El Pais
25.jul.2013 - Luca Zennaro/EFE

Papa Francisco abençoa bebê durante sua visita à favela Varginha, no Complexo de Manguinhos, no Rio
O papa Francisco chegou finalmente à periferia. Depois de repetir algumas vezes nos últimos quatro meses que a igreja deve abandonar o centro --os cômodos palácios do ensimesmamento-- e buscar os arrabaldes do mundo, locais onde faltam pão e justiça, Jorge Mario Bergoglio chegou a uma favela do Rio de Janeiro, misturou-se com os moradores e lançou uma mensagem muito clara: "Nenhum esforço de pacificação será duradouro para uma sociedade que ignora, marginaliza e abandona na periferia uma parte de si mesma. A medida da grandeza de uma sociedade é determinada pela forma como trata os mais necessitados, os que não têm outra coisa além de sua pobreza".
Depois de percorrer Varginha, um bairro de cerca de 2.000 habitantes no centro da favela de Manguinhos, o papa dirige uma mensagem aos jovens, verdadeiros protagonistas dos últimos protestos no Brasil, para lhes pedir que não se abandonem ao desânimo. "Vocês têm uma sensibilidade especial diante da injustiça, mas muitas vezes se sentem fraudados pelos casos de corrupção, pelas pessoas que, em vez de buscarem o bem comum, perseguem seu próprio interesse. A vocês e a todos, repito: nunca desanimem, não percam a confiança, não deixem que a esperança se apague. A realidade pode mudar, o homem pode mudar. Não se habituem ao mal, senão a vencê-lo."
Desde que iniciou a viagem para a Jornada Mundial da Juventude, as principais intervenções de Bergoglio --as palavras aos jornalistas no voo papal, a homilia no santuário de Aparecida, sua mensagem diante dos dependentes de drogas no hospital São Francisco de Assis e seu discurso na favela-- foram caracterizadas por um marcado conteúdo social. Suas intervenções não pretendem se circunscrever à comunidade cristã, senão ir muito além. O papa argentino utiliza com habilidade o alto-falante de sua popularidade para tentar influir, mudar as coisas. Com frequência, Bergoglio apresenta a igreja como acompanhante dos bons propósitos, nunca como caminho único e excludente. Diante dos jovens atingidos pelas drogas ou dos deserdados das favelas, usa a mesma fórmula: "A igreja não é alheia a seu cansaço, e sim o acompanha com afeto".
O papa do sorriso e do carro simples nunca apresenta Jesus como o todo-poderoso que tudo vê, disposto a condenar ao inferno quem ultrapassar os limites, senão como um Cristo que duvidou e sofreu na cruz, sempre disposto a ajudar. Talvez pertençam à mesma empresa e vendam o mesmo produto, mas o cardeal espanhol Rouco Varela --para dar só um exemplo-- e o bispo argentino de Roma utilizam aromas muito diferentes. Das bolas de cânfora à água fresca. Da resignação cristã à santa indignação.
Em seu discurso na favela, Jorge Mario Bergoglio disse: "Eu gostaria de fazer um apelo aos que têm mais recursos, aos poderes públicos e a todos os homens de boa vontade comprometidos com a justiça social: que não se cansem de trabalhar por um mundo mais justo e mais solidário. Ninguém pode permanecer indiferente diante das desigualdades que ainda existem no mundo. Que cada um, segundo suas possibilidades e responsabilidades, ofereça sua contribuição para pôr fim a tantas injustiças sociais. Não é a cultura do egoísmo, do individualismo, que muitas vezes regulam nossa sociedade, a que constrói e leva a um mundo mais habitável, e sim uma cultura da solidariedade; não ver no outro um concorrente, e sim um irmão".
Ao chegar à favela de Varginha, o papa Francisco só precisou de duas frases para pôr as pessoas no bolso. Disse que, desde o princípio, ao programar a viagem ao Brasil, seu desejo era visitar os bairros pobres: "Gostaria de bater em cada porta, dizer bom dia, pedir um copo de água, tomar um cafezinho, não cachaça, falar como amigo da casa, escutar o coração de cada um, dos pais, dos filhos, dos avós. Mas o Brasil é tão grande! Por isso escolhi vir aqui..."
Até sete meses atrás, o controle da favela de Manguinhos era exercido pelos traficantes locais, em tiroteios contra a polícia e os bandidos vizinhos. Agora existe uma paz precária, artificial, imposta a coronhadas.
