terça-feira, 30 de abril de 2013

"Quando olho para quem me sucedeu, me sinto muito bem", diz Sarkozy em crítica a Hollande
AFP PHOTO / FRANCK FIFE
 Ex-presidente francês, Nicolas Sarkozy assite ao jogo entre Barcelona e PSG nas arquibancadas do Parc des Princes, em Paris
Ex-presidente francês, Nicolas Sarkozy assite ao jogo entre Barcelona e PSG nas arquibancadas do Parc des Princes, em Paris
Enquanto o presidente francês, François Hollande, tem de lidar com as estatísticas de emprego desanimadoras e com os confrontos em torno da recente legalização do casamento gay, seu animado predecessor faz uma ofensiva mal velada em Montreal. "Quando olho para quem me sucedeu, me sinto muito bem", diz Nicolas Sarkozy.
Nicolas Sarkozy parece ser a prova viva de que a política é uma profissão pouco saudável. Um ano depois de ter perdido o cargo, o ex-presidente estava com ótima aparência, melhor do que nunca, quando se apresentou no Centro de Convenção de Montreal na última quinta-feira (25). Bronzeado , sorria cheio de energia, com os pés plantados e afastados –não dava para comparar com o homem exausto e cinzento que perdeu a eleição presidencial francesa no ano passado.
Fazia muito tempo desde que ele falara em público pela última vez. Depois de sua derrota para o desafiador François Hollande, do Partido Socialista, Sarkozy parou de aparecer em público. Ele não deu entrevistas nem discursos. Mesmo sua apresentação no Canadá foi fechada ao público em geral. Seguranças na entrada afastavam jornalistas e fotógrafos. Os quase 800 participantes do evento tinham pagado entre US$ 220 e US$ 780 (entre R$ 440 e R$ 1.560) para ouvir Sarkozy como parte de uma série de apresentações organizadas por uma empresa de telecomunicações canadense.
O público consistia de empresários canadenses e ocasionais fãs de Sarkozy, que estavam sentados em mesas elegantemente distribuídas em um grande salão com luzes reduzidas. Eles também jantaram: salada, coxa de pato excessivamente salgada e um pedaço de bolo seco.
À moda norte-americana, Sarkozy foi apresentado como "o 23º presidente da República Francesa". Vou evitar fazer duas coisas hoje", disse ele depois de subir ao palco em meio a aplausos retumbantes: "Interferir na politica canadense –e me envolver na política francesa". Ele fez uma longa pausa para efeito dramático e sorriu: "Apesar de isso não significar que eu não deseje fazê-lo".

Hollande está perdendo o domínio

Poucos minutos antes de Sarkozy assumir o microfone, os serviços de notícias estavam em polvorosa com um novo resultado: o total de desempregados na França atingiu uma alta recorde de 3,22 milhões de pessoas no mês passado.
Enquanto o ex-presidente Sarkozy estava sendo recebido como estadista na francófona província de Québec, tudo parecia estar degringolando para o presidente François Hollande em Paris, cerca de 5.400 km a Leste. A economia está entrando em recessão, e a esquerda está acusando Hollande de não ser esquerdista o suficiente.
Para piorar as coisas, a direita está se manifestando incansavelmente contra o mais importante projeto legislativo de Hollande até hoje, a lei de casamento de mesmo sexo. Surge assim uma versão francesa do movimento do Tea Party americano – que combina o sentimento anti-gay com o sentimento que a esquerda não tem um direito legítimo ao poder.
Parece que Hollande está perdendo seu domínio em todo o país. Um instituto de pesquisa recentemente informou que, depois de apenas um ano de liderança, ele é o presidente francês menos popular da Quinta República, com um índice de aprovação de apenas 21%. Outra pesquisa mostrou que Sarkozy venceria se concorresse contra Hollande hoje.

"Vida depois da política"

Não é de espantar que Sarkozy parecesse tão satisfeito. "Sim, há vida depois da política", disse ao público. "Com toda honestidade, sinto-me bem. E quando olho para quem me sucedeu, me sinto muito bem".
Ao falar no exterior, Sarkozy se vende como defensor da Europa e do euro. "Se o euro implodir, a UE vai explodir", diz ele. "Então não temos escolha", adverte, "sem a União Europeia, haveria guerra novamente na Europa".
O mestre de cerimônias era Michael Fortier, banqueiro canadense e ex-ministro conservador do comércio internacional. Hollande introduziu o casamento gay, disse ele, e acrescentou que isso surpreendeu muitas pessoas no Canadá: eles não fizeram isso há muito tempo na França?
"A França é um país com raízes cristãs", respondeu Sarkozy. "Quando você sobrevoa o país, você avista igrejas e catedrais em toda parte", disse ele. Isso explica o atual conflito, alegou. "E durante uma crise econômica, o presidente tem de ser muito cuidadoso para não dividir o país".   

Críticas a Hollande

A apresentação de Sarkozy foi inteiramente um comentário sobre seu sucessor –mesmo sem mencionar Hollande pelo nome. Começou quando Sarkozy elogiou longamente o ótimo exemplo dado por Barack Obama e George W. Bush quando se encontraram na Casa Branca depois da eleição presidencial, o que foi claramente uma crítica a Hollande, que nem o acompanhou até seu carro na cerimônia de transferência de poder no Palácio do Eliseu. As críticas continuaram com a questão de como lidar com a China, e o comentário que os gastos do governo naturalmente tinham de ser reduzidos.
Muitas coisas, porém, ficaram por dizer: por exemplo, que Sarkozy está sendo investigado por financiamento ilegal de campanha. E Sarkozy evitou completamente a questão que está na mente de todos, ou seja, se vai se candidatar novamente para presidente em 2017. Os conservadores, divididos, não têm candidato alternativo atualmente.
Naquela tarde, Sarkozy foi para Nova York para se encontrar com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. O francês atualmente está em muitas listas de convidados e, quanto mais ele se mantém em silêncio, mais se torna popular na França.
"Não amo a política", admite. "Muitas vezes me senti entediado nas reuniões sem fim em que nada é decidido. O que eu gosto é de agir".
Parece que o tempo está do lado dele.
Traduzido do alemão por Paul Cohen e do inglês por Deborah Weinberg

Nenhum comentário: