domingo, 3 de março de 2013

De cães presos em tocas de texugos a vacas em piscinas congeladas, bombeiros alemães têm sobrecarga de resgate de animais
Guido Kleinhubbert - Der Spiegel
Reprodução/Orange News

Tinka após sua breve passagem pela chaminé
Tinka após sua breve passagem pela chaminé
Nem sempre é necessário um incêndio numa casa para que 23 bombeiros em cinco caminhões sejam acionados. Às vezes, basta um gato chamado Murphy, que escorregou ao explorar os telhados e caiu por uma chaminé.
Esse incidente específico aconteceu em Dellbrück, um bairro da cidade de Colônia. As equipes de resgate que responderam ao acidente de Murphy primeiro fecharam parte de uma rua movimentada para abrir espaço para seu caminhão com escada. Elas então usaram uma câmera de alta tecnologia para encontrar a localização precisa do gato. O custo de toda a operação foi de cerca de 3 mil euros.
O resgate de Murphy é um exemplo de um dia normal na vida de um bombeiro alemão. Quer sejam voluntários ou profissionais, os departamentos de bombeiros da Alemanha respondem a mais de 40 mil casos por ano de animais que precisam de resgate.
As últimas semanas têm sido "a temporada do bote inflável", o que significa que os bombeiros são regularmente chamados de barco para recuperar os cães que, enquanto passeavam sem coleira, correram para lagos ou lagoas congeladas e caíram na água por entre o gelo.
Um resgate de cachorro por 14 mil euros
Com os orçamentos apertados, muitas cidades e vilas estão debatendo quem deve pagar por essas caras operações de salvamento: os proprietários dos animais de estimação ou os contribuintes?
Não há dúvida de que os bombeiros têm a obrigação de responder em casos de perigo mortal para os animais, assim como para seres humanos.
Mas os estados federais da Alemanha variam muito na visão que têm sobre quem deve cobrir os custos disso. Na Renânia do Norte-Vestfália, por exemplo, onde fica Colônia, os donos são obrigados a pagar por esses resgates só quando eles causam intencionalmente o sofrimento do animal.
No caso de Murphy, isso significa que o dono do gato teria que ter jogado pessoalmente Murphy pela chaminé para ser responsabilizado. O departamento de bombeiros de Berlim, entretanto, é mais rigoroso. Moradores da capital alemã devem, por exemplo, manter seus cães na coleira.
Algumas semanas atrás, um terrier chamado Skipper arrastou-se para dentro da toca de um texugo em Berlim e ficou preso entre raízes de árvores. Era uma situação em que cada minuto contava, então mais de 40 bombeiros e membros da Agência Federal de Socorro Técnico chegaram para buscar o cão, cavando buracos de até três metros de profundidade no chão.
Quando Skipper foi finalmente resgatado, depois de sete horas de trabalho, o custo da operação havia excedido os 14 euros. Advogados da prefeitura passaram dois meses examinando o caso, e no final o dono do Skipper recebeu a conta.
"Simplesmente não pode ser que o público em geral tenha que pagar pelos donos de animais que não cuidam de seus bichos de estimação e não os mantêm na coleira", diz Jens-Peter Wilke, porta-voz do departamento de bombeiros de Berlim.
A associação de bombeiros da Alemanha considera o resgate de animais "um dever importante", diz a porta-voz Silvia Darmstädter, mas acrescenta que os proprietários costumam tirar conclusões precipitadas e achar que seus animais de estimação estão em perigo mortal. No caso de um cão preso numa toca de um texugo, diz ela, chamar os bombeiros é provavelmente justificável, mas fazer isso para um gato em cima de uma árvore provavelmente não é.
"A maioria dos gatos eventualmentem se atreve a descer quando começa a ficar com fome", explica Darmstädter. Na verdade, diz ela, muitas vezes basta colocar alimento perto da árvore. Os donos de animais que não estão dispostos a esperar, e em vez disso chamam os bombeiros para ajudar, devem ser os responsáveis por pagar a conta, sugere Darmstädter.
Absolutamente sem coração
Explicar esta posição para os donos preocupados, entretanto, pode ser uma tarefa complicada. O corpo de bombeiros da cidade de Osnabrück aprendeu a lição depois de receber cinco chamadas no espaço de alguns minutos sobre um gato preso numa árvore.
O corpo de bombeiros se recusou a enviar um caminhão, argumentando que um gato doméstico poderia ficar até três dias numa árvore sem sofrer nada de mal. Um jornal local relatou a história, depois de ter sido contatado por uma mãe que escreveu que sua filha, que tinha visto inúmeras fotos de bombeiros resgatando gatos nos livros infantis, ficou devastada com a recusa.
"Fizeram-nos parecer totalmente sem coração", diz Jan Südmersen, chefe do departamento de bombeiros de Osnabrück. Agora, a prefeitura e está criando um grupo voluntário de resgate de animais, que dará assistência ao departamento de bombeiros. Esta unidade especial também pode responder em casos de fuga de periquitos ou pombos, ou quando, como ocorreu na cidade alemã de Windeck em dezembro, uma vaca que fugia de um açougueiro pulou numa piscina.
Às vezes, porém, as pessoas ligam para o número de emergência 112 sem ter um bom motivo. O departamento de bombeiros de Osnabrück recebeu uma chamada sobre um hamster preso num ralo, por exemplo. Até um sapo comum que estava no canto de um porão se transformou numa emergência – a pessoa não queria se aproximar muito do anfíbio, porque pensou que poderia ser um sapo venenoso.
Também aconteceu que, no caso de Murphy, o gato que caiu da chaminé em Colônia, o proprietário poderia ter esperado antes de chamar os bombeiros. Tendo fracassado em tirar o gato da chaminé depois de quatro horas de trabalho, os bombeiros foram embora, planejando voltar no dia seguinte para começar a cortar a chaminé.
Mas, para a sorte de todos os interessados - Murphy, o proprietário e os bombeiros - naquele mesmo dia, um limpador de chaminés de 70 anos de idade que trabalhava no bairro e tinha ouvido falar sobre a situação passou por lá. O homem subiu no telhado e avançou sem medo para dentro da chaminé. Dez minutos mais tarde, Murphy estava livre.
Tradutor: Eloise De Vylder

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