ONG que turbinou o ‘Fora, Renan’ desperta discussão sobre ativismo na internet
Com 20 milhões de seguidores no mundo a Avaaz ajuda a empunhar bandeiras em pelo menos 194 países
Maiá Menezes - O Globo
RIO — Um viral novo toma como mantra as redes, em frequência planetária. O grito coletivo contra a escolha do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), chamou a atenção para o púlpito que a amplificou. Com 20 milhões de seguidores no mundo — e crescendo —, a ONG Avaaz ajuda a empunhar bandeiras sincréticas em pelo menos 194 países. Exemplos: a Comissão Europeia recebeu, em janeiro, petição com 2,5 milhões de assinaturas pedindo a suspensão da venda de três venenos letais contra abelhas; nos Estados Unidos, a Avaaz tem 989 mil adesões contra a proliferação do chamado peixe-Frankstein, a primeira forma de peixe modificado do mundo, ou salmão-mutante. Na esfera política, a trincheira incluiu, em janeiro de 2011, a megaconvocação para a manifestação contra o presidente egípcio Hosni Mubarak, na Praça Tahir, no Centro do Cairo, pouco antes de sua renúncia, em fevereiro.
São milhares de ações paralelas, azeitadas pela agilidade e amplitude da internet. Há quatro semanas, Antonio Carlos Costa, da ONG Rio de Paz, fez a petição contra a escolha de Renan no site da Avaaz.— As pessoas não pararam de assinar. Eu disse: “O negócio vai pegar fogo.” Tinha um certo ceticismo, porque não temos cultura de petição. Depois que colocamos no site, aquilo cresceu. O que aconteceu é um turning point na democracia — diz Antonio Carlos, que agora vai defender a criação de um instrumento de envio de petições igual ao da ONG internacional no site do Senado e da Câmara.
Depois de sacramentada a escolha de Renan, dois jovens de Ribeirão Preto, Emiliano Magalhães Netto e Eduardo Cruz, entraram com uma petição no site da Avaaz pedindo o impeachment do senador. No total, foram 1,6 milhão de assinaturas. Em fevereiro, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, confirmou três acusações contra o presidente do Senado: peculato, falsidade ideológica e uso de documentos falsos.
— A política pela internet é menos política? Claro que não. As pessoas passam um tempo tão grande na rede, no Brasil mais do que em outros países, que dizer que ela não é um espaço válido para fazer política desvaloriza parte da vida delas. A internet transformou a cultura e a economia e está transformando a política — teoriza Pedro Abramovay, secretário nacional de Justiça na gestão Lula, diretor de campanhas da Avaaz no Brasil.
Abramovay, de 32 anos, o ministro da Justiça mais jovem do Brasil ao assumir a pasta na viagem do titular, em 2009, reage, com o desabafo acima, a críticas contemporâneas que crescem na mesma progressão do uso da rede como instrumento político: a de que o ativismo virtual é preguiçoso e negligente. Ele mesmo é um intrépido. Em janeiro, embrenhou-se na Amazônia equatoriana em nome de uma campanha contra a exploração do petróleo na região. O ativista conta ter sido escolhido para o cargo depois de enviar o currículo e passar por um longo processo de seleção.
— Eu vejo um monte de ativismo inútil tanto na internet quanto fora dela. Online, os piores slacktivists são na verdade empresas privadas, sites que usam petições para coletar endereços de e-mail para vender. A questão não é a ferramenta que você usa, mas como a usa — concorda Ricken Patel, presidente da Avaaz.
Aos 36 anos, Patel tem expertise virtual — leia-se, poder. Formado na Universidade de Filosofia, Política e Economia de Oxford, o canadense fez mestrado em Políticas Públicas em Harvard, já morou em Serra Leoa, Libéria, Sudão e Afeganistão. Opera ainda a Res Publica e a Faith in Public, ambas com o mesmo perfil da Avaaz. Por princípio, a ONG não aceita doações de empresas ou de governos. Na declaração de renda que apresentou ao fisco americano referente ao ano de 2009, informou ter recebido US$ 4,7 milhões. Os diretores são remunerados a partir das doações, o que suscita, aqui e lá fora, reações de críticos. A Avaaz reage afirmando que a arrecadação é transparente. Tanto Patel quanto Abramovay atribuem a capilaridade da ONG à equipe de advogados e voluntários que atuam nela. Nos Estados Unidos, onde o lobby é legalizado, o poder de atuação deles aumenta.
Criada em 2007, a ONG não é notável apenas em seus números superlativos. As causas, politicamente corretíssimas, ganham adesões do mundo pop. Leonardo DiCaprio, notório ativista, se juntou à ONG para pedir aos governos de Rússia e Coreia do Sul que desistam da oposição à criação de um santuário marinho para proteção de ecossistemas no Oceano Ártico. No Rio e em Copenhague, a causa ambiental também já foi alvo da ONG.
— Tem absolutamente de tudo. Senhoras mais velhas, jovens, adolescentes. Campanhas estimuladas por celebridades acabam motivando quem não estava engajado — diz Abramovay.
Para Patel, há uma marcha de democracia “varrendo o mundo”, especialmente nas lutas contra a corrupção, como na Índia.
Valor jurídico não há no abaixo assinado anti-Renan, porque é virtual. Mas o barulho foi ouvido.
— Tornou-se completamente viral. As pessoas já mandaram milhares de e-mails para os senadores, pedindo que se posicionem. O sentimento delas foi ouvido em Brasília, não ficou restrito a conversas de bar — comemora Abramovay.
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