sábado, 26 de outubro de 2013

Nem todos concordam com conteúdo no Facebook acessível aos adolescentes
Carolina García - El Pais
O Facebook decidiu relaxar suas normas de privacidade para os adolescentes. E isso provocou as inevitáveis críticas dos que consideram que a rede renuncia a proteger especialmente os usuários mais jovens, com o fim de ganhar participação de mercado diante de seus concorrentes e facilitar o acesso dos anunciantes a um público jovem e especialmente atraente para as marcas.
Diante das críticas, o Facebook respondeu com um argumento contundente: o usuário jovem é nativo digital e por isso tem um conhecimento muito mais sofisticado da rede, suas possibilidades e seus riscos. Os jovens não só não estariam em risco como de fato têm todo o direito de reivindicar o pleno uso da rede.  
"Os adolescentes estão entre os usuários mais inteligentes da mídia social. Com essa medida, queremos fazer frente à crescente demanda por parte desse setor da população de criar em modo público, mas fazê-lo de uma maneira que seja segura e que garanta que estes recebam educação suficiente para ser capazes de tomar decisões informadas", explica ao "El País" um porta-voz da empresa. "Trata-se de uma participação cívica e ativista. São pessoas que expressam sua opinião sobre diferentes temas, tanto na hora de criticar um novo filme como de elogiar um novo produto. Querem ser escutados, por exemplo, como ocorreu no caso de Malala Yousafzai", acrescenta. O Facebook argumenta que Malala, um verdadeiro ícone global contra o radicalismo, não teria podido utilizar o Facebook por ser menor de 17 anos.
Até agora os mais jovens só podiam compartilhar seus conteúdos com amigos ou amigos de amigos. Há uma semana, os que tiverem entre 13 anos (idade mínima para abrir uma conta na rede social) e 17 poderão compartilhar, se quiserem, em modo público (acessível a todos) suas fotografias, seu estado e seus comentários.
Esses menores também poderão utilizar a função de acompanhamento, que permite receber automaticamente mensagens públicas de outros, sem necessidade de que os dois estejam conectados. "Os perfis poderão ser públicos se o desejarem; as mudanças são de efeito imediato", explicam na companhia.
Maddy Smith, 13, comenta, enquanto come com seus colegas de um colégio do distrito de Washington, que não tem Facebook e acredita que não o terá. "Meus pais não querem, não gostam. Acreditam que só se falam besteiras", explica. Zay Zobey, também de 13, diz no refeitório do Edifício Nacional da Imprensa que ela sim, tem uma conta, que usa sobretudo para manter contato com seus colegas de colégio e do acampamento de verão. "Estou preocupada porque nossos comentários agora podem ser públicos. Não me sinto segura, continuarei tendo minha privacidade só para meus amigos", anuncia.
"Trata-se de um passo muito positivo e algo que vimos deliberando há muito tempo. Os jovens de hoje são nativos das plataformas digitais; absorvem melhor as mudanças, com menos dramaticidade que as gerações mais velhas", indicam na empresa.
Joy Spencer, membro do Centro para Democracia Digital, organização que trabalha para que a Internet continue sendo um espaço aberto, diversificado e democrático, acredita que se trata de apenas mais um passo em uma política da empresa de constante ajuste aos limites considerados toleráveis na rede. "Esse anúncio é simplesmente uma continuação de sua estratégia para continuar sendo a rede social líder e defender-se da ameaça de outros, como Twitter ou Google+", argumenta. "A norma que antes impedia os adolescentes de publicar livremente em sua página era um reflexo da demanda social por protegê-los. Com essas mudanças, o Facebook reconhece que os adolescentes são participantes ativos do debate cultural atual", acrescenta.
Spencer reconhece que a decisão tem importantes efeitos publicitários. "Afetará positivamente as empresas anunciantes, já que esse setor da população agora será mais visível." E alerta sobre alguns riscos: "As mudanças, que implicam uma análise exaustiva de uma grande quantidade de dados, também acarreta que, ao compartilhar suas opiniões, exista o risco de se expor muita informação sobre o que são, seus movimentos e suas preferências", acrescenta o especialista.
O Facebook responde a essas preocupações afirmando que adotou medidas para alertar os adolescentes sobre o que significa compartilhar conteúdos em modo público. "Introduzimos ferramentas adicionais para educar esses jovens sobre as implicações que tem compartilhar informação com uma audiência pública", explica seu porta-voz.
Quando os menores publicarem algo em sua página, a informação só será visível para seus amigos em um primeiro momento. Se o adolescente decidir mudá-la para público poderá fazê-lo, mas antes terá que ler um quadro informativo onde se explica o que significa a mudança. A mensagem adverte que "pode acarretar que qualquer um possa ter acesso a sua conta e seu perfil".
