terça-feira, 5 de março de 2013

A crise do euro está prestes a voltar?
Dinah Deckstein, Christian Reiermann e Christoph Schult - Der Spiegel
Daniel Roland/AFP

O presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi
O presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi
As eleições recentes na Itália demonstraram que o espectro da volta da crise do euro nunca está distante. Nem um único problema da zona do euro foi definitivamente resolvido, e há quem se pergunte se o Banco Central Europeu não terá que voltar a intervir.
Mario Draghi tem um relacionamento de proximidade com o mundo da fé. O presidente do Banco Central Europeu (BCE) estudou em uma escola jesuíta em Roma, escreveu artigos para o jornal do Vaticano "L"Osservatores Romano" e escolheu a Academia Católica em Munique como local para fazer suas observações a respeito da "crise na zona do euro", na semana passada.
"A preocupação com o bem-estar de nossos vizinhos não é apenas um princípio ético da fé cristã", pregou, em pé ao lado de um crucifixo iluminado por velas. "Também faz eminente sentido econômico", completou.
O principal gestor de políticas monetárias da Europa certamente precisa da ajuda dos poderes mais elevados. Apenas poucas semanas atrás, ele disse que "a pior parte" da crise do euro tinha terminado. Mas, quando os eleitores negaram uma clara maioria aos atuais defensores das reformas nas recentes eleições da Itália, dando ao ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi um retorno político, a crise voltou.

A volta do nervosismo

Os mercados reagiram com nervosismo, como esperado. Os preços das ações desmoronaram de Milão a Nova York, houve um aumento marcado nas taxas de juros dos bônus do governo italiano e o valor do euro caiu nos mercados de moeda estrangeira. A explosão mostra que a crise do euro não foi superada. Ao anunciar que pretendia fazer todo o possível para salvar a moeda comum, Draghi estava simplesmente comprando tempo.
Por semanas, sua promessa pareceu um forte remédio de gripe: tratou os sintomas com sucesso, mas não eliminou o vírus que causava a doença. Na superfície, o paciente parecia ter se recuperado, mas, na realidade, ele estava tão doente quanto antes. Os políticos em Berlim, Bruxelas e Washington, sede do Fundo Monetário Internacional (FMI), estão de olho em meia dúzia de pontos quentes na zona do euro. Sua conclusão alarmante é que alguns patógenos agora estão mais perigosos do que nunca.
A combinação das eleições na Itália com a continuidade da estagnação da economia francesa tornou-se um sério obstáculo para a recuperação da zona do euro, segundo funcionários que trabalham com o ministro das finanças alemão, Wolfgang Schäuble, membro da União Democrática Crista (CDU), de centro-direita. Schäuble e seus especialistas estão especialmente preocupados com a condição da França, observando com descrença como o governo do presidente François Hollande presidiu um estado de estagnação e declínio por meses.
Washington está igualmente pessimista. As primeiras reformas do mercado de trabalho francês, com as quais patrões e sindicatos recentemente concordaram, apontam na direção certa, dizem autoridades do FMI, mas ainda são muito hesitantes. A diretora do FMI, Christine Lagarde, em seu novo relatório do Cenário Econômico Mundial, a ser divulgado em meados de abril, pretende expor claramente as fraquezas de seu país natal, a França, e exortar Hollande a instituir reformas ousadas.
O FMI, contudo, não está apenas preocupado com França e Itália, segunda e terceira economias da zona do euro. De acordo com a organização que tem sede em Washington, a quarta maior economia da zona do euro, a Espanha, está longe de reabilitada. O setor bancário do país, em particular, é tido como um ponto problemático. No final da semana passada, um dos maiores bancos da Espanha, o Bankia, relatou uma perda recorde de quase $ 20 bilhões de euros (em torno de R$ 50 bilhões).

