria que ocorrer um pequeno milagre para que os piratas superassem a barreira de 5% de votos que permite que um partido tenha assentos no Bundestag, o parlamento do país. O Partido Pirata tem estado ocupado se dilacerando, com os membros lutando contra os líderes, que estão brigando entre si e se antagonizando com os membros. Nos últimos dias, os líderes do partido dos Estados de Baden-Württemberg e Brandemburgo renunciaram, citando o clima negativo.
"O ambiente é tão venenoso, que quase não há mais trabalho construtivo", diz Udo Vetter, um dos candidatos proeminentes do partido no Estado da Renânia do Norte-Vestfália. Marina Weisband, uma das figuras mais icônicas dos piratas, refugiou-se no humor na semana passada, quando escreveu em um tuíte: "Somos o partido da democracia líquida e louca". Pode parecer engraçado, mas não é uma piada.

Promessa rompida


Outros estão observando o declínio do Partido Pirata com uma boa dose de sadismo. "A própria existência dos piratas é um sintoma da demência digital, não?", escreveu o jornal "Frankfurter Allgemeine Zeitung". Ainda assim, o fracasso do partido também é o fracasso de uma tentativa de reformar a democracia. O Partido Pirata não é um grupo movido por ódio que se aproveita da desilusão do povo para chegar ao poder. A ascensão do partido ocorreu por uma promessa em tornar a política alemã mais amigável e mais acessível às pessoas e seus desejos.
Seu meio escolhido para executar essa promessa foi a internet e os computadores, instrumentos para liberar a política das garras dos escritórios fechados e dos círculos íntimos. Na internet, todo mundo tem voz –ela pode ser essencialmente vista como um enorme comício na prefeitura. E quando as pessoas se encontram ali, surge a oportunidade de se formar uma inteligência coletiva.
Essa visão utópica agradou especialmente aos jovens e aos que se desiludiram com a política de sempre e seus rituais ultrapassados. Quando o Partido Pirata conquistou pela primeira vez assentos na assembleia estadual de Berlim, em setembro de 2011, quase um quinto de seus votos vieram de pessoas que geralmente se consideravam não votantes. Nenhuma sabia dizer o que os piratas defendiam, mas foi precisamente esse aspecto diletante que emprestou ao partido seu charme. "Somos aqueles com as perguntas. Vocês têm as respostas", diziam os cartazes da campanha do partido em Berlim.
Essa inteligência coletiva online, porém, tornou-se mais destrutiva do que sábia, e a transparência da internet se provou mais uma maldição do que uma vantagem. Os partidos políticos estabelecidos podem parecer chatos com suas regras e regulamentos, mas essa estruturação ajuda as coisas a fluírem, e os costumes antiquados podem manter as coisas civilizadas. Na internet, onde os piratas se reúnem, a anarquia reina.

Difamação anônima


O partido não conseguiu segurar o lado negro da internet, o ódio e a difamação tão comuns no mundo online. De fato, foi bem o oposto –esses aspectos negativos passaram a infectar o próprio partido.
Ninguém sentiu isso tão fortemente nos últimos meses do que o diretor do partido, Bernd Schlömer, um homem com um temperamento sólido. O Partido Pirata elegeu-o em parte por esta mesma razão, esperando que ele se mantivesse frio no caos e na histeria que vêm com a criação de um novo partido político.
Nesta última quarta-feira de cinzas (13/02), que tradicionalmente é um dia de reunião para os partidos políticos na Alemanha, Schlömer subiu ao pódio em um salão meio vazio na cidade alemã de Ingolstadt. Em geral, os presidentes dos partidos usam essas oportunidades para jogar seus inimigos no fogo. Schlömer, entretanto, queria falar sobre políticas de educação e construção.
Schlömer tem grande aptidão para acalmar situações emotivas, mas ainda assim se viu alvo de uma corrente constante de insultos e ofensas. Dez meses na presidência do partido deixaram-no perto de um ataque de nervos.
"No Twitter, sou militarista e sexista", disse Schlömer. "Você é exposto a coisas extremamente ofensivas e recebe muito pouco retorno positivo. Você é constantemente bombardeado com golpes abaixo da cintura, na maior parte anônimos". Quando Schlömer recentemente disse ao "Süddeutsche Zeitung" que ele acredita que para alcançar a igualdade dos sexos não é preciso apenas apoiar as mulheres, mas também esperar mais delas, foi afogado por uma onda de críticas, expressada sob o hashtag "#sexistischekackscheiße" ("porcaria sexista"). "Tagarelices de Bernd" e "Schlömer mercenário" foram os apelidos mais amigáveis que surgiram.
Há contas de Twitter com o único propósito de ridicularizar o presidente do Partido Pirata. "Meus métodos triunfarão", escrevem os detratores de Schlömer em @GroeVaz, uma conta especializada em comentários rancorosos contra o "maior presidente de partido de todos os tempos". Quando Schlömer acabou seu discurso em Ingolstadt, na última quarta-feira(20), um membro do partido passou o seguinte tuíte: "A melhor parte do discurso foi quando ele se afastou do microfone".

