terça-feira, 5 de março de 2013

Brasil-2014: o que copiar (e o que mudar)
Giancarlo Lepiani - VEJA

Na noite de domingo, a Copa do Mundo era da África do Sul. Na manhã desta segunda-feira, ela está nas mãos do Brasil, que tem quatro anos para preparar a festa. O primeiro Mundial realizado em continente africano pode ser considerado um bom ensaio aos brasileiros – afinal, assim como no Brasil, o desafio dos sul-africanos era realizar uma festa bem-sucedida e empolgante, mas dentro de suas possibilidades. A anfitriã do Mundial-2010 gastou mais do que devia, mas deu conta do recado. No geral, foi um sucesso. Mas não faltaram alguns tropeços, inevitáveis quando se trata de um evento de proporções tão monumentais. A seguir, alguns exemplos sul-africanos que o Brasil deve seguir no caminho até 2014 – e outros que devem ser driblados para sediar uma Copa ainda melhor dentro de quatro anos:
O QUE O BRASIL DEVERIA COPIAR

Foi num aeroporto sul-africano que aconteceu a maior falha da Copa da África do Sul. Nas horas que antecederam o jogo de semi entre Alemanha e Espanha, em Durban, o aeroporto King Shaka ficou congestionado e não deu conta de todos os pousos previstos. Muitos torcedores perderam a partida. O episódio está sob investigação, mas parece ter sido um caso de falha isolada, com uma soma de problemas inesperados. No geral, a estrutura aeroportuária sul-africana funcionou bem e aguentou o tranco. Aeroportos menores, como o de Port Elizabeth e Bloemfontein, foram reformados e readequados à demanda, mas sem exageros desnecessários para o futuro. Os maiores, como o de Johannesburgo, sofreram intervenções mais radicais. Não houve caos nem mesmo nos dias de maior concentração de torcedores. Como os aeroportos são o ponto crítico do projeto brasileiro, vale a pena usar os exemplos.
A preocupação com a criminalidade foi uma característica comum nas candidaturas da África do Sul e do Brasil. Com treinamento incansável, qualificação das forças de segurança e reforço material e de pessoal na polícia, os sul-africanos realizaram uma Copa sem casos graves de violência urbana. Os assaltos, inevitáveis em qualquer grande cidade, aconteceram, é claro. Mas nem de longe chegaram ao número que se temia antes da Copa. Entre as dezenas de milhares de turistas que desembarcaram no país, a opinião mais frequente é de que a sensação de segurança durante o Mundial foi muito maior do que se esperava. Ponto para 2010 – e modelo a ser estudado para 2014.
O QUE O BRASIL PODE MELHORAR

Os estádios construídos para o Mundial de 2010 foram palcos mais do que adequados para receber o torneio. Três deles – Soccer City, em Johannesburgo, Moses Mabhida, de Durban, e Green Point, na Cidade do Cabo – estão entre os melhores do mundo (e, de quebra, também figuram entre os mais bonitos do planeta). Nos estádios menores, não havia o mesmo conforto nem o mesmo luxo, mas todos funcionavam bem para receber partidas de menor destaque. Mas dois aspectos importantes preocupam: os custos ficaram muito acima do previsto inicialmente e pelo menos quatro estádios (Nelspruit, Rustemburgo, Port Elizabeth e Polokwane) devem ficar às moscas a partir de agora. Para 2014, a lição é não descuidar dos cofres e evitar o nascimento de elefantes brancos.
O transporte público, setor problemático em muitas das sedes sul-africanas da Copa, recebeu investimentos multimilionários na contagem regressiva para o Mundial. Dessas obras resultaram corredores de ônibus, novas linhas de trem e frotas renovadas nos sistemas de transporte urbano. Ainda assim, faltaram opções de transporte coletivo em quase todas as sedes. Em outros casos, as obras previstas não ficaram prontas a tempo – em Johannesburgo, por exemplo, a renovação do sistema de ônibus não chegou a ser totalmente concluída. Assim como a África do Sul, o Brasil precisa investir em transporte em muitas de suas sedes. Mas o desafio é fazer isso dentro dos prazos – e com projetos bem feitos, capazes de realmente transformar a locomoção nas cidades.
O QUE O BRASIL PRECISA MUDAR

Os gastos com o Mundial passaram dos limites, apesar das promessas de que a Copa seria feita dentro das possibilidades que o país oferecia. Os prazos para as obras ficaram no limite, os trabalhos tiveram de ser acelerados e os custos dispararam. Para complicar a situação, os sul-africanos ficaram reféns de sindicatos ligados à construção dos estádios e à prestação de vários serviços ligados ao Mundial. Perto do fim das obras, inúmeras greves atrapalharam o andamento dos preparativos – e gastou-se ainda mais dinheiro para resolver esses impasses. Esse é o desafio número um do Brasil: não gastar mais do que pode ou deve.
A preparação dos sul-africanos que receberam os turistas deixou a desejar em muitas das sedes de 2010. Funcionários treinados e capazes de ajudar apareciam com frequência nos estádios, locais históricos, atrações turísticas, lojas e restaurantes. Mas, com frequência parecida, os visitantes se deparavam com pessoas que não tinham sido preparadas para acolher os torcedores de outros países. No caso do Brasil, a atenção que deve ser dispensada a esse treinamento é ainda maior – afinal, se houve falha de comunicação num país em que o inglês é um dos idiomas oficiais, mais difícil ainda será num lugar onde se fala português.

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