Problemas na periferia

Por fim, tampouco os problemas dos países periféricos mediterrâneos Grécia e Chipre foram resolvidos.
No caso da Grécia, o FMI diz que estão pulando de uma visita da troika para a seguinte. A cada três meses, especialistas de Washington, do BCE e da Comissão Europeia baixam no país para se assegurarem do sucesso das reformas. Apesar de a situação estar melhorando lentamente, na semana passada a Força Tarefa do Euro, um grupo de altas autoridades com a tarefa de preparar as reuniões mensais dos ministros das finanças da zona do euro, divulgou o valor da parcela de fevereiro para a Grécia, de $ 2,8 bilhões de euros. Os novos fundos vão manter o país no azul por algum tempo, mas quase todos os especialistas acreditam que as injeções financeiras não resolverão os problemas da Grécia no longo prazo. Acredita-se que outro corte de cabelo da dívida, desta vez por credores públicos, será inevitável para a recuperação da Grécia. Mas isso não vai acontecer antes das eleições federais da Alemanha em setembro.
Também no Chipre muito pouco progresso foi alcançado. Apesar de o país ter elegido recentemente um presidente conservador, uma mudança na forma de pensar parece improvável. Como seu predecessor comunista, o novo presidente se opõe a aumentar o imposto sobre empresas --de 10%, o mais baixo na zona do euro, comparado com 29% cobrado na Alemanha-- e permitir que o setor financeiro do país seja investigado por lavagem de dinheiro. As duas condições foram impostas para a ajuda pelos países doadores.
Essas condições, contudo, são as únicas coisas com as quais os membros da zona do euro concordam. De outra forma, estão profundamente divididos sobre o Chipre. O governo alemão ainda questiona se a ilha mediterrânea precisa de um programa de ajuda. Por outro lado, o comissário de assuntos monetários e econômicos da UE, Olli REhn, acredita "que cada membro da zona do euro é sistematicamente relevante". Ele se opõe a planos para envolver os credores dos bancos cipriotas nos custos do programa de ajuda.
O ministro das finanças alemão, Schäuble, e seu colega francês, Pierre Moscovici, recentemente falaram em encontrar uma solução até o final de março, mas ninguém em Bruxelas está levando essa data a sério. De acordo com os participantes, não há evidências de união franco-germânica nas negociações. Mas o tempo é curto. O Chipre vai ficar sem dinheiro em torno da Páscoa, quando a união monetária pode voltar a cambalear. "Se o Chipre enfrentar um calote desordenado, há alta probabilidade de que as consequências sejam sua saída da zona do euro", adverte o comissário Rehn.

Preocupação crescente

Há preocupação crescente entre os políticos de que a crise do euro possa voltar com toda força em breve. "O ambiente nos mercados financeiros, que recentemente assinalava calma, estava um pouco à frente da situação atual", concluiu um membro do FMI.
Ninguém sente as consequências com tanta força quanto o diretor do BCE, Draghi, que observa com preocupação o crédito secando e o investimento encolhendo em muitos países. Ele teme que o BCE tenha que intervir mais do que já fez.
No ano passado, o BCE sustentou a Grécia por meses, porque a UE não conseguiu concordar com um pacote de resgate por tanto tempo. Recentemente, ele preferiu fechar os olhos quando o banco central irlandês saiu em ajuda de um banco, e a proibição de patrocinar diretamente orçamentos públicos foi espertamente driblada. Se o BCE agora for forçado a ajudar o governo italiano que não está disposto a instituir reformas, sua credibilidade seria destruída de uma vez por todas. Muitos bancos centrais não estão mais querendo cooperar com os legisladores por trás dos programas de resgate da Europa.
Não estranha que os apelos de Draghi aos governos agora estão começando a soar como sermões. "Os indivíduos têm que fazer o que podem para se ajudarem antes de pedirem ajuda da comunidade", disse Draghi à plateia em Munique na semana passada. "O mesmo é verdade para os países na zona do euro."
Tradutor: Deborah Weinberg

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