terça-feira, 5 de março de 2013

Pacto com Irã divide a Argentina e coloca Kirchner em confronto com a comunidade judaica
Francisco Peregil - El Pais
11.jan.2013 - Franklin Reyes/AP

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner
A presidente da Argentina, Cristina Kirchner
Uma das questões que geram mais união na Argentina é a reivindicação às ilhas Malvinas. Outra é o desejo de colocar entre as grades os autores do atentado com um carro-bomba que, em 1994, matou 85 pessoas na sede da Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia), em Buenos Aires.
Durante 19 anos, vários presidentes perseguiram esse objetivo. Mas, os que mais meios lhe dedicaram foram Néstor Kirchner (2003-2007) e sua viúva, Cristina Fernández de Kirchner. Foi sob o governo dele que se criou uma promotoria --ainda ativa-- cuja única missão é investigar o atentado. E foi esse promotor, Alberto Nisman, que apontou o governo iraniano como o autor intelectual e a organização Hizbollah como seu braço executor. O trabalho de Nisman foi vital para que, em 2007, a Interpol colocasse o código vermelho --a ordem de busca internacional-- para cinco dos oito suspeitos.
O problema é que, entre esses cinco fugitivos, está nem mais nem menos que o atual ministro da Defesa do Irã, Ahmad Vahidi. Os outros quatro são o ex-ministro da Informação Ali Fallahijan, o ex-assessor governamental Mohsen Rezai, o ex-adido da Embaixada do Irã em Buenos Aires Moshen Rabbani e o ex-funcionário Ahmad Reza Ashgari.
Até agora o Irã havia negado que algum deles fosse submetido a qualquer pesquisa. No entanto, em 27 de janeiro, o ministro das Relações Exteriores argentino, o judeu Héctor Timerman, assinou com seu colega iraniano na Etiópia um memorando de entendimento para investigar o atentado. E aí se rompeu a unidade que até o momento os argentinos haviam demonstrado com relação à perseguição dos suspeitos.
"Em um país de 40 milhões de habitantes, nós judeus somos apenas 200 mil", afirma o jornalista Pepe Eliaschev. "A comunidade judaica foi em sua maior parte aliada natural do governo Kirchner porque coincidiu com sua concepção dos direitos humanos. A partir desse acordo, nada mais será igual."
Em 27 de janeiro a presidente Kirchner anunciava no Twitter com certa euforia os detalhes do acordo e explicava em 19 mensagens sua dimensão histórica. O tratado prevê a criação de uma Comissão da Verdade formada por cinco juristas, dois propostos por cada país e um escolhido de forma conjunta. Além disso, permite que as autoridades judiciárias argentinas e iranianas interroguem os cinco fugitivos procurados pela Interpol.
Entretanto, Kirchner encontrou a rejeição de quase todos os grupos parlamentares e das principais associações judaicas argentinas. Para eles, a diferença entre interrogar e submeter a uma indagação é essencial. A indagação, figura jurídica que não aparece mencionada no memorando, implicaria a possibilidade de deter o suspeito. O interrogatório poderia equivaler a uma simples entrevista, segundo os opositores.
O ministro das Relações Exteriores argentino argumentou esta semana no Congresso que, antes de assinar o acordo, não se poderia interrogar ninguém, mas agora um juiz argentino poderá fazê-lo. "Mas de que nos serve que um juiz vá ao Irã se não puder ordenar a prisão preventiva de ninguém?", pergunta-se Julio Schloser, presidente da Delegação de Associações Israelenses da Argentina (Daia).
"Além disso, o acordo é muito vago, impreciso, não se define qualquer prazo para a criação da comissão", diz Schloser. "Os processos no caso Amia ocupam 200 mil páginas. Quando os cinco juristas da comissão vão ler isso? Quanto vão demorar para traduzir para o farsi ou o para o inglês?"
Outra questão que levantam os críticos é que, uma vez que o Parlamento iraniano aprove e se ratifique pelos dois países, a Interpol poderia retirar a ordem de busca dos cinco suspeitos. "A Interpol pode interpretar que já se cumpriram os objetivos dos alertas vermelhos e que, fruto deles, os dois países se sentaram para negociar", afirma o senador Ernesto Sanz, da União Cívica Radical, de oposição.
Juan Carlos Zabalza, presidente do bloco socialista na Frente Ampla Progressista, indica que estranha muito "a urgência" com que o governo defendeu o tratado. "A lógica diante de uma virada radical, uma mudança de posição histórica da Argentina nessa questão, teria sido facilitar um diálogo na Comissão de Relações Exteriores do Congresso. Mas só se remeteu o acordo a uma sessão extraordinária do Parlamento para submetê-la a votação em um prazo urgente."
Zabalza, assim como outros porta-vozes da oposição, acredita que a partir de agora o Irã conseguirá aumentar sua presença econômica na América Latina. Mas a presidente Kirchner rejeitou na sexta-feira (1º) que houvesse algum interesse comercial ou mesmo de intercâmbio de material nuclear, como se chegou a publicar.
Por que o governo assinou o acordo? "Primeiro, porque sou uma pessoa que gosta de enfrentar os problemas", respondeu Kirchner na sexta-feira, no Congresso. Depois acrescentou que só pretende conhecer "a verdade" sobre o que aconteceu. Ele acredita que, no pior dos casos, tudo ficaria como está hoje.
Entretanto, vários opositores pensam que a razão oculta é o déficit energético da Argentina. O deputado de oposição peronista Eduardo Amadeo disse esta semana no Congresso: "Por trás disso há um modelo energético que cai aos pedaços, a necessidade desesperada de petróleo, a necessidade de dinheiro para capitalizar a YPF. Agora, em que mente cabe que a Argentina possa trocar direitos humanos por petróleo? Vamos vender as vítimas da Amia por um barril de petróleo."
A oposição também acusa o governo de se alinhar de forma mais evidente que nunca ao eixo Cuba-Venezuela-Irã. Mas Kirchner não pretende permitir que "ninguém utilize a desgraça e a tragédia dos argentinos para fins da geopolítica internacional". Só busca "a verdade".
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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