Das 500 favelas do Rio, só cerca de 20 foram pacificadas. São uma exceção. A realidade é mais dura: 6% dos brasileiros --cerca de 11 milhões de pessoas-- continuam vivendo em favelas, onde os serviços mais básicos são artigos de luxo. A visita cordial do papa Francisco as tirou da invisibilidade durante algumas horas. Amara Oliveira, 82, inclusive foi à manicure. Sua casa foi uma das pré-escolhidas para receber o papa. Nos dias anteriores à visita, contou que toda a sua vida trabalhou como vendedora de ingressos em um cinema, mas que nem sequer teve dinheiro para ver um filme. É o destino de uma estirpe para a qual até sonhar é proibido.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Papa Francisco abençoa bebê durante sua visita à favela Varginha, no Complexo de Manguinhos, no Rio
O papa Francisco chegou finalmente à periferia. Depois de repetir algumas vezes nos últimos quatro meses que a igreja deve abandonar o centro --os cômodos palácios do ensimesmamento-- e buscar os arrabaldes do mundo, locais onde faltam pão e justiça, Jorge Mario Bergoglio chegou a uma favela do Rio de Janeiro, misturou-se com os moradores e lançou uma mensagem muito clara: "Nenhum esforço de pacificação será duradouro para uma sociedade que ignora, marginaliza e abandona na periferia uma parte de si mesma. A medida da grandeza de uma sociedade é determinada pela forma como trata os mais necessitados, os que não têm outra coisa além de sua pobreza".
Depois de percorrer Varginha, um bairro de cerca de 2.000 habitantes no centro da favela de Manguinhos, o papa dirige uma mensagem aos jovens, verdadeiros protagonistas dos últimos protestos no Brasil, para lhes pedir que não se abandonem ao desânimo. "Vocês têm uma sensibilidade especial diante da injustiça, mas muitas vezes se sentem fraudados pelos casos de corrupção, pelas pessoas que, em vez de buscarem o bem comum, perseguem seu próprio interesse. A vocês e a todos, repito: nunca desanimem, não percam a confiança, não deixem que a esperança se apague. A realidade pode mudar, o homem pode mudar. Não se habituem ao mal, senão a vencê-lo."
Desde que iniciou a viagem para a Jornada Mundial da Juventude, as principais intervenções de Bergoglio --as palavras aos jornalistas no voo papal, a homilia no santuário de Aparecida, sua mensagem diante dos dependentes de drogas no hospital São Francisco de Assis e seu discurso na favela-- foram caracterizadas por um marcado conteúdo social. Suas intervenções não pretendem se circunscrever à comunidade cristã, senão ir muito além. O papa argentino utiliza com habilidade o alto-falante de sua popularidade para tentar influir, mudar as coisas. Com frequência, Bergoglio apresenta a igreja como acompanhante dos bons propósitos, nunca como caminho único e excludente. Diante dos jovens atingidos pelas drogas ou dos deserdados das favelas, usa a mesma fórmula: "A igreja não é alheia a seu cansaço, e sim o acompanha com afeto".
O papa do sorriso e do carro simples nunca apresenta Jesus como o todo-poderoso que tudo vê, disposto a condenar ao inferno quem ultrapassar os limites, senão como um Cristo que duvidou e sofreu na cruz, sempre disposto a ajudar. Talvez pertençam à mesma empresa e vendam o mesmo produto, mas o cardeal espanhol Rouco Varela --para dar só um exemplo-- e o bispo argentino de Roma utilizam aromas muito diferentes. Das bolas de cânfora à água fresca. Da resignação cristã à santa indignação.
Em seu discurso na favela, Jorge Mario Bergoglio disse: "Eu gostaria de fazer um apelo aos que têm mais recursos, aos poderes públicos e a todos os homens de boa vontade comprometidos com a justiça social: que não se cansem de trabalhar por um mundo mais justo e mais solidário. Ninguém pode permanecer indiferente diante das desigualdades que ainda existem no mundo. Que cada um, segundo suas possibilidades e responsabilidades, ofereça sua contribuição para pôr fim a tantas injustiças sociais. Não é a cultura do egoísmo, do individualismo, que muitas vezes regulam nossa sociedade, a que constrói e leva a um mundo mais habitável, e sim uma cultura da solidariedade; não ver no outro um concorrente, e sim um irmão".
Ao chegar à favela de Varginha, o papa Francisco só precisou de duas frases para pôr as pessoas no bolso. Disse que, desde o princípio, ao programar a viagem ao Brasil, seu desejo era visitar os bairros pobres: "Gostaria de bater em cada porta, dizer bom dia, pedir um copo de água, tomar um cafezinho, não cachaça, falar como amigo da casa, escutar o coração de cada um, dos pais, dos filhos, dos avós. Mas o Brasil é tão grande! Por isso escolhi vir aqui..."
Até sete meses atrás, o controle da favela de Manguinhos era exercido pelos traficantes locais, em tiroteios contra a polícia e os bandidos vizinhos. Agora existe uma paz precária, artificial, imposta a coronhadas.
Das 500 favelas do Rio, só cerca de 20 foram pacificadas. São uma exceção. A realidade é mais dura: 6% dos brasileiros --cerca de 11 milhões de pessoas-- continuam vivendo em favelas, onde os serviços mais básicos são artigos de luxo. A visita cordial do papa Francisco as tirou da invisibilidade durante algumas horas. Amara Oliveira, 82, inclusive foi à manicure. Sua casa foi uma das pré-escolhidas para receber o papa. Nos dias anteriores à visita, contou que toda a sua vida trabalhou como vendedora de ingressos em um cinema, mas que nem sequer teve dinheiro para ver um filme. É o destino de uma estirpe para a qual até sonhar é proibido.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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