quinta-feira, 25 de julho de 2013

Nas favelas do Rio, papa Francisco busca reconquistar fiéis
Nicolas Bourcier - Le Monde                                         
25.jul.2013 - Antonio Lacerda/EFE
Papa Francisco abençoa menino durante visita à comunidade Varginha, no Complexo de Manguinhos, no Rio
Papa Francisco abençoa menino durante visita à comunidade Varginha, no Complexo de Manguinhos, no Rio
Ele corre entre o alambrado e a linha branca, ao longo do campo de gramado. As obras dos funcionários da prefeitura, empenhados nos últimos preparativos antes da visita do papa Francisco, não parecem lhe perturbar nem um pouco. Aos 68 anos de idade, Jair Ventura Filho, mais conhecido pelo nome de Jairzinho, se aquece como se tivesse 20 anos. Campeão do mundo com a seleção brasileira de 1970, aquela que consideram a mais bela, a mais forte de todos os tempos com Pelé, Tostão, Gérson ou Rivelino, ele corre para treinar melhor as crianças da favela. "Faço isso há 20 anos", diz, "só estou dando aquilo que recebi".
Jairzinho vem três vezes por semana a essa "comunidade" de Varginha, uma favela da zona norte do Rio de Janeiro. Um espaço fechado, varrido pelos ventos de odores fétidos dos dois braços de rio que o cingem, com a avenida Leopoldo Bulhões como porta de entrada, mais conhecida pelo nome de "Faixa de Gaza" por ter sido ponto de confrontos entre as forças policiais e os traficantes.
Ocupada por uma unidade de polícia pacificadora desde outubro de 2012, Varginha foi escolhida por Francisco para uma missa e uma bênção de seus habitantes nesse estádio de futebol improvável. Uma visita muito simbólica para esse papa, que tem se esforçado para encarnar "uma igreja pobre para os pobres".
Para sua vinda, a rua principal Carlos Chagas foi asfaltada no mês passado. A pequena igreja católica São Jerônimo Emiliani, situada logo na entrada da comunidade, quase imperceptível aos passantes desavisados, foi embelezada e parcialmente renovada.

"Dádiva"

"Sua vinda é uma dádiva, mas poucas famílias foram escolhidas para se sentar ao lado do papa na igreja, o resto dos lugares será ocupado pelas autoridades", lamenta amargamente Damião, católico praticante, pai de uma filha e vizinho do edifício.
Jairzinho não recebeu convite. Ele chega a hesitar sobre sua vinda. "Sou católico, mas estou esperando para ver concretamente o que o papa dirá sobre o tema da pobreza. É uma atitude, sabe, um comportamento."
Mais adiante, no final dessa rua principal, passando uma pequena praça que antigamente era visivelmente tomada por traficantes armados, a minúscula sala de orações de São Sebastião parece ter parado no tempo. A "outra" igreja de Varginha só abre de uma a duas vezes por ano. Dona Ana Alves de Souza, 76, tem a chave. Usando um vestido preto, uma pequena cruz em torno do pescoço, ela mora logo em frente.
Ela, que veio de Belo Horizonte há 36 anos, se instalou nesse bairro, na época tranquilo e arborizado, para trabalhar como faxineira. "Na época todo mundo era católico aqui", diz. "Perdemos fiéis, mas as coisas estão mudando. As relações com os evangélicos estão se amenizando. Eles parecem menos fanáticos que antes. Isso vai melhorar ainda mais com esse papa, com quem as pessoas se identificam mais."

"Barreira muito forte"

Como todas as favelas da periferia carioca, Varginha passou nesses últimos anos por uma forte ascensão das igrejas evangélicas. Nesse pequeno território de somente 400 metros de extensão e onde a renda média gira em torno de R$ 700 a R$ 1.000 por família, a comunidade possui nada menos que cinco locais de culto pentecostais e batistas.
Aqui, quase metade da população é evangélica ou afiliada. À sua maneira, Varginha é um microcosmo do Estado do Rio de Janeiro, o menos católico do Brasil, com quase 55% de fiéis.
A pastora Claudia, 38, mãe de três filhos, admite: "Com os católicos, existia uma barreira muito forte. Mas eles estão mudando, é recente". Segurança do templo Ebenezer, onde se reúnem cerca de 45 pessoas de duas a três vezes por semana, ela diz, categórica: "Assim como outros, irei para minha igreja para rezar e depois voltarei para casa. Para quê ir ver o papa? É um homem como os outros, uma pessoa normal, ele mesmo não diz isso?"
O padre Marcio Queiroz, 45, exibe um sorriso de satisfação. "Tempos melhores virão", diz acreditar o pároco de São Jerônimo Emiliani. "Nossa comunidade acolherá o papa com fé e um grande respeito". Ao seu lado, Everaldo Oliveira, 42, é membro da paróquia e ajuda o padre Queiroz em seus últimos preparativos. "O Francisco é próximo dos pobres, como pode ter sido João Paulo 2º", ele diz. "As pessoas aqui têm uma concepção mais social da igreja. Tenho confiança."
Tradutor: UOL

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