sexta-feira, 26 de julho de 2013

Em visita a favela do Rio, papa pede aos jovens que lutem contra a corrupção
Simon Romero e Taylor Barnes - NYT
Antonio Lacerda/EFE

Papa Francisco abençoa menino durante visita à favela Varginha, no Complexo de Manguinhos, nesta quintaPapa Francisco abençoa menino durante visita à favela Varginha, no Complexo de Manguinhos, nesta quinta
O papa Francisco fez na quinta-feira (25) alguns de seus comentários politicamente mais provocadores desde o início de seu papado neste ano, descendo do papamóvel para caminhar por uma favela desta cidade, antes de pedir aos jovens que lutem contra a corrupção, uma grande queixa por trás dos protestos de rua que sacudiram dezenas de cidades brasileiras em junho.
"Não se acostumem com o mal, mas sim a vencê-lo com o bem", disse o papa Francisco na favela de Varginha, em uma área conhecida aqui como Faixa de Gaza, por causa de seus tiroteios e tráfico de drogas no passado. "Não desanimem, não percam a confiança, não deixem que se apague a esperança", ele acrescentou, reconhecendo ser comum que alguns "se desiludem com notícias que falam de corrupção".
Ao destacar a corrupção em uma visita a uma favela brasileira em sua primeira viagem ao exterior como papa, Francisco, um jesuíta nascido na Argentina, enfatizou sua meta de voltar o foco da Igreja Católica Romana às margens negligenciadas da sociedade, especialmente no Brasil e em outras partes da América Latina, onde a popularidade das igrejas evangélicas aumentou entre os pobres nas últimas décadas.
Em um aceno às autoridades políticas brasileiras que o receberam calorosamente, o papa Francisco também elogiou os programas antipobreza do governo e não mencionou especificamente os protestos antiestablishment no Brasil.
Mas ele criticou o chamado projeto de pacificação das favelas do Rio de Janeiro, no qual forças de segurança estabelecem o controle de áreas sem lei.
"Nenhum esforço de pacificação será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia parte de si mesma", disse o papa em Varginha, uma favela que foi recentemente submetida a pacificação. Em um comentário que pode repercutir na América Latina e nos Estados Unidos, que lidam com a crescente disparidade entre ricos e pobres, o papa Francisco disse que a sociedade "empobrece" ao perpetuar essa desigualdade.
O cuidado com os pobres e marginalizados é uma parte integral do ensinamento católico, e uma preocupação de muitos papas e encíclicas, incluindo as do antecessor de Francisco, Bento 16. Mas Francisco transformou isso em um marco de seu jovem papado, dizendo aos jornalistas em Roma, dias após sua eleição: "Como eu gostaria de uma Igreja que fosse pobre e para os pobres".
Ele demonstrou esse ideal ao viver de modo relativamente humilde como papa: em uma casa de hóspedes comunal em vez de um apartamento papal opulento, usando uma cruz peitoral de ferro em vez de ouro, viajando em voos comerciais. Ele disse recentemente aos padres que eles não devem dirigir carros luxuosos e percorreu o Rio nesta semana em um Fiat compacto.  
"Ele está ajudando a acordar as pessoas", disse Natalia Morais, 21 anos, uma estudante de enfermagem do Estado de Minas Gerais, que viajou ao Rio para ver o papa como parte do Dia Mundial da Juventude, uma conferência que contou com a presença de centenas de milhares de jovens católicos. "Quando o papa fala, líderes políticos escutam, e isso é o que é preciso no Brasil, onde nossos protestos são contra a corrupção deles."
Indo além do Brasil, Francisco disse aos argentinos presentes aqui para a conferência que "a Igreja deve ser levada às ruas" em uma luta contra a complacência. "Agitem as coisas, causem confusão, mas sem perder a fé em Jesus Cristo", ele disse em espanhol.
Nem todos os brasileiros ficaram empolgados com a visita de Francisco, que tem recebido cobertura detalhada pela mídia local. Alguns cristãos evangélicos, que representam aproximadamente 22% da população do país, apontaram que a Igreja Católica desfruta de muitos privilégios no Brasil, incluindo milhões de dólares em gastos públicos para a visita do papa.
"A Igreja Católica sempre teve muito dinheiro e apoio do governo", disse Elizeu Sousa Teixeira, 31 anos, um segurança em uma igreja evangélica em Brasília, a capital. "É uma coisa política."
Em cada uma das aparições públicas de Francisco, ele tem sido recebido como um astro do rock. Em uma manhã anormalmente fria e chuvosa, centenas de moradores margearam as ruas estreitas e enlameadas da favela de Varginha para um vislumbre do primeiro papa das Américas, que agradeceu parando com frequência para tocar e abençoar as pessoas.
Muitos espectadores fizeram suas próprias camisetas para comemorar o evento, com uma foto de Francisco. Outros se envolveram em bandeiras brasileiras e acenavam faixas com a imagem dele.
Os moradores entravam e saíam de suas casas, checando pela televisão e pelo rádio onde estava o papa e pedindo informação aos vizinhos que estavam sobre lajes molhadas e tinham uma vista melhor. Sônia Curato, uma manicure de 48 anos, disse que a visita do papa foi diferente das de outros líderes. "Políticos vêm o tempo todo. Eles fazem promessas e vão embora", ela disse. "Ele é uma pessoa muito simples. Dá para dizer isso. Ele tem carisma. Ele fala para as pessoas, não fica circulando em um carro blindado."
Outros se concentravam nas oportunidades que a visita proporcionava. Josenil Guedes da Silva, 36 anos, veio de sua casa no Recife até a favela para vender souvenires, incluindo uma caneca com a foto do papa por R$ 10. Com 600 canecas e mil chaveiros, ele disse, "eu vim para fazer negócios".
Tradutor: George El Khouri Andolfato

Nenhum comentário: