segunda-feira, 4 de março de 2013

Relógio parado
CELSO MING - O Estado de S.Paulo
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, é um viciado em otimismo. Uma a uma, vai perdendo suas apostas. Mas ele não desiste. Olha para o copo quebrado e diz: "Que bom, vamos ter um novo". O problema é que não basta trocar de copo. É preciso evitar que as quebras se repitam.
Suas projeções reluzentes sobre o desempenho econômico estão na memória de todos. Infelizmente, não dá para ter a mesma certeza do ministro quanto à evolução do PIB em 2013. Ele segue prevendo avanço entre 3,5% e 4,0%. Mas está difícil confiar.
O volume de incertezas ainda é alto e o agravamento da inflação no Brasil contribui para emperrar a máquina. As previsões estão ainda mais fortemente sujeitas a erros.
O principal indicador de que 2013 ainda pode apresentar resultado insatisfatório (embora pouco melhor do que o de 2012) é o comportamento do investimento. O IBGE mostrou que, ao longo de 2012, a poupança nacional recuou de 17,2% do PIB para 14,8%; e o investimento, de 19,3% do PIB para 18,1%. Se o brasileiro está comendo sementes e matrizes, como ontem foi aqui apontado, não se pode esperar desempenho melhor da produção nos meses seguintes.
A ideia de que basta acionar o consumo para que a produção siga atrás está sendo contrariada pelas Contas Nacionais. Superprotegida e derrubada pelos custos, a indústria de transformação do Brasil não se mostra capaz de ampliar seu mercado externo e nem sequer dá conta do consumo interno. A política adotada entrega cada vez mais mercado interno para o produtor externo.
O quarto trimestre de 2012 mostrou uma certa melhora em relação aos anteriores. A expansão do PIB, de 0,6% nos últimos três meses de 2012, corresponde a 2,4% ao ano. A indústria, por exemplo, cresceu 0,4% - o que, felizmente, não é outro recuo. E, na ótica da demanda, o investimento (Formação Bruta de Capital Fixo) cresceu 0,5%. Mas esse ritmo melhor não é tração suficiente para um avanço do PIB de 3,5% a 4,0%.
Há fortes evidências de que o governo mudou seu curso. Entendeu que precisa garantir mais investimento. Mas isso não é como acontece nas granjas, onde só basta comprar poedeiras adultas para incrementar a produção de ovos. Os investimentos em infraestrutura levam uma enormidade para apresentar resultados. Não vai ser ainda em 2013 que mais obras em portos, aeroportos, rodovias, ferrovias e tal se transformarão em "pibão grandão", como o pretendido pela presidente Dilma.
A forte queda da poupança interna ao longo de 2012 traz um problema adicional: aumenta a dependência da poupança externa. Significa que alguns atrativos extras serão necessários - e não apenas conversas e roadshows ministeriais nas capitais financeiras do mundo - para atrair o investidor de fora do País.
Além disso, aumento do investimento externo pode implicar a necessidade de tolerar mais rombos nas contas externas (déficits em conta corrente), o que desembocaria em mais perda de mercado interno pela indústria.
E vá lá: se até relógio parado marca a hora correta pelo menos duas vezes por dia, o ministro ainda acabará acertando.

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