A rede social, que nasceu há nove anos e conta com cerca de 1,2 bilhão de usuários em todo o mundo, não conseguiu convencer muitos sobre o acerto de sua decisão. Alexis Vanni, coordenador de comunicação da Common Sense Media, uma companhia dedicada a "melhorar a qualidade de vida dos menores e suas famílias, proporcionando-lhes informação verossímil e independente", afirma que "o fato de o Facebook dar aos jovens a oportunidade de saber que o que acabam de publicar poderá ser visto além de seus amigos e amigos de amigos pode parecer que é para seu próprio bem, mas na realidade com esse passo está dando à rede social a oportunidade de contar com toda essa informação para conseguir mais anunciantes".
O Facebook arrecadou no último trimestre 1,16 bilhão de euros em publicidade, 30% a mais que no mesmo período do ano anterior. De tudo isso, 41% chegam através de celulares e tablets, de onde já se conectam 51% de seu público. Até o final do ano, a empresa anunciou a inserção de vídeos publicitários.
A declaração de direitos e responsabilidades do Facebook estabelece que o usuário detém os direitos de propriedade intelectual do conteúdo que publica, mas ao carregar imagens ou textos na página como públicos, concede à rede social uma licença para empregar e mostrar esses conteúdos dentro de seu sistema. O único limite que o Facebook tem para utilizar esses conteúdos é determinado pelos usuários com a personalização das políticas de privacidade de sua própria conta.
"Essas grandes companhias de comunicação e tecnologia têm um enorme interesse em convencer seus consumidores a compartilhar a maior informação possível, de forma que possam ter acesso a ela facilmente e colocá-la a serviço da publicidade; não pensam em proteger a privacidade do usuário", prossegue Vanni. Spencer, membro da organização que trabalha para que a Internet continue sendo um espaço aberto, considera que o Facebook está desgastando cada vez mais o direito à privacidade dos cidadãos em todo o mundo, incluindo a UE e os EUA. "Além disso, permite que as empresas de publicidade vigiem nossas vidas", acrescenta. Na sua opinião, "promovendo comida 'lixo' e outras práticas preocupantes, mas a nova política põe os adolescentes em maior risco".
Em uma economia cada vez mais baseada na recompilação, interpretação e exploração comercial dos dados, é difícil não pensar que a modificação dos termos de uso para adolescentes tem um sentido comercial. Os adolescentes sempre foram um grupo demográfico especialmente cobiçado pelas companhias de publicidade. São mais propensos a consumir artigos como roupas, comida 'lixo' ou tecnologia. Para os pais, a medida tem aspectos preocupantes, mas também um derivado que muitos consideraram positivo. Por um lado, aumenta o risco de que seus filhos possam ser objeto de ofensivas comerciais mais agressivas, e por outro eleva significativamente o público potencial do que é publicado por seus filhos.
O risco de que os mais jovens coloquem na rede conteúdo inadequado ou que possa resultar lesivo para outros ou para eles mesmos já existia, mas pelo menos sua visibilidade estava circunscrita a um universo mais reduzido. Com as novas normas, será acessível a todos. Inclusive para os próprios pais, que até agora eram excluídos de toda atividade de seus filhos no Facebook, a menos que estes ou seus amigos os aceitassem como amigos. A partir de agora, mesmo que sejam rejeitados, poderão ter um maior conhecimento graças ao botão "acompanhamento".
"As novas normas do Facebook exigem que haja uma educação constante e dirigida aos adolescentes. Estes têm que lembrar que se mudarem a segurança para pública logo terão de voltar a mudá-la manualmente. Esse passo é fundamental", explica Hemu Nigan, fundador da SSP Blue, companhia de segurança e privacidade online. "Como profissionais que verificamos a segurança na Internet, não pensamos que a mudança de política do Facebook vá fazer que ocorram mais casos de abuso de menores, tanto escolar como sexual, já que normalmente esses episódios surgem entre conhecidos, e não entre estranhos", opina.
Alguns especialistas advertem que a simples mudança de configuração não vai atrair os adolescentes para o Facebook. Em um estudo recente elaborado pelo Instituto Pew, os jovens demonstraram "pouco entusiasmo" por essa nova medida. Trata-se de um segmento de população que se comunica e tem acesso à rede basicamente através de dispositivos móveis. Fazem-no por meio de smartphones, e nestes é muito mais fácil e imediato enviar uma foto para o Instagram do que publicar uma atualização no Facebook. Para eles, o tempo necessário para publicar algo nessa rede é "longo demais" e consideram que o Facebook é "complicado", segundo esse trabalho.
Estimativas diferentes calculam em 7,5 milhões o número de menores de 13 anos que têm um perfil no Facebook. "Quando um menor dessa idade se registra nessa rede social, o Facebook assume que tem a autorização de um tutor ou pai e não o verifica", conclui um relatório elaborado pelo grupo Consumer Reports em 2011. Isto é, esses 7,5 milhões de menores de 13 anos também foram transformados, de fato, em maiores de idade no Facebook.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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