Briga entre os líderes


Três quartos de ano depois de assumir o cargo, Schlömer parece cansado e desapontado. Ele diz que não compreende por que as pessoas são bem recebidas publicamente e criticadas tão duramente dentro do partido. "Eu via a política de forma diferente, mais harmônica", diz ele. "Não estou tentando subir ao poder. Não tenho mandato, não tenho salário. Também estou disposto a eventualmente renunciar. E as pessoas ainda me acusam de ter fome de poder e de não ouvir a base do partido". De fato, ele é o primeiro presidente de partido a criar um horário aberto em seu escritório, de 9h às 10h da manhã toda segunda feira, diz ele.
Schlömer não está apenas combatendo uma corrente de ódio online, mas também lidando com o fato que todo novo partido político parece atrair irresistivelmente os excêntricos. E no caso do Partido Pirata, esse problema tem o nome do diretor político Johannes Ponader.
Ponader e Schlömer foram eleitos para liderar o partido juntos e, à primeira vista, pareciam uma equipe perfeita. Schlömer defendia a política séria, enquanto Ponader queria alcançar os nômades digitais que enchem os cafés de Berlim com seus laptops, pulando de um projeto freelance para o outro. Ponader gosta de celebrar sua diferença da classe média padrão e graças a ele o país hoje sabe o que é um estilo de vida poliamoroso.
Mas em vez de se complementarem, Ponader e Schlömer brigaram desde o início. Schlömer quer tornar o partido mais profissional e reunir uma equipe para assumir a responsabilidade pela campanha eleitoral parlamentar que se aproxima. Ponader, por outro lado, vê nisso a temida imposição "de cima para baixo" e a grotesca cara da hierarquia. Enquanto Schlömer quer melhorar a imagem pública do partido, Ponader alimenta debates sobre transparência e a reeleição dos líderes. Se Schlömer fala em pressa, Ponader pede mais discussão. Teoricamente, isso poderia ser visto como um conflito para encontrar a melhor forma de fazer as coisas. Mas o problema é que o Partido Pirata não conhece nada além de brigas, nem conhece a reconciliação e o acordo.

Não há regras claras para o debate


Nesta altura, os nervos estão tão à flor da pele que os altos membros do partido mal conseguem se comunicar entre si. No dia 7 de fevereiro, Ponader enviou um email ao grupo no qual copiava uma mensagem de Christopher Lauer, diretor do grupo parlamentar do partido na assembleia estadual de Berlim, exigindo em termos duros ("cara, como você está perturbado) que Ponader renunciasse. A revolta resultante foi tão intensa que a lista de e-mail interna dos líderes do partido desde então ficou em silêncio.
Ponader não se arrepende do email que mandou. "Para mim está claro que irritei alguns dos meus colegas da liderança do partido, mas quando eu reconheço um padrão sistemático neste tipo de ato, tenho uma obrigação de torná-lo público", diz ele.
Agora o partido está pedindo aos membros que digam online quais líderes ainda contam com sua confiança. Essa votação não terá efeitos concretos, mas ninguém explicou exatamente como um líder do partido deve continuar trabalhando depois que a base revogar seu apoio em uma votação online.
Os piratas são o partido da internet, mas a comunicação digital tem causado mais caos do que resultados. Por um motivo: o partido não conseguiu estabelecer regras claras para seus debates online. Até Klaus Peukert, que é o responsável por esta área, admite isso. "O partido não concordou em fazer uma votação online com resultados efetivos", diz ele, "o que significa que o ambiente entre os membros do partido muitas vezes parece um atoleiro de humores diferentes. Não é possível ter uma noção clara do que quer a maioria".
Muitos veem o programa de votação, Liquid Feedback, que é o que o Partido Pirata usa para reunir as opiniões de seus membros, como um grande progresso. Mas as decisões alcançadas usando o programa ainda não são mandatórias. Muitas vezes, a maioria dos membros do partido apoia uma ideia específica online, que é riscada da pauta na próxima reunião do partido no mundo real. Essa confusão significa que frequentemente os piratas não têm nada a dizer em uma série de questões importantes.

"Somos covardes demais"


Em muitos casos, o partido lida com pouco mais que ideias, por exemplo, no que concerne política externa e segurança. A plataforma do partido diz que busca trabalhar em direção à resolução pacífica de conflitos. Apesar de ser uma postura admirável, o que significa em relação à posição do partido na atual guerra na Síria? Ninguém sabe ao certo.
Os piratas poderiam compensar essa falta de conteúdo enfatizando outras características, como figuras carismáticas, cérebro ou políticos não tradicionais. Em vez disso, os que se destacam muito logo são odiados. O partido parece preferir suas figuras públicas apagadas, como foi o caso da escolha dos candidatos para as eleições parlamentares. No Estado de Brandemburgo, por exemplo, os piratas escolheram um desconhecido completo, Veit Göritz, para ser o primeiro de sua lista de candidatos, aquele que tem mais chance de ser eleito. O ativista de internet proeminente, Anke Domscheit-Berg, enquanto isso, recebeu o segundo lugar na lista –e é improvável que de fato consiga um assento no parlamento.
Marina Weisband também viu como seu partido trata as pessoas que são queridas pelo público em geral. Ex-diretora política do partido, que renunciou em janeiro por motivos de saúde. Depois, por pouco tempo pensou em voltar para política e concorrer a um assento nas próximas eleições parlamentares. Mas quando o "Spiegel" publicou um artigo detalhando suas intenções, houve uma chuva de críticas por parte de membros do partido, que disseram que ela era muito arrogante e se levava a sério demais. Pouco depois, Weisband anunciou que não ia concorrer para o parlamento neste ano.
Atualmente, Weisband parece exausta, em parte por toda a luta interna de seu partido. Ela escreveu um livro que deve ser publicado em março e no momento só quer falar sobre ele, não sobre os piratas. Parece que tem medo de novamente ouvir que está se dando valor demais.
O blog de Weisband, porém, revela como ela vê o Partido Pirata atualmente. O partido prometia reformar a democracia e queria ser uma força na qual o mérito de uma ideia era a única coisa que importava e onde qualquer um pudesse participar. Mas fracassou em cumprir essa promessa. "Somos covardes demais", escreve Weisband. "Mentimos".
* Traduzido do alemão para o inglês por Ella Ornstein
Tradutor: Deborah Weinberg*

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